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Ser irmãos não significa viver a mesma família

Dois irmãos podem crescer na mesma casa, ter os mesmos pais e guardar histórias muito diferentes sobre a família onde cresceram. Às vezes, aquilo que ainda hoje acontece entre eles tem menos a ver com o presente do que parece

A mesma família, experiências diferentes

Há uma coisa que me acontece com frequência em consulta individual: alguém começa por falar de uma dificuldade que, à primeira vista, parece não ter grande relação com a razão pela qual procurou ajuda. Pode estar a falar de ansiedade, de uma relação amorosa, de dificuldade em pôr limites ou daquela sensação persistente de ter de dar conta de tudo e, a determinada altura, aparece um irmão. Às vezes aparece quase de passagem: “Com o meu irmão sempre foi assim.” E, de repente, aquilo que parecia uma característica da pessoa começa a ganhar uma história.

É curioso como muitas vezes dizemos que dois irmãos “cresceram juntos”, como se isso significasse que cresceram na mesma família. Tinham os mesmos pais, a mesma casa, muitas vezes os mesmos avós, as mesmas férias e algumas memórias comuns. Mas não tiveram necessariamente a mesma experiência emocional daquela família. Um pode ter conhecido os pais numa fase em que estavam tranquilos e disponíveis; o outro pode ter nascido quando já havia dificuldades no casamento, problemas financeiros ou uma doença na família. Um pode ter sido muito esperado; outro pode ter chegado numa altura em que os pais estavam exaustos. E, mesmo quando as circunstâncias parecem iguais, cada criança chega à família com um temperamento, uma sensibilidade e uma maneira própria de interpretar aquilo que vive.

Os lugares que vamos ocupando na família

Lembro-me de uma mulher que acompanhei individualmente e cuja história ilustra bem esta diferença. Tinha pouco mais de quarenta anos e procurou ajuda porque se sentia constantemente responsável por toda a gente. Era muito competente, organizada e aparentemente autónoma, mas vivia com uma sensação persistente de que, se não estivesse atenta, alguma coisa iria correr mal. Tinha dificuldade em descansar, sentia culpa quando dizia que não e, sobretudo, tinha uma relação muito ambivalente com o irmão mais velho.

Dizia que o amava e que, se ele precisasse, estaria lá imediatamente. Ao mesmo tempo, conseguia ficar furiosa com ele por coisas que, quando contava a história, pareciam desproporcionais.

Durante algum tempo, a narrativa era relativamente simples: ela era a pessoa responsável e o irmão era aquele que nunca assumia verdadeiramente as consequências das suas escolhas. Era assim que a família parecia funcionar. Quando havia um problema, ela resolvia. Quando os pais precisavam de alguma coisa, era a ela que ligavam. Quando o irmão precisava de ajuda, alguém acabava por pedir-lhe que interviesse. E ela, apesar de se queixar, raramente dizia que não.

Só que, à medida que fomos conhecendo melhor a história, essa descrição começou a deixar de ser suficiente.

O irmão tinha sido, durante muitos anos, o filho mais difícil. Tinha tido problemas na adolescência, abandonara a universidade, passara por períodos de grande instabilidade e, em determinada altura, os pais tinham ficado profundamente preocupados com ele. A minha paciente tinha sido a filha que funcionava. Não porque alguém lhe tivesse dito explicitamente que tinha de ser assim, mas porque percebeu muito cedo que, quando ela estava bem, havia uma coisa a menos para os pais resolverem.

Anos mais tarde, já adultos, os papéis pareciam continuar distribuídos da mesma maneira. Só que havia uma diferença importante: ela estava exausta de ser a pessoa responsável e começava a sentir que o irmão tinha tido uma espécie de liberdade que ela nunca tivera.

Foi aí que surgiu uma coisa que me pareceu clinicamente muito mais interessante do que decidir qual dos dois tinha recebido um tratamento injusto.

Ela não queria apenas que o irmão assumisse mais responsabilidades. Queria, talvez pela primeira vez, deixar de ocupar aquele lugar sem sentir que estava a abandonar a família.

E o irmão, pelo que conseguíamos reconstruir da história, não tinha vivido a mesma família que ela. Ele tinha crescido com a sensação de ser aquele que decepcionava os pais, o que precisava de ser corrigido, o que nunca conseguia corresponder. Aquilo que para ela tinha sido uma infância em que aprendera a ser competente, para ele tinha sido uma infância em que aprendera que dificilmente conseguiria fazer alguma coisa suficientemente bem.

Não era preciso escolher quem tinha razão. As duas experiências podiam ser verdadeiras.

Uma consulta individual pode ter uma leitura sistémica

É uma das razões pelas quais, numa consulta individual, não me interessa olhar apenas para aquilo que a pessoa faz hoje. Interessa-me perceber em que sistema relacional essa forma de funcionar se tornou necessária.

Não é preciso trazer toda a família para a consulta para fazer uma leitura sistémica. A pessoa que está sentada à nossa frente traz consigo as relações que a constituíram, os lugares que ocupou, as expectativas que aprendeu a antecipar, as alianças, os conflitos e, muitas vezes, aquilo que ninguém chegou a dizer explicitamente.

É também por isso que a relação entre irmãos pode ser tão persistente. Podemos ter quarenta anos e continuar a sentir qualquer coisa muito semelhante ao que sentíamos aos dez quando aquele irmão entra numa determinada posição. Ele nem sequer precisa de fazer exactamente aquilo que fazia naquela altura. Basta um comentário, uma maneira de falar, uma decisão tomada sem nos consultar. De repente, estamos irritados de uma forma que parece excessiva para o que acabou de acontecer.

Às vezes pergunto: “O que é que ele fez agora?” E depois: “E o que é que isto lhe faz lembrar?”

São perguntas diferentes.

A primeira procura compreender o acontecimento.

A segunda procura compreender a história que aquele acontecimento acordou.

O presente pode acordar uma experiência antiga

Foi precisamente isso que aconteceu com esta paciente. Uma discussão aparentemente banal sobre os cuidados aos pais deixou-a num estado de enorme activação emocional. Estava convencida de que a raiva vinha da injustiça daquela situação. Mas, quando começámos a aproximar-nos da experiência, apareceu algo mais antigo: a sensação de que, mais uma vez, esperavam dela que resolvesse tudo enquanto o irmão podia simplesmente aparecer quando lhe apetecesse.

A emoção era muito maior do que a situação presente parecia justificar.

E aqui o trabalho clínico mudou de natureza.

Já não estávamos apenas a tentar ajudá-la a estabelecer limites com o irmão. Precisávamos de compreender porque é que estabelecer um limite lhe provocava tanta culpa e porque é que, sempre que tentava fazê-lo, surgia quase imediatamente o medo de estar a ser egoísta ou de estar a abandonar os pais.

A memória também pode continuar presente no corpo

É também aqui que o EMDR pode ter um lugar numa intervenção individual deste género. Não para tratar “a relação entre irmãos”, nem para apagar aquilo que aconteceu, mas para trabalhar experiências específicas que continuam emocionalmente activas e que parecem estar a organizar as reacções actuais.

Uma memória em que percebeu que os pais estavam muito preocupados com o irmão e que ela decidiu não lhes dar mais problemas. Outra em que ouviu uma discussão familiar e ficou com a sensação de que tinha de manter tudo sob controlo. Outra, talvez mais difícil, em que tentou expressar uma necessidade e percebeu que naquele momento não havia espaço para ela.

São acontecimentos que, vistos de fora, podem parecer pequenos perante outras experiências claramente traumáticas. Mas não é apenas o acontecimento que interessa. É aquilo que ficou associado a ele: “Tenho de tratar de tudo”, “não posso dar trabalho”, “se eu não estiver atenta, alguma coisa corre mal”, “as necessidades dos outros vêm primeiro”.

Quando essas experiências continuam insuficientemente processadas, não ficam necessariamente presentes como uma recordação consciente. Podem aparecer como uma reacção automática no presente. A pessoa sabe que já não tem dez anos. Sabe que os pais são adultos e que o irmão é responsável pela própria vida. Sabe, racionalmente, que pode dizer não. Mas, perante determinada situação, o corpo reage como se estivesse novamente naquele lugar.

É importante fazer esta distinção porque, às vezes, passamos demasiado depressa da compreensão da história para o conselho: “Tem de pôr limites”, “não pode assumir as responsabilidades do irmão”, “tem de deixar que ele resolva os problemas dele”. Tudo isto pode ser verdade. Mas saber o que devemos fazer não significa necessariamente conseguir fazê-lo.

Há pessoas que sabem perfeitamente que precisam de dizer não e, ainda assim, sentem uma ansiedade enorme quando tentam. Há quem consiga estabelecer limites durante algum tempo e depois recue, tomado pela culpa. Há quem fique tão activado emocionalmente numa discussão com um irmão que já não consiga perceber o que está a acontecer naquele momento.

Nessas situações, não basta trabalhar apenas o comportamento. É preciso perceber aquilo a que o comportamento está ligado.

Os irmãos não vivem necessariamente a mesma história

E isto leva-nos novamente à questão inicial: será que os irmãos vivem a mesma família?

Provavelmente não.

Mesmo quando partilham a mesma casa, cada um constrói uma experiência própria a partir do lugar que ocupa. E esse lugar não é apenas determinado pela ordem de nascimento. Pode ser influenciado pela saúde, pelo temperamento, pelas expectativas dos pais, pela relação entre os progenitores, pelas dificuldades que a família atravessava quando cada filho nasceu, pela proximidade com um dos pais, pelas alianças que se foram formando e até por acontecimentos que um irmão viveu e o outro não.

Por isso, quando uma pessoa me diz “o meu irmão sempre foi o favorito”, não tenho grande interesse em responder se isso é objectivamente verdade. Interessa-me perceber o que significou para aquela pessoa crescer com essa percepção. Quando alguém diz “eu sempre fui o responsável”, interessa-me saber como esse lugar foi construído e o que aconteceria se deixasse de o ocupar. E quando alguém diz “ele sempre foi o problemático”, fico curiosa sobre o que essa família precisou que aquele filho representasse.

Não para encontrar culpados.

Mas porque as famílias organizam-se, muitas vezes, de formas que fazem sentido num determinado momento e que podem tornar-se difíceis de mudar mais tarde.

Talvez seja aqui que a relação entre irmãos se torne especialmente interessante. Eles são, muitas vezes, as pessoas que melhor conhecem determinadas versões de nós. Conhecem-nos antes dos casamentos, antes dos filhos, antes da profissão, antes de aprendermos a controlar aquilo que mostramos aos outros. Sabem quem éramos naquela família. E, por isso mesmo, podem tocar em lugares que outras pessoas já não conseguem alcançar.

Isso pode ser uma fonte de proximidade extraordinária.

Mas também pode ser uma fonte de conflito.

Na idade adulta, os irmãos podem passar anos sem falar sobre aquilo que viveram juntos. Até que chega um acontecimento que reabre tudo: o envelhecimento dos pais, uma doença, uma herança, uma separação, uma mudança de cidade, uma nova configuração familiar. E aquilo que parece ser uma discussão sobre o presente pode trazer consigo décadas de história.

Talvez por isso não me pareça particularmente útil pensar que o objectivo de uma relação entre irmãos é chegar ao ponto em que deixam de discutir ou passam finalmente a gostar de tudo um no outro.

Há relações entre irmãos que serão próximas. Outras serão mais distantes. Algumas precisam de limites. Outras podem ser reconstruídas.

O que me parece mais importante é que cada pessoa possa deixar de viver prisioneira do lugar que ocupou naquela família.

A minha paciente não precisava de deixar de amar o irmão para deixar de ser responsável por ele. E também não precisava de transformar o irmão no culpado pela infância que teve para poder começar a viver de outra maneira.

Talvez uma das coisas mais difíceis — e mais libertadoras — seja perceber que podemos reconhecer a nossa história sem continuarmos obrigados a repeti-la.

Ser irmãos não significa ter as mesmas memórias, sentir as mesmas coisas ou ter vivido exactamente a mesma família. Significa ter uma história que, em parte, é comum e, em parte, pertence a cada um.

E talvez crescer também seja isto: conseguir olhar para aquele irmão que conhecemos desde sempre e, pela primeira vez, perceber que ele não é apenas o irmão que tivemos.

É também a pessoa em que se tornou.

E nós já não somos apenas quem fomos naquela família.

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O passado traumático que teima em fazer-se presente

Há acontecimentos que ficam no passado. Outros continuam a aparecer no presente, como se o tempo não tivesse passado. Hoje sabemos que isto não é um sinal de fraqueza. É a forma como o cérebro, por vezes, responde a experiências demasiado difíceis para conseguir integrar sozinho.

Há uma frase que me fica muitas vezes na cabeça depois das consultas

“Eu sei que já passou… mas o meu corpo parece que ainda não sabe.”

Cada vez que alguém me diz isto, penso que encontrou uma forma muito simples de explicar algo de complexo pois na verdade, é exatamente isso que acontece.

A pessoa sabe que o acidente aconteceu há cinco anos, sabe que aquela relação terminou, sabe que já não trabalha naquele lugar ou que já não vive naquela casa e se lhe perguntarmos, consegue contar-nos toda a história, situá-la no tempo e dizer-nos, racionalmente, que tudo isso pertence ao passado.

Mas depois basta um cheiro, um som, uma expressão no rosto de alguém ou uma situação aparentemente sem importância para sentir o coração acelerar, o corpo ficar em alerta e uma ansiedade difícil de explicar tomar conta de si. É como se, por breves instantes, o cérebro deixasse de distinguir aquilo que está a acontecer agora daquilo que aconteceu há muito tempo.

É precisamente aqui que muitas pessoas começam a sentir-se perdidas. Dizem-me, quase sempre com alguma vergonha: “Eu já devia ter ultrapassado isto.” Ou então: “Não percebo porque continuo a reagir desta maneira.” E há uma ideia que costuma acompanhá-las: se continuo a sofrer, é porque me falta força de vontade, porque sou demasiado sensível ou porque estou preso ao passado.

Acreditamos que o tempo resolve quase tudo, e, para muitas experiências, isso é verdade. Vamos vivendo, as emoções vão acalmando e aquilo que aconteceu encontra naturalmente um lugar na nossa história. Continuamos a lembrar-nos, mas a memória deixa de nos invadir, passa a fazer parte de quem somos, sem decidir a forma como vivemos.

O problema é que nem todas as experiências seguem este caminho.

Hoje sabemos, graças à investigação em neurociência, que determinadas experiências podem ficar armazenadas de uma forma diferente das restantes memórias. Não depende apenas da gravidade do acontecimento. Depende da forma como o nosso cérebro e o nosso sistema nervoso conseguiram responder naquele momento, da idade que tínhamos, dos recursos de que dispúnhamos e até da existência, ou não, de alguém que nos ajudasse a recuperar um sentimento de segurança.

Quando isso não acontece, a experiência pode permanecer “congelada”. Não apenas como uma recordação, mas com as emoções, as sensações físicas e as conclusões que tirámos sobre nós próprios naquele momento. E é por isso que, anos mais tarde, o corpo continua a reagir antes mesmo de termos tempo para pensar.

Lembro-me de uma paciente que me dizia exatamente isso.

Tinha sofrido um acidente de viação mais de dez anos antes. Recuperou fisicamente, voltou a conduzir, constituiu família e descrevia a sua vida como perfeitamente normal. No entanto, havia uma situação que nunca tinha conseguido ultrapassar. Sempre que alguém travava bruscamente no carro, sentia uma descarga imediata no corpo. As mãos começavam a suar, o coração disparava e, durante alguns segundos, tinha a certeza de que ia morrer.

Um dia perguntei-lhe o que mais a fazia sofrer naquela experiência. Pensei que me fosse falar do medo, mas respondeu outra coisa:

“O pior não é o medo. O pior é sentir que continuo presa a uma coisa que aconteceu há tanto tempo.”

É precisamente isso que o trauma faz. Não nos prende apenas ao acontecimento. Prende-nos à ideia de que nunca vamos conseguir sair dele.

E, no entanto, aquilo que estava a acontecer à paciente não significava que fosse fraca, nem que estivesse a exagerar. Significava apenas que aquela memória nunca tinha sido verdadeiramente integrada pelo cérebro.

Quando explico isto aos pacientes, vejo muitas vezes um enorme alívio. Não porque a dor desapareça naquele momento, mas porque, pela primeira vez, aquilo que lhes acontece começa a fazer sentido.

Aliás, este fenómeno não acontece apenas depois de acidentes, catástrofes ou acontecimentos dramaticamente visíveis.

Encontra-mo-lo muitas vezes em pessoas que cresceram a sentir que nunca eram suficientemente boas, em adultos que passaram a infância num ambiente imprevisível, onde nunca sabiam quando surgiria uma crítica, uma humilhação ou uma explosão de raiva, em pessoas que aprenderam muito cedo a estar permanentemente atentas ao estado emocional dos outros porque essa era a única forma de anteciparem o perigo.

Quase todas chegam com a mesma conclusão.

“Eu sempre fui assim.”

Mas esta é uma frase que merece ser escutada com cuidado porque, às vezes, não estamos perante uma característica da personalidade. Estamos perante uma forma de sobrevivência que fez sentido numa determinada fase da vida e que o cérebro manteve, mesmo quando o perigo já passou.

A diferença entre estas duas formas de olhar para o problema é enorme.

Se acreditarmos que “eu sou assim”, sobra-nos muito pouca esperança de mudança. Mas se compreendermos que “foi assim que o meu cérebro aprendeu a proteger-me”, abre-se uma possibilidade completamente diferente.

É precisamente nesta compreensão que assenta o **EMDR — **Eye Movement Desensitization and Reprocessing. O EMDR é uma psicoterapia desenvolvida a partir do modelo de Processamento Adaptativo da Informação (Adaptive Information Processing), que parte de uma ideia muito simples: o cérebro possui uma capacidade natural para integrar as experiências que vivemos. Quando esse processamento é interrompido por acontecimentos demasiado perturbadores, algumas memórias permanecem armazenadas de forma disfuncional, continuando a desencadear sofrimento muito tempo depois de o perigo ter passado.

Nas últimas décadas, esta forma de compreender o trauma foi amplamente estudada e sustentada pela investigação científica. Hoje, o EMDR é uma das psicoterapias com maior evidência para o tratamento da Perturbação de Stress Pós-Traumático,  e é recomendado pela Organização Mundial da Saúde para esta indicação quando realizado por profissionais especificamente formados e certificados.

Mas reduzir o EMDR ao tratamento do trauma seria dizer muito pouco sobre aquilo que acontece durante este processo.

Aquilo que vejo, sessão após sessão, não é o desaparecimento das memórias. As pessoas continuam a lembrar-se do que viveram, continuam a saber que aquilo aconteceu.

O que muda é outra coisa.

A memória deixa de invadir o presente.

O corpo deixa de reagir como se o perigo ainda existisse.

E, talvez mais importante do que tudo isso, as conclusões que a pessoa tinha tirado sobre si própria começam também a transformar-se. A mulher que viveu anos convencida de que era fraca começa a reconhecer a força que teve para sobreviver e o homem que acreditava que nunca seria suficiente percebe que essa foi uma conclusão construída num determinado momento da sua vida, mas que não precisa de continuar a definir quem é hoje.

É por isso que gosto pouco da ideia de “ultrapassar o passado”. Talvez não seja isso que acontece. Talvez aquilo que realmente acontece seja outra coisa:

O passado deixa de ocupar o lugar onde nunca deveria ter permanecido: o presente.

E, quando isso acontece, a pessoa deixa de viver constantemente a partir daquilo que lhe aconteceu para voltar, pouco a pouco, a viver a partir daquilo que escolhe construir.

É essa, para mim, a verdadeira esperança que a neurociência trouxe à psicoterapia. Não a promessa de apagar memórias ou de eliminar tudo aquilo que foi difícil, mas a possibilidade de compreendermos que o cérebro pode continuar a mudar ao longo da vida.

E essa é uma ideia profundamente tranquilizadora.

Porque significa que há experiências que continuam a viver dentro de nós durante muitos anos, mas não significa, necessariamente, que tenham de continuar a decidir a forma como vivemos o resto da nossa vida.