Mentiras Privadas

Mentiras Privadas

Na infância fomos educados para dizer a verdade e foi-nos ensinado que ser honesto compensa. Contudo, à medida que crescemos, damo-nos conta de que a verdade pode ser muito cruel e poucos relacionamentos poderiam sobreviver à realidade de uma honestidade brutal. Para evitar magoar outros, aprendemos a utilidade das “mentiras piedosas”. Por outro lado, as mentiras que construímos apenas em nosso benefício podem magoar e são frequentemente utilizadas apenas para evitar o castigo.

A generalidade das pessoas considera-se honesta, nomeadamente de acordo com os ditames da sociedade. Mas o que a sociedade considera honestidade e o que é a verdade são duas coisas completamente diferentes. Temos sido sistematicamente ensinados na nossa cultura a tornar a mentira uma parte das nossas vidas. Fazemo-lo com tanta frequência que nem nos damos conta disso.

Se honestidade é “dizer a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade”, a versão politicamente aceite é “Dizer a verdade, e somente parte da verdade, na medida em que nos serve e ninguém se sente magoado”. E este é o raciocínio presente nas consistentes e persistentes mentiras piedosas, que dizemos aos outros todos os dias.

Parece-nos perfeitamente plausível esconder a verdade ou parte dela se julgamos que esta vai magoar os sentimentos de alguém, iniciar um conflito, deixar mal o outro ou fazer-nos parecer mal.

Porque mentimos?

Mentimos porque nem sempre podemos dizer toda a verdade. Porque precisamos que as pessoas gostem de nós, nos amem e nos aceitem. Quando não se trata de uma situação patológica ou de um distúrbio de personalidade, as razões mais frequentes por detrás de uma mentira podem ter como objectivos combater o medo de ser rejeitado, considerado ridículo ou indesejável; não perder o controlo da situação, o que na realidade não passa de uma ilusão já que ninguém tem o controlo de nada a não ser dos seus comportamentos com que responde ás situações; esconder aspectos da nossa maneira de ser que consideramos intoleráveis e, finalmente, combater a insegurança e a vulnerabilidade através de uma falsa imagem. Ironicamente se não dissermos a verdade e construirmos estes “falsos eus” as pessoas não conseguem gostar de nós! Logo, a única forma de sermos realmente amados, realmente aceites, é mostrando quem somos com verdade. Só dando-nos realmente a conhecer, é possível aos outros aceitar quem realmente somos. Se usamos uma máscara, uma realidade construída de quem nós somos, o outro só poderá amar, aceitar e relacionar- se com a máscara. E então sentimo-nos mais sozinhos do que nunca e, até mesmo, ressentidos com os outros por uma armadilha criada a nós mesmos.

Efeitos perversos.

As mentiras interferem nas nossas relações, sejam elas amorosas, de amizade ou profissionais.

Uma relação saudável baseia- se principalmente na confiança. Sem ela, não existe a tranquilidade necessária para que a relação se aprofunde e desenvolva. É muito difícil manter um relacionamento amoroso quando um dos parceiros perde a confiança no outro, conseguir uma promoção quando o patrão percebe que utilizamos sis­tematicamente as “desculpas de mau pagador” para justificarmos os nossos atos menos meritórios ou, ainda, ajudar os nossos filhos a crescer saudavelmente quando são sistematicamente confrontados com a “invenção da realidade” mostrando-lhes que é normal não assumirmos a responsabilidade plena dos nossos atos e pensamentos. E uma vez mais não estamos a falar de outras que não as mentiras piedosas.

A mentira tem efeitos perversos numa relação, que muitas vezes fica irremediavelmente afectada ou necessita de ajuda profissional para ser reciclada. Aqui fica um breve enunciado destes efeitos perversos:

Decepção — “afinal ele não é quem eu pensava!”, “preciso de saber se posso confiar”, “Será todo o nosso relacionamento uma mentira?”

Desconfiança — Este é um dos efeitos mais devastadores e mais difíceis de reconquistar numa relação, qualquer que seja a sua natureza, e mesmo quando estamos dispostos a lutar pelo relacionamento torna- se um dos objectivos mais desgastantes e difíceis de alcançar.

Desrespeito — Ao mentirmos tiramos ao outro a oportunidade de escolha, desrespeitamo-lo como ser inteligente autónomo, que necessita de agir de acordo com a sua interpretação do mundo.

Desinteresse — é uma das marcas que vai afectar mais o estilo de envolvimento na relação. O medo de voltar a ser enganado leva-nos investir cada vez menos e a afastar- nos dentro da relação.

Ruptura — Ironicamente,  muitas vezes foi o medo da ruptura que nos levou a utilizar as mentiras piedosas em primeiro lugar.

Mentir ou não mentir?

Em última análise a decisão será sempre individual, pesando os prós e os contras da situação que está em jogo.

Seja qual for a opção há que atender às necessidades mais básicas por detrás de uma pergunta ou afirmação.

Imaginemos que você está ao telefone com a sua melhor amiga que detesta o seu atual marido. Este por sua vez está desejoso de saber com quem você está ao telefone mas não ousa perguntar. Se você disser “A Ana manda cumprimentos” estaremos a usar uma mentira piedosa. Assim, respondemos a uma necessidade que reconhecemos, damos a informação desejada e evitamos uma situação em que a mentira é melhor que a ver­dade de saber que a Ana o detesta ou ignora.

Se estão na iminência de sair e a sua companheira lhe pergunta como lhe fica o vestido, a resposta poderá ser “muito bem, estás linda”. A oportunidade do momento e a necessidade de se sentir confiante, segura e apreciada justifica uma resposta como esta, mesmo se isso não corresponder exatamente à nossa apreciação pessoal ou gostássemos que o vestido fosse outro. Respeitar as necessidades básicas de segurança e aceitação foi mais importante do que ser brutalmente honesto, quem sabe egoísta, dizendo “o vermelho ficaria muito melhor”.

Por sua vez há que atender à seriedade do problema que está a ser abordado na situação em relação à qual não expressamos a nossa verdadeira opinião utilizando a mentira piedosa.

Mentir acerca da satisfação sexual não é uma boa ideia pois estará a comprometer a resolução daquilo que, com o tempo, pode tornar- se num grande problema. Mais vale escolher o momento e falar com o seu parceiro sobre formas de explorar outras alternativas mais satisfatórias para ambos.

Afirmar com toda a facilidade “tudo bem” quando somos questionados por alguém que gosta de nós e que percebe claramente que não está nada bem, também pode ser uma armadilha perigosa. Você sente-se péssimo(a) e embora não seja nada com o seu companheiro(a) ele já percebeu. Você não tem vontade de falar sobre o assunto enquanto não refletir melhor sobre o que se passou, mas também não é capaz de lho dizer desta maneira. O que pode acontecer é que este tipo de mentira sem importância poderá converter-se num drama de grandes dimensões. O seu companheiro(a) pensará que se trata de algo que tem a ver com ele ou com a vossa relação, que você tem segredos que não quer partilhar e não confia o suficiente para o ter como seu confidente. Será melhor dizer claramente qualquer coisa como “estou preocupada, mas não é nada contigo, e agora gostaria de refletir melhor sobre o assunto. Até lá não me apetece falar sobre isso. Mais logo, talvez”.

Finalmente, o povo diz que “se apanha mais depressa um mentiroso que um coxo”, e a sabedoria popular dá que pensar como queremos construir a nossa rela­ção com os outros.