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Entre ficar e partir

Nem todas as relações precisam da mesma resposta. Antes de decidir se faz sentido continuar ou terminar, pode ser importante perceber o que está mesmo a acontecer entre o casal

Há uma pergunta que aparece muitas vezes na consulta de casal.

Falamos primeiro das discussões, do cansaço, da distância. Dos filhos. Da traição. Da falta de tempo. Ou daquela sensação estranha de já não saber muito bem como voltar a conversar com a pessoa que está à nossa frente.

E depois, quase sempre mais tarde, quando já existe algum espaço para o silêncio, alguém pergunta:

Acha que temos hipótese?”

É uma pergunta importante. Mas muitas vezes chega cedo demais.

Porque nos coloca imediatamente perante uma escolha: ficar ou partir. E talvez ainda não seja esse o momento. Antes de decidir o que fazer com uma relação, precisamos, muitas vezes, de perceber o que está realmente a acontecer dentro dela.

O que se passou entre aquelas duas pessoas para chegarem até ali?

É curioso como somos rápidos a concluir que uma relação acabou. Às vezes porque se discute demasiado. Outras porque já não se discute nada. Porque já não há desejo. Porque há demasiado desejo, mas pouca proximidade. Porque um dos dois se afastou. Porque ambos se cansaram.

Só que uma relação é quase sempre mais complexa do que aquilo que aparece à superfície.

Ao longo dos anos, tenho aprendido a desconfiar dos sinais isolados. Aquilo que vemos é apenas uma parte da história. Um pouco como olhar para o mar e tentar perceber o que está a acontecer nas correntes que não conseguimos ver.

Por isso, quando alguém me diz “Eu quero salvar a relação”, há uma pergunta que me ocorre quase imediatamente:

Salvar exactamente o quê?

Às vezes é a relação.

Outras vezes é a família. A vida que construíram. A imagem que cada um tem de si próprio enquanto marido, mulher ou companheiro. Ou a esperança de voltar a encontrar aquilo que existia no início.

E há ainda uma possibilidade menos evidente: talvez aquilo que assuste mais seja imaginar quem se será depois da relação.

Não são perguntas para responder depressa. Aliás, algumas talvez precisem mesmo de ficar sem resposta durante algum tempo.

Porque quando tudo está misturado — amor, medo, culpa, filhos, história, dependência, esperança, cansaço — torna-se difícil perceber aquilo que pertence verdadeiramente à relação e aquilo que pertence ao medo de a perder.

Há casais que chegam à consulta convencidos de que o amor acabou.

Começamos a conversar. Um fala, o outro escuta. Depois trocam. Voltamos atrás. Tentamos perceber quando começaram a afastar-se, o que cada um foi sentindo, aquilo que deixou de ser dito.

E, por vezes, aparece uma história diferente.

Percebemos que ainda estão profundamente ligados. Que continuam a sofrer um com o outro e, em muitos casos, por causa um do outro.

Isso não significa necessariamente que devam ficar juntos. Significa apenas que a relação ainda tem peso emocional.

Noutros casais, a história é quase inversa.

Não discutem. A vida funciona. Os filhos estão orientados, as contas pagas, as tarefas distribuídas. Não há grandes conflitos e, visto de fora, tudo parece relativamente tranquilo.

Mas depois começamos a conversar.

E percebemos que já não se encontram há muito tempo.

Não há discussão, é verdade. Mas também já não há curiosidade. Já não existe aquela vontade espontânea de saber como o outro está, o que pensa, o que deseja ou até quem se está a tornar.

Por isso, uma relação pode estar cheia de conflito e continuar emocionalmente viva. E pode parecer tranquila porque, na verdade, já quase nada está em jogo.

É também por isso que duas pessoas podem viver os mesmos anos e contar histórias completamente diferentes sobre eles.

Uma diz:

“Passei anos a sentir-me sozinho.”

A outra pensa:

“Passei anos a tentar. Nunca consegui fazer o suficiente.”

Uma lembra-se da ausência. A outra lembra-se do esforço.

Uma diz:

“Nunca estiveste lá quando precisei de ti.”

E o outro talvez tenha passado anos a pensar:

“Eu nunca consegui perceber o que ela precisava de mim.”

É neste ponto que a terapia de casal pode tornar-se particularmente interessante.

Porque deixamos, pouco a pouco, de tentar decidir quem tem razão e começamos a olhar para aquilo que se criou entre os dois.

Como é que estas duas pessoas chegaram aqui?

E, sobretudo, como é que foram participando, sem necessariamente perceberem, no ciclo que hoje as mantém presas?

Muitas das atitudes que mais magoam numa relação começaram, curiosamente, como tentativas de proteger alguma coisa.

Quem insiste pode estar a tentar impedir a distância.

Quem se afasta pode estar a tentar evitar mais uma discussão, mais uma acusação, mais uma experiência de fracasso.

Quem controla pode estar aterrorizado com a possibilidade de perder.

Quem desiste de falar pode já não acreditar que será ouvido.

O problema é que estas estratégias raramente protegem aquilo que pretendiam proteger. Muitas vezes fazem exactamente o contrário.

A insistência provoca afastamento. O afastamento aumenta a insegurança. A insegurança leva a mais controlo. E o controlo torna ainda mais difícil aproximar-se.

É assim que um casal pode passar anos a lutar contra um problema que, entretanto, passou a ser criado pelos dois.

E é aqui que a pergunta inicial começa a mudar.

Já não é apenas:

“Temos alguma hipótese?”

Talvez seja antes:

“O que é que ainda não compreendemos sobre a forma como nos fomos perdendo um do outro?”

Esta pergunta não garante uma reconciliação.

Nem deveria.

Há relações que terminam. E há relações cujo fim, depois de compreendido, pode ser a decisão mais saudável para ambos.

Mas há uma diferença importante entre terminar porque já não conseguimos suportar aquilo que estamos a viver e terminar depois de percebermos verdadeiramente o que aconteceu.

Da mesma forma, há uma diferença entre ficar porque ainda existe uma possibilidade real de reconstrução e ficar apenas porque temos medo do que acontecerá se partirmos.

Talvez seja por isso que, antes de perguntar se uma relação deve continuar, seja tão importante perceber se ainda existe alguma coisa que possa ser reconstruída.

E, se existir, o que seria necessário para que isso acontecesse.

Porque, às vezes, o mais difícil não é decidir entre ficar e partir.

É conseguir olhar para a relação com honestidade suficiente para perceber aquilo que ela ainda pode oferecer e aquilo que, por mais que se deseje, já não pode ser pedido.

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