
Algumas das discussões mais difíceis surgem precisamente quando um casal começa novamente a sentir-se ligado e a recuperar a esperança na relação.
Porque é que alguns casais discutem precisamente quando começam a sentir-se mais próximos?
“Esta semana até correu bem… e depois bastou uma coisa sem importância para voltarmos ao mesmo.” É uma frase que ouço muitas vezes em consulta. Normalmente, é dita com um misto de tristeza e frustração, como se aquele momento viesse confirmar uma ideia que o casal já traz consigo há algum tempo: “Nós nunca conseguimos estar verdadeiramente bem.”
À primeira vista, isto parece um contrassenso. Se as coisas estavam finalmente a melhorar, porque é que voltaram a discutir? A maioria das pessoas responde logo: “Porque não sabemos comunicar.”
Na verdade, muitas vezes não é isso que está a acontecer. Há discussões que aparecem precisamente quando o casal começa novamente a sentir-se próximo, quando regressam os momentos de cumplicidade, quando voltam as conversas, quando há mais carinho ou quando, pela primeira vez em muito tempo, surge a esperança de que talvez ainda seja possível recuperar a relação. E é precisamente aí que, por vezes, surge uma discussão aparentemente absurda. Não porque a relação esteja pior, mas porque a proximidade muda completamente aquilo que está em jogo.
Quando alguém deixa de ser importante para nós, deixamos também de correr o risco de nos sentirmos profundamente magoados por essa pessoa. Mas quando voltamos a abrir espaço para o outro, abrimos igualmente espaço para a possibilidade de sermos rejeitados, desiludidos ou abandonados. A proximidade traz conforto, mas também traz vulnerabilidade, e nem sempre sabemos lidar com essa vulnerabilidade. Sem nos apercebermos, começamos a proteger-nos. Algumas pessoas insistem no contacto, outras afastam-se, há quem proteste, há quem se cale, há quem precise de resolver tudo agora e quem precise de tempo para organizar ideias e emoções. Aparentemente parecem comportamentos completamente diferentes mas, muitas vezes, todos estão a tentar responder à mesma pergunta. “Será que continuo a ser importante para ti?” e, contudo, quase nunca fazemos esta pergunta de forma direta. Ela aparece disfarçada numa crítica porque o outro chegou mais tarde, na discussão sobre a educação dos filhos, na forma como reagimos a uma mensagem que ficou sem resposta, ou até na famosa queixa da loiça que não foi para a máquina. O tema parece ser esse, mas na maior parte das vezes, não é. Há uma ideia que costumo partilhar com os casais: o conteúdo da discussão e o verdadeiro conflito raramente são a mesma coisa. A discussão pode ser sobre dinheiro, horários ou tarefas domésticas, mas aquilo que realmente dói costuma ser muito mais profundo. O que queremos mesmo saber é se “Posso contar contigo?” “Importo tanto quanto tu importas para mim?” “Quando preciso de ti, encontras-me ou volto a ficar sozinho?” É por isso que, muitas vezes, acabam por discutir durante uma hora por causa de algo que, depois classificam como insignificante.
Não estão apenas a discutir sobre o presente, estão a reagir ao significado que aquele momento ganhou para cada um. É também por isso que, em terapia de casal, não procuramos culpados. Esse caminho não ajuda. Torna-se muito mais interessante perceber o que aconteceu entre os dois. Quando observamos o casal desta forma, começamos a reparar que ambos ficaram presos num ciclo que nenhum escolheu conscientemente. Quanto mais um insiste porque precisa de sentir proximidade e segurança, mais o outro pode sentir que nunca consegue corresponder e acaba por se proteger afastando-se. E quanto mais se afasta para evitar mais tensão, mais o primeiro sente que está a perder a relação e insiste ainda mais. Sem querer, ambos começam a alimentar exatamente aquilo que mais receiam: um sente abandono, o outro sente fracasso, e, cada um confirma, sem intenção, o medo do outro. É precisamente aqui que muitas pessoas descobrem algo profundamente libertador.
O problema deixa de ser “o meu marido” ou “a minha mulher”, mas o ciclo em que os dois ficaram presos. Quando conseguimos olhar para o ciclo, em vez de procurarmos um culpado, começa a surgir espaço para uma conversa completamente diferente. Deixamos de perguntar: “Quem tem razão?” E começamos a perguntar: “O que é que cada um de nós está a tentar proteger quando reage desta forma?” Esta mudança parece pequena mas transforma profundamente a forma como um casal se olha porque, de repente, a crítica pode deixar de ser vista apenas como crítica e passar a ser entendida como uma tentativa desajeitada de pedir proximidade, o silêncio pode deixar de ser interpretado apenas como desinteresse e começar a ser visto como uma forma de evitar dizer algo que possa magoar ainda mais. Nenhuma destas estratégias costuma resultar muito bem, mas quase todas nasceram da tentativa de proteger a relação e não de a destruir.
Talvez seja esta uma das ideias mais importantes que a terapia de casal nos pode oferecer. Nem sempre discutimos porque estamos mais longe, às vezes discutimos precisamente porque voltámos a sentir que aquela relação ainda importa, porque quando há esperança, também há mais medo de perder. E talvez a pergunta mais útil não seja: “Porque voltámos a discutir?” mas antes: “O que tornou esta discussão tão importante para cada um de nós?”
Muitas vezes, é aí que a conversa verdadeiramente começa.