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O passado traumático que teima em fazer-se presente

Há acontecimentos que ficam no passado. Outros continuam a aparecer no presente, como se o tempo não tivesse passado. Hoje sabemos que isto não é um sinal de fraqueza. É a forma como o cérebro, por vezes, responde a experiências demasiado difíceis para conseguir integrar sozinho.

Há uma frase que me fica muitas vezes na cabeça depois das consultas

“Eu sei que já passou… mas o meu corpo parece que ainda não sabe.”

Cada vez que alguém me diz isto, penso que encontrou uma forma muito simples de explicar algo de complexo pois na verdade, é exatamente isso que acontece.

A pessoa sabe que o acidente aconteceu há cinco anos, sabe que aquela relação terminou, sabe que já não trabalha naquele lugar ou que já não vive naquela casa e se lhe perguntarmos, consegue contar-nos toda a história, situá-la no tempo e dizer-nos, racionalmente, que tudo isso pertence ao passado.

Mas depois basta um cheiro, um som, uma expressão no rosto de alguém ou uma situação aparentemente sem importância para sentir o coração acelerar, o corpo ficar em alerta e uma ansiedade difícil de explicar tomar conta de si. É como se, por breves instantes, o cérebro deixasse de distinguir aquilo que está a acontecer agora daquilo que aconteceu há muito tempo.

É precisamente aqui que muitas pessoas começam a sentir-se perdidas. Dizem-me, quase sempre com alguma vergonha: “Eu já devia ter ultrapassado isto.” Ou então: “Não percebo porque continuo a reagir desta maneira.” E há uma ideia que costuma acompanhá-las: se continuo a sofrer, é porque me falta força de vontade, porque sou demasiado sensível ou porque estou preso ao passado.

Acreditamos que o tempo resolve quase tudo, e, para muitas experiências, isso é verdade. Vamos vivendo, as emoções vão acalmando e aquilo que aconteceu encontra naturalmente um lugar na nossa história. Continuamos a lembrar-nos, mas a memória deixa de nos invadir, passa a fazer parte de quem somos, sem decidir a forma como vivemos.

O problema é que nem todas as experiências seguem este caminho.

Hoje sabemos, graças à investigação em neurociência, que determinadas experiências podem ficar armazenadas de uma forma diferente das restantes memórias. Não depende apenas da gravidade do acontecimento. Depende da forma como o nosso cérebro e o nosso sistema nervoso conseguiram responder naquele momento, da idade que tínhamos, dos recursos de que dispúnhamos e até da existência, ou não, de alguém que nos ajudasse a recuperar um sentimento de segurança.

Quando isso não acontece, a experiência pode permanecer “congelada”. Não apenas como uma recordação, mas com as emoções, as sensações físicas e as conclusões que tirámos sobre nós próprios naquele momento. E é por isso que, anos mais tarde, o corpo continua a reagir antes mesmo de termos tempo para pensar.

Lembro-me de uma paciente que me dizia exatamente isso.

Tinha sofrido um acidente de viação mais de dez anos antes. Recuperou fisicamente, voltou a conduzir, constituiu família e descrevia a sua vida como perfeitamente normal. No entanto, havia uma situação que nunca tinha conseguido ultrapassar. Sempre que alguém travava bruscamente no carro, sentia uma descarga imediata no corpo. As mãos começavam a suar, o coração disparava e, durante alguns segundos, tinha a certeza de que ia morrer.

Um dia perguntei-lhe o que mais a fazia sofrer naquela experiência. Pensei que me fosse falar do medo, mas respondeu outra coisa:

“O pior não é o medo. O pior é sentir que continuo presa a uma coisa que aconteceu há tanto tempo.”

É precisamente isso que o trauma faz. Não nos prende apenas ao acontecimento. Prende-nos à ideia de que nunca vamos conseguir sair dele.

E, no entanto, aquilo que estava a acontecer à paciente não significava que fosse fraca, nem que estivesse a exagerar. Significava apenas que aquela memória nunca tinha sido verdadeiramente integrada pelo cérebro.

Quando explico isto aos pacientes, vejo muitas vezes um enorme alívio. Não porque a dor desapareça naquele momento, mas porque, pela primeira vez, aquilo que lhes acontece começa a fazer sentido.

Aliás, este fenómeno não acontece apenas depois de acidentes, catástrofes ou acontecimentos dramaticamente visíveis.

Encontra-mo-lo muitas vezes em pessoas que cresceram a sentir que nunca eram suficientemente boas, em adultos que passaram a infância num ambiente imprevisível, onde nunca sabiam quando surgiria uma crítica, uma humilhação ou uma explosão de raiva, em pessoas que aprenderam muito cedo a estar permanentemente atentas ao estado emocional dos outros porque essa era a única forma de anteciparem o perigo.

Quase todas chegam com a mesma conclusão.

“Eu sempre fui assim.”

Mas esta é uma frase que merece ser escutada com cuidado porque, às vezes, não estamos perante uma característica da personalidade. Estamos perante uma forma de sobrevivência que fez sentido numa determinada fase da vida e que o cérebro manteve, mesmo quando o perigo já passou.

A diferença entre estas duas formas de olhar para o problema é enorme.

Se acreditarmos que “eu sou assim”, sobra-nos muito pouca esperança de mudança. Mas se compreendermos que “foi assim que o meu cérebro aprendeu a proteger-me”, abre-se uma possibilidade completamente diferente.

É precisamente nesta compreensão que assenta o **EMDR — **Eye Movement Desensitization and Reprocessing. O EMDR é uma psicoterapia desenvolvida a partir do modelo de Processamento Adaptativo da Informação (Adaptive Information Processing), que parte de uma ideia muito simples: o cérebro possui uma capacidade natural para integrar as experiências que vivemos. Quando esse processamento é interrompido por acontecimentos demasiado perturbadores, algumas memórias permanecem armazenadas de forma disfuncional, continuando a desencadear sofrimento muito tempo depois de o perigo ter passado.

Nas últimas décadas, esta forma de compreender o trauma foi amplamente estudada e sustentada pela investigação científica. Hoje, o EMDR é uma das psicoterapias com maior evidência para o tratamento da Perturbação de Stress Pós-Traumático,  e é recomendado pela Organização Mundial da Saúde para esta indicação quando realizado por profissionais especificamente formados e certificados.

Mas reduzir o EMDR ao tratamento do trauma seria dizer muito pouco sobre aquilo que acontece durante este processo.

Aquilo que vejo, sessão após sessão, não é o desaparecimento das memórias. As pessoas continuam a lembrar-se do que viveram, continuam a saber que aquilo aconteceu.

O que muda é outra coisa.

A memória deixa de invadir o presente.

O corpo deixa de reagir como se o perigo ainda existisse.

E, talvez mais importante do que tudo isso, as conclusões que a pessoa tinha tirado sobre si própria começam também a transformar-se. A mulher que viveu anos convencida de que era fraca começa a reconhecer a força que teve para sobreviver e o homem que acreditava que nunca seria suficiente percebe que essa foi uma conclusão construída num determinado momento da sua vida, mas que não precisa de continuar a definir quem é hoje.

É por isso que gosto pouco da ideia de “ultrapassar o passado”. Talvez não seja isso que acontece. Talvez aquilo que realmente acontece seja outra coisa:

O passado deixa de ocupar o lugar onde nunca deveria ter permanecido: o presente.

E, quando isso acontece, a pessoa deixa de viver constantemente a partir daquilo que lhe aconteceu para voltar, pouco a pouco, a viver a partir daquilo que escolhe construir.

É essa, para mim, a verdadeira esperança que a neurociência trouxe à psicoterapia. Não a promessa de apagar memórias ou de eliminar tudo aquilo que foi difícil, mas a possibilidade de compreendermos que o cérebro pode continuar a mudar ao longo da vida.

E essa é uma ideia profundamente tranquilizadora.

Porque significa que há experiências que continuam a viver dentro de nós durante muitos anos, mas não significa, necessariamente, que tenham de continuar a decidir a forma como vivemos o resto da nossa vida.

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Quando a proximidade também assusta

Algumas das discussões mais difíceis surgem precisamente quando um casal começa novamente a sentir-se ligado e a recuperar a esperança na relação.

Porque é que alguns casais discutem precisamente quando começam a sentir-se mais próximos?

“Esta semana até correu bem… e depois bastou uma coisa sem importância para voltarmos ao mesmo.” É uma frase que ouço muitas vezes em consulta. Normalmente, é dita com um misto de tristeza e frustração, como se aquele momento viesse confirmar uma ideia que o casal já traz consigo há algum tempo: “Nós nunca conseguimos estar verdadeiramente bem.”

À primeira vista, isto parece um contrassenso. Se as coisas estavam finalmente a melhorar, porque é que voltaram a discutir? A maioria das pessoas responde logo: “Porque não sabemos comunicar.”

Na verdade, muitas vezes não é isso que está a acontecer. Há discussões que aparecem precisamente quando o casal começa novamente a sentir-se próximo, quando regressam os momentos de cumplicidade, quando voltam as conversas, quando há mais carinho ou quando, pela primeira vez em muito tempo, surge a esperança de que talvez ainda seja possível recuperar a relação. E é precisamente aí que, por vezes, surge uma discussão aparentemente absurda. Não porque a relação esteja pior, mas porque a proximidade muda completamente aquilo que está em jogo.

Quando alguém deixa de ser importante para nós, deixamos também de correr o risco de nos sentirmos profundamente magoados por essa pessoa. Mas quando voltamos a abrir espaço para o outro, abrimos igualmente espaço para a possibilidade de sermos rejeitados, desiludidos ou abandonados. A proximidade traz conforto, mas também traz vulnerabilidade, e nem sempre sabemos lidar com essa vulnerabilidade. Sem nos apercebermos, começamos a proteger-nos. Algumas pessoas insistem no contacto, outras afastam-se, há quem proteste, há quem se cale, há quem precise de resolver tudo agora e quem precise de tempo para organizar ideias e emoções. Aparentemente parecem comportamentos completamente diferentes mas, muitas vezes, todos estão a tentar responder à mesma pergunta. “Será que continuo a ser importante para ti?” e, contudo, quase nunca fazemos esta pergunta de forma direta. Ela aparece disfarçada numa crítica porque o outro chegou mais tarde, na discussão sobre a educação dos filhos, na forma como reagimos a uma mensagem que ficou sem resposta, ou até na famosa queixa da loiça que não foi para a máquina. O tema parece ser esse, mas na maior parte das vezes, não é. Há uma ideia que costumo partilhar com os casais: o conteúdo da discussão e o verdadeiro conflito raramente são a mesma coisa. A discussão pode ser sobre dinheiro, horários ou tarefas domésticas, mas aquilo que realmente dói costuma ser muito mais profundo. O que queremos mesmo saber é se “Posso contar contigo?” “Importo tanto quanto tu importas para mim?” “Quando preciso de ti, encontras-me ou volto a ficar sozinho?” É por isso que, muitas vezes, acabam por discutir durante uma hora por causa de algo que, depois classificam como insignificante.

Não estão apenas a discutir sobre o presente, estão a reagir ao significado que aquele momento ganhou para cada um. É também por isso que, em terapia de casal, não procuramos culpados. Esse caminho não ajuda. Torna-se muito mais interessante perceber o que aconteceu entre os dois. Quando observamos o casal desta forma, começamos a reparar que ambos ficaram presos num ciclo que nenhum escolheu conscientemente. Quanto mais um insiste porque precisa de sentir proximidade e segurança, mais o outro pode sentir que nunca consegue corresponder e acaba por se proteger afastando-se. E quanto mais se afasta para evitar mais tensão, mais o primeiro sente que está a perder a relação e insiste ainda mais. Sem querer, ambos começam a alimentar exatamente aquilo que mais receiam: um sente abandono, o outro sente fracasso, e, cada um confirma, sem intenção, o medo do outro. É precisamente aqui que muitas pessoas descobrem algo profundamente libertador.

O problema deixa de ser “o meu marido” ou “a minha mulher”, mas o ciclo em que os dois ficaram presos. Quando conseguimos olhar para o ciclo, em vez de procurarmos um culpado, começa a surgir espaço para uma conversa completamente diferente. Deixamos de perguntar: “Quem tem razão?” E começamos a perguntar: “O que é que cada um de nós está a tentar proteger quando reage desta forma?” Esta mudança parece pequena mas transforma profundamente a forma como um casal se olha porque, de repente, a crítica pode deixar de ser vista apenas como crítica e passar a ser entendida como uma tentativa desajeitada de pedir proximidade, o silêncio pode deixar de ser interpretado apenas como desinteresse e começar a ser visto como uma forma de evitar dizer algo que possa magoar ainda mais. Nenhuma destas estratégias costuma resultar muito bem, mas quase todas nasceram da tentativa de proteger a relação e não de a destruir.

Talvez seja esta uma das ideias mais importantes que a terapia de casal nos pode oferecer. Nem sempre discutimos porque estamos mais longe, às vezes discutimos precisamente porque voltámos a sentir que aquela relação ainda importa, porque quando há esperança, também há mais medo de perder. E talvez a pergunta mais útil não seja: “Porque voltámos a discutir?” mas antes: “O que tornou esta discussão tão importante para cada um de nós?”

Muitas vezes, é aí que a conversa verdadeiramente começa.