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Ser irmãos não significa viver a mesma família

Dois irmãos podem crescer na mesma casa, ter os mesmos pais e guardar histórias muito diferentes sobre a família onde cresceram. Às vezes, aquilo que ainda hoje acontece entre eles tem menos a ver com o presente do que parece

A mesma família, experiências diferentes

Há uma coisa que me acontece com frequência em consulta individual: alguém começa por falar de uma dificuldade que, à primeira vista, parece não ter grande relação com a razão pela qual procurou ajuda. Pode estar a falar de ansiedade, de uma relação amorosa, de dificuldade em pôr limites ou daquela sensação persistente de ter de dar conta de tudo e, a determinada altura, aparece um irmão. Às vezes aparece quase de passagem: “Com o meu irmão sempre foi assim.” E, de repente, aquilo que parecia uma característica da pessoa começa a ganhar uma história.

É curioso como muitas vezes dizemos que dois irmãos “cresceram juntos”, como se isso significasse que cresceram na mesma família. Tinham os mesmos pais, a mesma casa, muitas vezes os mesmos avós, as mesmas férias e algumas memórias comuns. Mas não tiveram necessariamente a mesma experiência emocional daquela família. Um pode ter conhecido os pais numa fase em que estavam tranquilos e disponíveis; o outro pode ter nascido quando já havia dificuldades no casamento, problemas financeiros ou uma doença na família. Um pode ter sido muito esperado; outro pode ter chegado numa altura em que os pais estavam exaustos. E, mesmo quando as circunstâncias parecem iguais, cada criança chega à família com um temperamento, uma sensibilidade e uma maneira própria de interpretar aquilo que vive.

Os lugares que vamos ocupando na família

Lembro-me de uma mulher que acompanhei individualmente e cuja história ilustra bem esta diferença. Tinha pouco mais de quarenta anos e procurou ajuda porque se sentia constantemente responsável por toda a gente. Era muito competente, organizada e aparentemente autónoma, mas vivia com uma sensação persistente de que, se não estivesse atenta, alguma coisa iria correr mal. Tinha dificuldade em descansar, sentia culpa quando dizia que não e, sobretudo, tinha uma relação muito ambivalente com o irmão mais velho.

Dizia que o amava e que, se ele precisasse, estaria lá imediatamente. Ao mesmo tempo, conseguia ficar furiosa com ele por coisas que, quando contava a história, pareciam desproporcionais.

Durante algum tempo, a narrativa era relativamente simples: ela era a pessoa responsável e o irmão era aquele que nunca assumia verdadeiramente as consequências das suas escolhas. Era assim que a família parecia funcionar. Quando havia um problema, ela resolvia. Quando os pais precisavam de alguma coisa, era a ela que ligavam. Quando o irmão precisava de ajuda, alguém acabava por pedir-lhe que interviesse. E ela, apesar de se queixar, raramente dizia que não.

Só que, à medida que fomos conhecendo melhor a história, essa descrição começou a deixar de ser suficiente.

O irmão tinha sido, durante muitos anos, o filho mais difícil. Tinha tido problemas na adolescência, abandonara a universidade, passara por períodos de grande instabilidade e, em determinada altura, os pais tinham ficado profundamente preocupados com ele. A minha paciente tinha sido a filha que funcionava. Não porque alguém lhe tivesse dito explicitamente que tinha de ser assim, mas porque percebeu muito cedo que, quando ela estava bem, havia uma coisa a menos para os pais resolverem.

Anos mais tarde, já adultos, os papéis pareciam continuar distribuídos da mesma maneira. Só que havia uma diferença importante: ela estava exausta de ser a pessoa responsável e começava a sentir que o irmão tinha tido uma espécie de liberdade que ela nunca tivera.

Foi aí que surgiu uma coisa que me pareceu clinicamente muito mais interessante do que decidir qual dos dois tinha recebido um tratamento injusto.

Ela não queria apenas que o irmão assumisse mais responsabilidades. Queria, talvez pela primeira vez, deixar de ocupar aquele lugar sem sentir que estava a abandonar a família.

E o irmão, pelo que conseguíamos reconstruir da história, não tinha vivido a mesma família que ela. Ele tinha crescido com a sensação de ser aquele que decepcionava os pais, o que precisava de ser corrigido, o que nunca conseguia corresponder. Aquilo que para ela tinha sido uma infância em que aprendera a ser competente, para ele tinha sido uma infância em que aprendera que dificilmente conseguiria fazer alguma coisa suficientemente bem.

Não era preciso escolher quem tinha razão. As duas experiências podiam ser verdadeiras.

Uma consulta individual pode ter uma leitura sistémica

É uma das razões pelas quais, numa consulta individual, não me interessa olhar apenas para aquilo que a pessoa faz hoje. Interessa-me perceber em que sistema relacional essa forma de funcionar se tornou necessária.

Não é preciso trazer toda a família para a consulta para fazer uma leitura sistémica. A pessoa que está sentada à nossa frente traz consigo as relações que a constituíram, os lugares que ocupou, as expectativas que aprendeu a antecipar, as alianças, os conflitos e, muitas vezes, aquilo que ninguém chegou a dizer explicitamente.

É também por isso que a relação entre irmãos pode ser tão persistente. Podemos ter quarenta anos e continuar a sentir qualquer coisa muito semelhante ao que sentíamos aos dez quando aquele irmão entra numa determinada posição. Ele nem sequer precisa de fazer exactamente aquilo que fazia naquela altura. Basta um comentário, uma maneira de falar, uma decisão tomada sem nos consultar. De repente, estamos irritados de uma forma que parece excessiva para o que acabou de acontecer.

Às vezes pergunto: “O que é que ele fez agora?” E depois: “E o que é que isto lhe faz lembrar?”

São perguntas diferentes.

A primeira procura compreender o acontecimento.

A segunda procura compreender a história que aquele acontecimento acordou.

O presente pode acordar uma experiência antiga

Foi precisamente isso que aconteceu com esta paciente. Uma discussão aparentemente banal sobre os cuidados aos pais deixou-a num estado de enorme activação emocional. Estava convencida de que a raiva vinha da injustiça daquela situação. Mas, quando começámos a aproximar-nos da experiência, apareceu algo mais antigo: a sensação de que, mais uma vez, esperavam dela que resolvesse tudo enquanto o irmão podia simplesmente aparecer quando lhe apetecesse.

A emoção era muito maior do que a situação presente parecia justificar.

E aqui o trabalho clínico mudou de natureza.

Já não estávamos apenas a tentar ajudá-la a estabelecer limites com o irmão. Precisávamos de compreender porque é que estabelecer um limite lhe provocava tanta culpa e porque é que, sempre que tentava fazê-lo, surgia quase imediatamente o medo de estar a ser egoísta ou de estar a abandonar os pais.

A memória também pode continuar presente no corpo

É também aqui que o EMDR pode ter um lugar numa intervenção individual deste género. Não para tratar “a relação entre irmãos”, nem para apagar aquilo que aconteceu, mas para trabalhar experiências específicas que continuam emocionalmente activas e que parecem estar a organizar as reacções actuais.

Uma memória em que percebeu que os pais estavam muito preocupados com o irmão e que ela decidiu não lhes dar mais problemas. Outra em que ouviu uma discussão familiar e ficou com a sensação de que tinha de manter tudo sob controlo. Outra, talvez mais difícil, em que tentou expressar uma necessidade e percebeu que naquele momento não havia espaço para ela.

São acontecimentos que, vistos de fora, podem parecer pequenos perante outras experiências claramente traumáticas. Mas não é apenas o acontecimento que interessa. É aquilo que ficou associado a ele: “Tenho de tratar de tudo”, “não posso dar trabalho”, “se eu não estiver atenta, alguma coisa corre mal”, “as necessidades dos outros vêm primeiro”.

Quando essas experiências continuam insuficientemente processadas, não ficam necessariamente presentes como uma recordação consciente. Podem aparecer como uma reacção automática no presente. A pessoa sabe que já não tem dez anos. Sabe que os pais são adultos e que o irmão é responsável pela própria vida. Sabe, racionalmente, que pode dizer não. Mas, perante determinada situação, o corpo reage como se estivesse novamente naquele lugar.

É importante fazer esta distinção porque, às vezes, passamos demasiado depressa da compreensão da história para o conselho: “Tem de pôr limites”, “não pode assumir as responsabilidades do irmão”, “tem de deixar que ele resolva os problemas dele”. Tudo isto pode ser verdade. Mas saber o que devemos fazer não significa necessariamente conseguir fazê-lo.

Há pessoas que sabem perfeitamente que precisam de dizer não e, ainda assim, sentem uma ansiedade enorme quando tentam. Há quem consiga estabelecer limites durante algum tempo e depois recue, tomado pela culpa. Há quem fique tão activado emocionalmente numa discussão com um irmão que já não consiga perceber o que está a acontecer naquele momento.

Nessas situações, não basta trabalhar apenas o comportamento. É preciso perceber aquilo a que o comportamento está ligado.

Os irmãos não vivem necessariamente a mesma história

E isto leva-nos novamente à questão inicial: será que os irmãos vivem a mesma família?

Provavelmente não.

Mesmo quando partilham a mesma casa, cada um constrói uma experiência própria a partir do lugar que ocupa. E esse lugar não é apenas determinado pela ordem de nascimento. Pode ser influenciado pela saúde, pelo temperamento, pelas expectativas dos pais, pela relação entre os progenitores, pelas dificuldades que a família atravessava quando cada filho nasceu, pela proximidade com um dos pais, pelas alianças que se foram formando e até por acontecimentos que um irmão viveu e o outro não.

Por isso, quando uma pessoa me diz “o meu irmão sempre foi o favorito”, não tenho grande interesse em responder se isso é objectivamente verdade. Interessa-me perceber o que significou para aquela pessoa crescer com essa percepção. Quando alguém diz “eu sempre fui o responsável”, interessa-me saber como esse lugar foi construído e o que aconteceria se deixasse de o ocupar. E quando alguém diz “ele sempre foi o problemático”, fico curiosa sobre o que essa família precisou que aquele filho representasse.

Não para encontrar culpados.

Mas porque as famílias organizam-se, muitas vezes, de formas que fazem sentido num determinado momento e que podem tornar-se difíceis de mudar mais tarde.

Talvez seja aqui que a relação entre irmãos se torne especialmente interessante. Eles são, muitas vezes, as pessoas que melhor conhecem determinadas versões de nós. Conhecem-nos antes dos casamentos, antes dos filhos, antes da profissão, antes de aprendermos a controlar aquilo que mostramos aos outros. Sabem quem éramos naquela família. E, por isso mesmo, podem tocar em lugares que outras pessoas já não conseguem alcançar.

Isso pode ser uma fonte de proximidade extraordinária.

Mas também pode ser uma fonte de conflito.

Na idade adulta, os irmãos podem passar anos sem falar sobre aquilo que viveram juntos. Até que chega um acontecimento que reabre tudo: o envelhecimento dos pais, uma doença, uma herança, uma separação, uma mudança de cidade, uma nova configuração familiar. E aquilo que parece ser uma discussão sobre o presente pode trazer consigo décadas de história.

Talvez por isso não me pareça particularmente útil pensar que o objectivo de uma relação entre irmãos é chegar ao ponto em que deixam de discutir ou passam finalmente a gostar de tudo um no outro.

Há relações entre irmãos que serão próximas. Outras serão mais distantes. Algumas precisam de limites. Outras podem ser reconstruídas.

O que me parece mais importante é que cada pessoa possa deixar de viver prisioneira do lugar que ocupou naquela família.

A minha paciente não precisava de deixar de amar o irmão para deixar de ser responsável por ele. E também não precisava de transformar o irmão no culpado pela infância que teve para poder começar a viver de outra maneira.

Talvez uma das coisas mais difíceis — e mais libertadoras — seja perceber que podemos reconhecer a nossa história sem continuarmos obrigados a repeti-la.

Ser irmãos não significa ter as mesmas memórias, sentir as mesmas coisas ou ter vivido exactamente a mesma família. Significa ter uma história que, em parte, é comum e, em parte, pertence a cada um.

E talvez crescer também seja isto: conseguir olhar para aquele irmão que conhecemos desde sempre e, pela primeira vez, perceber que ele não é apenas o irmão que tivemos.

É também a pessoa em que se tornou.

E nós já não somos apenas quem fomos naquela família.

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Famílias Recompostas: Encontrar um Lugar Numa Nova Família

Nas famílias recompostas, não basta que os adultos se amem. É preciso encontrar novos lugares, novas regras e novas formas de pertencer, sem apagar as relações que já existiam.

Há casais que chegam à consulta a dizer-me que têm um problema com os filhos.

“Não conseguimos estar de acordo sobre nada.”

“Ele acha que sou demasiado permissiva com os meus filhos.”

“Eu acho que ela não percebe que os filhos dela não são meus.”

Ou então dizem-me uma coisa que, à primeira vista, parece explicar tudo: “Damo-nos bem até começarmos a falar dos miúdos.”

E muitas vezes é mesmo aí que começam as discussões. Uma regra que um quer impor e o outro considera exagerada, uma decisão sobre as férias, o tempo que cada um passa com os filhos, o dinheiro, a relação com o outro progenitor, a organização da casa ou simplesmente a questão de quem pode decidir o quê. À primeira vista, parece que estão a discutir educação. Mas, quando começo a perceber melhor o que se passa, encontro muitas vezes uma questão bastante maior.

Quando a discussão sobre os filhos é, afinal, sobre o lugar de cada um

Porque uma família recomposta não começa do zero. Começa com pessoas que já têm uma história. Há filhos que continuam a ter dois pais, mesmo que esses pais já não vivam juntos; há adultos que iniciam uma nova relação sem deixarem de ter responsabilidades, afetos e, por vezes, conflitos ligados à relação anterior; e há alguém que entra numa família onde já existem hábitos, regras, memórias e formas de estar que foram construídos muito antes da sua chegada.

É natural, portanto, que encontrar um lugar neste cenário não seja simples. Enquanto os adultos tentam perceber como organizar a nova vida em conjunto, os filhos também estão a tentar perceber o que mudou e, sobretudo, se aquilo que tinham continua a estar seguro.

Lembro-me de casais em que uma das primeiras coisas que aparece é precisamente esta sensação: “Eu vivo aqui, participo em tudo, ajudo com os miúdos, mas parece que não tenho direito a dizer nada.” E, do outro lado: “Eu percebo que ele vive connosco, mas não consigo aceitar que decida pelos meus filhos.”

Os dois estão a falar de regras, mas eu começo a ouvir outra pergunta por baixo daquilo que estão a discutir:

“Qual é afinal o meu lugar nesta família?”

Os filhos também precisam de encontrar o seu lugar

E essa pergunta não pertence apenas aos adultos. Também pode estar presente nos filhos, embora apareça de formas muito diferentes.

Uma criança pode gostar genuinamente do novo companheiro da mãe e, ao mesmo tempo, sentir que gostar dele é uma espécie de traição ao pai. Pode ficar contente quando o pai começa uma nova relação e, ainda assim, sentir raiva quando percebe que aquela relação está realmente a acontecer. Pode até querer que os pais sejam felizes separados e continuar, em alguns momentos, a desejar que voltassem a estar juntos.

Não vejo isto necessariamente como incoerência. Vejo uma criança a tentar organizar emocionalmente uma realidade que mudou e a tentar encontrar alguma estabilidade dentro de uma situação que, para ela, tem muito menos controlo do que para os adultos.

Por isso, uma das coisas que procuro transmitir aos casais é que nem sempre é preciso apressar a ideia de que todos têm de se sentir uma família.

Uma família recomposta precisa de tempo. Não apenas para que as pessoas se habituem umas às outras, mas para que possam descobrir que relações querem construir. Há crianças que se aproximam rapidamente do novo companheiro de um dos pais e outras que mantêm alguma distância durante bastante tempo; há relações que se tornam muito próximas e outras que permanecem mais reservadas.

E isso, por si só, não significa que exista um problema.

Às vezes significa simplesmente que ainda não existe história suficiente para existir confiança.

Ter um lugar não significa ocupar o lugar de um dos pais

Esta questão torna-se particularmente delicada quando aparece a autoridade.

É compreensível que quem entra numa família queira sentir que tem algum lugar dentro de casa. Vive ali, participa nas rotinas, cuida, faz sacrifícios e, naturalmente, pode sentir que também deveria poder estabelecer regras.

Mas há uma diferença que considero muito importante:

ter um lugar na família não é o mesmo que ocupar o lugar de um dos pais.

Viver com uma criança não cria automaticamente uma relação parental. E, quando tentamos acelerar essa relação, podemos acabar por dificultar precisamente aquilo que queremos construir.

Queremos respeito antes de existir confiança. Autoridade antes de existir relação. Proximidade antes de existir uma história em comum.

Na prática, muitas vezes é preciso começar por coisas muito mais simples: estar disponível, interessar-se, partilhar algum tempo, respeitar o ritmo daquela criança, não exigir afecto e não interpretar imediatamente a distância como rejeição.

A relação pode crescer a partir daí.

Isto não significa que o novo companheiro tenha de ficar completamente à margem da vida familiar, nem que não possa colocar limites. Significa perceber que a autoridade também precisa de uma relação que a sustente e que, numa família recomposta, nem tudo precisa de acontecer ao mesmo tempo.

E o casal? Onde fica no meio de tudo isto?

Entretanto, há outra relação que pode começar a desaparecer sem que ninguém dê por isso: a do casal.

Porque uma família recomposta pode transformar rapidamente duas pessoas apaixonadas em dois gestores de uma casa. Quem vai buscar os filhos, quem fica com eles, quem paga o quê, quem fala com o outro progenitor, quem organiza as férias, quem decide as regras, quem tem razão.

Quando dou por isso, percebo que quase todas as conversas importantes entre aquelas duas pessoas passaram a ser sobre problemas para resolver.

E depois aparecem frases como:

“Já nem sei quando foi a última vez que estivemos bem.”

“Só falamos dos miúdos.”

“Parece que somos uma equipa de gestão.”

É fácil perceber como chegaram ali. Os filhos ocupam espaço, as decisões são muitas e há sempre qualquer coisa para resolver. Mas, se o casal deixa de existir para além da gestão da família, começa também a perder-se uma parte importante da relação.

E é aqui que algumas discussões sobre os filhos começam a ganhar outro significado.

Uma pessoa diz: “Tu nunca defendes os meus filhos”, mas eu posso ouvir, por baixo desta frase: “Tenho medo de que os meus filhos não tenham lugar para ti.”

A outra responde: “Nesta casa parece que não posso dizer nada”, e talvez aquilo que esteja a tentar dizer seja: “Preciso de sentir que também pertenço aqui.”

Já não estão apenas a discutir uma regra.

Estão a defender o seu lugar.

Quando a discussão parece ser sobre os filhos, mas não é só sobre eles

Quando isto acontece, instala-se facilmente um ciclo que se alimenta a si próprio. Um insiste porque sente que precisa de proteger alguma coisa; o outro sente-se excluído e defende-se; quanto mais se defende, mais o primeiro sente que tem de insistir.

A discussão continua a parecer ser sobre os filhos, mas, muitas vezes, também é sobre o casal: sobre a necessidade de continuar a sentir-se escolhido, sobre o medo de perder espaço, sobre a dificuldade de construir uma relação nova sem sentir que se está a abandonar aquilo que existia antes.

E é por isso que não gosto muito da ideia de que uma família recomposta deve, com o tempo, tornar-se simplesmente “uma família normal”.

Não há uma família normal para onde todos tenham de chegar.

Esta família tem uma história própria, relações anteriores que continuam a existir, filhos que precisam de manter os seus vínculos com os dois progenitores, um casal que está a tentar construir alguma coisa nova e, muitas vezes, alguém que está a tentar descobrir onde pode caber sem ocupar o lugar de ninguém.

Não há uma fórmula que me permita dizer a uma família quando é que os filhos devem aceitar o novo companheiro, quando essa pessoa deve participar nas decisões ou como devem ser distribuídas todas as responsabilidades.

Há princípios que ajudam, naturalmente, mas depois preciso de olhar para aquela família concreta, para aquelas pessoas, para aquelas idades e para aquela história.

O que é que cada pessoa precisa para encontrar o seu lugar?

Por isso, em consulta, talvez a pergunta que me interessa mais não seja:

“Como fazemos para que todos se dêem bem?”

É antes:

“O que é que cada um precisa para conseguir encontrar o seu lugar nesta nova família?”

Às vezes, a resposta será tempo. Outras vezes serão limites mais claros, menos competição ou uma reorganização das regras.

Pode ser necessário proteger melhor o espaço do casal ou permitir que os filhos mantenham momentos próprios com cada progenitor.

E pode ser necessário aceitar uma coisa que nem sempre é fácil para os adultos: algumas relações ainda não são próximas.

Não precisam de ser já.

Construir uma família nova sem apagar as histórias anteriores

Uma família recomposta não precisa de apagar o que existia antes para construir alguma coisa nova.

Pelo contrário.

Há vínculos que continuam, histórias que não desaparecem e lugares que não podem, nem precisam, de ser substituídos.

É precisamente isto que procuro ajudar os casais a perceber: não é preciso escolher quem pertence e quem fica de fora.

É possível criar novos vínculos sem apagar os anteriores e construir um “nós” sem pedir a ninguém que deixe de ser “eu”.

talvez seja esse um dos trabalhos mais delicados de construir uma família depois de uma separação: deixar de tentar fazer com que todos ocupem o mesmo lugar e começar, pouco a pouco, a encontrar um lugar possível para cada um.

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Entre ficar e partir

Nem todas as relações precisam da mesma resposta. Antes de decidir se faz sentido continuar ou terminar, pode ser importante perceber o que está mesmo a acontecer entre o casal

Há uma pergunta que aparece muitas vezes na consulta de casal.

Falamos primeiro das discussões, do cansaço, da distância. Dos filhos. Da traição. Da falta de tempo. Ou daquela sensação estranha de já não saber muito bem como voltar a conversar com a pessoa que está à nossa frente.

E depois, quase sempre mais tarde, quando já existe algum espaço para o silêncio, alguém pergunta:

Acha que temos hipótese?”

É uma pergunta importante. Mas muitas vezes chega cedo demais.

Porque nos coloca imediatamente perante uma escolha: ficar ou partir. E talvez ainda não seja esse o momento. Antes de decidir o que fazer com uma relação, precisamos, muitas vezes, de perceber o que está realmente a acontecer dentro dela.

O que se passou entre aquelas duas pessoas para chegarem até ali?

É curioso como somos rápidos a concluir que uma relação acabou. Às vezes porque se discute demasiado. Outras porque já não se discute nada. Porque já não há desejo. Porque há demasiado desejo, mas pouca proximidade. Porque um dos dois se afastou. Porque ambos se cansaram.

Só que uma relação é quase sempre mais complexa do que aquilo que aparece à superfície.

Ao longo dos anos, tenho aprendido a desconfiar dos sinais isolados. Aquilo que vemos é apenas uma parte da história. Um pouco como olhar para o mar e tentar perceber o que está a acontecer nas correntes que não conseguimos ver.

Por isso, quando alguém me diz “Eu quero salvar a relação”, há uma pergunta que me ocorre quase imediatamente:

Salvar exactamente o quê?

Às vezes é a relação.

Outras vezes é a família. A vida que construíram. A imagem que cada um tem de si próprio enquanto marido, mulher ou companheiro. Ou a esperança de voltar a encontrar aquilo que existia no início.

E há ainda uma possibilidade menos evidente: talvez aquilo que assuste mais seja imaginar quem se será depois da relação.

Não são perguntas para responder depressa. Aliás, algumas talvez precisem mesmo de ficar sem resposta durante algum tempo.

Porque quando tudo está misturado — amor, medo, culpa, filhos, história, dependência, esperança, cansaço — torna-se difícil perceber aquilo que pertence verdadeiramente à relação e aquilo que pertence ao medo de a perder.

Há casais que chegam à consulta convencidos de que o amor acabou.

Começamos a conversar. Um fala, o outro escuta. Depois trocam. Voltamos atrás. Tentamos perceber quando começaram a afastar-se, o que cada um foi sentindo, aquilo que deixou de ser dito.

E, por vezes, aparece uma história diferente.

Percebemos que ainda estão profundamente ligados. Que continuam a sofrer um com o outro e, em muitos casos, por causa um do outro.

Isso não significa necessariamente que devam ficar juntos. Significa apenas que a relação ainda tem peso emocional.

Noutros casais, a história é quase inversa.

Não discutem. A vida funciona. Os filhos estão orientados, as contas pagas, as tarefas distribuídas. Não há grandes conflitos e, visto de fora, tudo parece relativamente tranquilo.

Mas depois começamos a conversar.

E percebemos que já não se encontram há muito tempo.

Não há discussão, é verdade. Mas também já não há curiosidade. Já não existe aquela vontade espontânea de saber como o outro está, o que pensa, o que deseja ou até quem se está a tornar.

Por isso, uma relação pode estar cheia de conflito e continuar emocionalmente viva. E pode parecer tranquila porque, na verdade, já quase nada está em jogo.

É também por isso que duas pessoas podem viver os mesmos anos e contar histórias completamente diferentes sobre eles.

Uma diz:

“Passei anos a sentir-me sozinho.”

A outra pensa:

“Passei anos a tentar. Nunca consegui fazer o suficiente.”

Uma lembra-se da ausência. A outra lembra-se do esforço.

Uma diz:

“Nunca estiveste lá quando precisei de ti.”

E o outro talvez tenha passado anos a pensar:

“Eu nunca consegui perceber o que ela precisava de mim.”

É neste ponto que a terapia de casal pode tornar-se particularmente interessante.

Porque deixamos, pouco a pouco, de tentar decidir quem tem razão e começamos a olhar para aquilo que se criou entre os dois.

Como é que estas duas pessoas chegaram aqui?

E, sobretudo, como é que foram participando, sem necessariamente perceberem, no ciclo que hoje as mantém presas?

Muitas das atitudes que mais magoam numa relação começaram, curiosamente, como tentativas de proteger alguma coisa.

Quem insiste pode estar a tentar impedir a distância.

Quem se afasta pode estar a tentar evitar mais uma discussão, mais uma acusação, mais uma experiência de fracasso.

Quem controla pode estar aterrorizado com a possibilidade de perder.

Quem desiste de falar pode já não acreditar que será ouvido.

O problema é que estas estratégias raramente protegem aquilo que pretendiam proteger. Muitas vezes fazem exactamente o contrário.

A insistência provoca afastamento. O afastamento aumenta a insegurança. A insegurança leva a mais controlo. E o controlo torna ainda mais difícil aproximar-se.

É assim que um casal pode passar anos a lutar contra um problema que, entretanto, passou a ser criado pelos dois.

E é aqui que a pergunta inicial começa a mudar.

Já não é apenas:

“Temos alguma hipótese?”

Talvez seja antes:

“O que é que ainda não compreendemos sobre a forma como nos fomos perdendo um do outro?”

Esta pergunta não garante uma reconciliação.

Nem deveria.

Há relações que terminam. E há relações cujo fim, depois de compreendido, pode ser a decisão mais saudável para ambos.

Mas há uma diferença importante entre terminar porque já não conseguimos suportar aquilo que estamos a viver e terminar depois de percebermos verdadeiramente o que aconteceu.

Da mesma forma, há uma diferença entre ficar porque ainda existe uma possibilidade real de reconstrução e ficar apenas porque temos medo do que acontecerá se partirmos.

Talvez seja por isso que, antes de perguntar se uma relação deve continuar, seja tão importante perceber se ainda existe alguma coisa que possa ser reconstruída.

E, se existir, o que seria necessário para que isso acontecesse.

Porque, às vezes, o mais difícil não é decidir entre ficar e partir.

É conseguir olhar para a relação com honestidade suficiente para perceber aquilo que ela ainda pode oferecer e aquilo que, por mais que se deseje, já não pode ser pedido.

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O passado traumático que teima em fazer-se presente

Há acontecimentos que ficam no passado. Outros continuam a aparecer no presente, como se o tempo não tivesse passado. Hoje sabemos que isto não é um sinal de fraqueza. É a forma como o cérebro, por vezes, responde a experiências demasiado difíceis para conseguir integrar sozinho.

Há uma frase que me fica muitas vezes na cabeça depois das consultas

“Eu sei que já passou… mas o meu corpo parece que ainda não sabe.”

Cada vez que alguém me diz isto, penso que encontrou uma forma muito simples de explicar algo de complexo pois na verdade, é exatamente isso que acontece.

A pessoa sabe que o acidente aconteceu há cinco anos, sabe que aquela relação terminou, sabe que já não trabalha naquele lugar ou que já não vive naquela casa e se lhe perguntarmos, consegue contar-nos toda a história, situá-la no tempo e dizer-nos, racionalmente, que tudo isso pertence ao passado.

Mas depois basta um cheiro, um som, uma expressão no rosto de alguém ou uma situação aparentemente sem importância para sentir o coração acelerar, o corpo ficar em alerta e uma ansiedade difícil de explicar tomar conta de si. É como se, por breves instantes, o cérebro deixasse de distinguir aquilo que está a acontecer agora daquilo que aconteceu há muito tempo.

É precisamente aqui que muitas pessoas começam a sentir-se perdidas. Dizem-me, quase sempre com alguma vergonha: “Eu já devia ter ultrapassado isto.” Ou então: “Não percebo porque continuo a reagir desta maneira.” E há uma ideia que costuma acompanhá-las: se continuo a sofrer, é porque me falta força de vontade, porque sou demasiado sensível ou porque estou preso ao passado.

Acreditamos que o tempo resolve quase tudo, e, para muitas experiências, isso é verdade. Vamos vivendo, as emoções vão acalmando e aquilo que aconteceu encontra naturalmente um lugar na nossa história. Continuamos a lembrar-nos, mas a memória deixa de nos invadir, passa a fazer parte de quem somos, sem decidir a forma como vivemos.

O problema é que nem todas as experiências seguem este caminho.

Hoje sabemos, graças à investigação em neurociência, que determinadas experiências podem ficar armazenadas de uma forma diferente das restantes memórias. Não depende apenas da gravidade do acontecimento. Depende da forma como o nosso cérebro e o nosso sistema nervoso conseguiram responder naquele momento, da idade que tínhamos, dos recursos de que dispúnhamos e até da existência, ou não, de alguém que nos ajudasse a recuperar um sentimento de segurança.

Quando isso não acontece, a experiência pode permanecer “congelada”. Não apenas como uma recordação, mas com as emoções, as sensações físicas e as conclusões que tirámos sobre nós próprios naquele momento. E é por isso que, anos mais tarde, o corpo continua a reagir antes mesmo de termos tempo para pensar.

Lembro-me de uma paciente que me dizia exatamente isso.

Tinha sofrido um acidente de viação mais de dez anos antes. Recuperou fisicamente, voltou a conduzir, constituiu família e descrevia a sua vida como perfeitamente normal. No entanto, havia uma situação que nunca tinha conseguido ultrapassar. Sempre que alguém travava bruscamente no carro, sentia uma descarga imediata no corpo. As mãos começavam a suar, o coração disparava e, durante alguns segundos, tinha a certeza de que ia morrer.

Um dia perguntei-lhe o que mais a fazia sofrer naquela experiência. Pensei que me fosse falar do medo, mas respondeu outra coisa:

“O pior não é o medo. O pior é sentir que continuo presa a uma coisa que aconteceu há tanto tempo.”

É precisamente isso que o trauma faz. Não nos prende apenas ao acontecimento. Prende-nos à ideia de que nunca vamos conseguir sair dele.

E, no entanto, aquilo que estava a acontecer à paciente não significava que fosse fraca, nem que estivesse a exagerar. Significava apenas que aquela memória nunca tinha sido verdadeiramente integrada pelo cérebro.

Quando explico isto aos pacientes, vejo muitas vezes um enorme alívio. Não porque a dor desapareça naquele momento, mas porque, pela primeira vez, aquilo que lhes acontece começa a fazer sentido.

Aliás, este fenómeno não acontece apenas depois de acidentes, catástrofes ou acontecimentos dramaticamente visíveis.

Encontra-mo-lo muitas vezes em pessoas que cresceram a sentir que nunca eram suficientemente boas, em adultos que passaram a infância num ambiente imprevisível, onde nunca sabiam quando surgiria uma crítica, uma humilhação ou uma explosão de raiva, em pessoas que aprenderam muito cedo a estar permanentemente atentas ao estado emocional dos outros porque essa era a única forma de anteciparem o perigo.

Quase todas chegam com a mesma conclusão.

“Eu sempre fui assim.”

Mas esta é uma frase que merece ser escutada com cuidado porque, às vezes, não estamos perante uma característica da personalidade. Estamos perante uma forma de sobrevivência que fez sentido numa determinada fase da vida e que o cérebro manteve, mesmo quando o perigo já passou.

A diferença entre estas duas formas de olhar para o problema é enorme.

Se acreditarmos que “eu sou assim”, sobra-nos muito pouca esperança de mudança. Mas se compreendermos que “foi assim que o meu cérebro aprendeu a proteger-me”, abre-se uma possibilidade completamente diferente.

É precisamente nesta compreensão que assenta o **EMDR — **Eye Movement Desensitization and Reprocessing. O EMDR é uma psicoterapia desenvolvida a partir do modelo de Processamento Adaptativo da Informação (Adaptive Information Processing), que parte de uma ideia muito simples: o cérebro possui uma capacidade natural para integrar as experiências que vivemos. Quando esse processamento é interrompido por acontecimentos demasiado perturbadores, algumas memórias permanecem armazenadas de forma disfuncional, continuando a desencadear sofrimento muito tempo depois de o perigo ter passado.

Nas últimas décadas, esta forma de compreender o trauma foi amplamente estudada e sustentada pela investigação científica. Hoje, o EMDR é uma das psicoterapias com maior evidência para o tratamento da Perturbação de Stress Pós-Traumático,  e é recomendado pela Organização Mundial da Saúde para esta indicação quando realizado por profissionais especificamente formados e certificados.

Mas reduzir o EMDR ao tratamento do trauma seria dizer muito pouco sobre aquilo que acontece durante este processo.

Aquilo que vejo, sessão após sessão, não é o desaparecimento das memórias. As pessoas continuam a lembrar-se do que viveram, continuam a saber que aquilo aconteceu.

O que muda é outra coisa.

A memória deixa de invadir o presente.

O corpo deixa de reagir como se o perigo ainda existisse.

E, talvez mais importante do que tudo isso, as conclusões que a pessoa tinha tirado sobre si própria começam também a transformar-se. A mulher que viveu anos convencida de que era fraca começa a reconhecer a força que teve para sobreviver e o homem que acreditava que nunca seria suficiente percebe que essa foi uma conclusão construída num determinado momento da sua vida, mas que não precisa de continuar a definir quem é hoje.

É por isso que gosto pouco da ideia de “ultrapassar o passado”. Talvez não seja isso que acontece. Talvez aquilo que realmente acontece seja outra coisa:

O passado deixa de ocupar o lugar onde nunca deveria ter permanecido: o presente.

E, quando isso acontece, a pessoa deixa de viver constantemente a partir daquilo que lhe aconteceu para voltar, pouco a pouco, a viver a partir daquilo que escolhe construir.

É essa, para mim, a verdadeira esperança que a neurociência trouxe à psicoterapia. Não a promessa de apagar memórias ou de eliminar tudo aquilo que foi difícil, mas a possibilidade de compreendermos que o cérebro pode continuar a mudar ao longo da vida.

E essa é uma ideia profundamente tranquilizadora.

Porque significa que há experiências que continuam a viver dentro de nós durante muitos anos, mas não significa, necessariamente, que tenham de continuar a decidir a forma como vivemos o resto da nossa vida.

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Quando a proximidade também assusta

Algumas das discussões mais difíceis surgem precisamente quando um casal começa novamente a sentir-se ligado e a recuperar a esperança na relação.

Porque é que alguns casais discutem precisamente quando começam a sentir-se mais próximos?

“Esta semana até correu bem… e depois bastou uma coisa sem importância para voltarmos ao mesmo.” É uma frase que ouço muitas vezes em consulta. Normalmente, é dita com um misto de tristeza e frustração, como se aquele momento viesse confirmar uma ideia que o casal já traz consigo há algum tempo: “Nós nunca conseguimos estar verdadeiramente bem.”

À primeira vista, isto parece um contrassenso. Se as coisas estavam finalmente a melhorar, porque é que voltaram a discutir? A maioria das pessoas responde logo: “Porque não sabemos comunicar.”

Na verdade, muitas vezes não é isso que está a acontecer. Há discussões que aparecem precisamente quando o casal começa novamente a sentir-se próximo, quando regressam os momentos de cumplicidade, quando voltam as conversas, quando há mais carinho ou quando, pela primeira vez em muito tempo, surge a esperança de que talvez ainda seja possível recuperar a relação. E é precisamente aí que, por vezes, surge uma discussão aparentemente absurda. Não porque a relação esteja pior, mas porque a proximidade muda completamente aquilo que está em jogo.

Quando alguém deixa de ser importante para nós, deixamos também de correr o risco de nos sentirmos profundamente magoados por essa pessoa. Mas quando voltamos a abrir espaço para o outro, abrimos igualmente espaço para a possibilidade de sermos rejeitados, desiludidos ou abandonados. A proximidade traz conforto, mas também traz vulnerabilidade, e nem sempre sabemos lidar com essa vulnerabilidade. Sem nos apercebermos, começamos a proteger-nos. Algumas pessoas insistem no contacto, outras afastam-se, há quem proteste, há quem se cale, há quem precise de resolver tudo agora e quem precise de tempo para organizar ideias e emoções. Aparentemente parecem comportamentos completamente diferentes mas, muitas vezes, todos estão a tentar responder à mesma pergunta. “Será que continuo a ser importante para ti?” e, contudo, quase nunca fazemos esta pergunta de forma direta. Ela aparece disfarçada numa crítica porque o outro chegou mais tarde, na discussão sobre a educação dos filhos, na forma como reagimos a uma mensagem que ficou sem resposta, ou até na famosa queixa da loiça que não foi para a máquina. O tema parece ser esse, mas na maior parte das vezes, não é. Há uma ideia que costumo partilhar com os casais: o conteúdo da discussão e o verdadeiro conflito raramente são a mesma coisa. A discussão pode ser sobre dinheiro, horários ou tarefas domésticas, mas aquilo que realmente dói costuma ser muito mais profundo. O que queremos mesmo saber é se “Posso contar contigo?” “Importo tanto quanto tu importas para mim?” “Quando preciso de ti, encontras-me ou volto a ficar sozinho?” É por isso que, muitas vezes, acabam por discutir durante uma hora por causa de algo que, depois classificam como insignificante.

Não estão apenas a discutir sobre o presente, estão a reagir ao significado que aquele momento ganhou para cada um. É também por isso que, em terapia de casal, não procuramos culpados. Esse caminho não ajuda. Torna-se muito mais interessante perceber o que aconteceu entre os dois. Quando observamos o casal desta forma, começamos a reparar que ambos ficaram presos num ciclo que nenhum escolheu conscientemente. Quanto mais um insiste porque precisa de sentir proximidade e segurança, mais o outro pode sentir que nunca consegue corresponder e acaba por se proteger afastando-se. E quanto mais se afasta para evitar mais tensão, mais o primeiro sente que está a perder a relação e insiste ainda mais. Sem querer, ambos começam a alimentar exatamente aquilo que mais receiam: um sente abandono, o outro sente fracasso, e, cada um confirma, sem intenção, o medo do outro. É precisamente aqui que muitas pessoas descobrem algo profundamente libertador.

O problema deixa de ser “o meu marido” ou “a minha mulher”, mas o ciclo em que os dois ficaram presos. Quando conseguimos olhar para o ciclo, em vez de procurarmos um culpado, começa a surgir espaço para uma conversa completamente diferente. Deixamos de perguntar: “Quem tem razão?” E começamos a perguntar: “O que é que cada um de nós está a tentar proteger quando reage desta forma?” Esta mudança parece pequena mas transforma profundamente a forma como um casal se olha porque, de repente, a crítica pode deixar de ser vista apenas como crítica e passar a ser entendida como uma tentativa desajeitada de pedir proximidade, o silêncio pode deixar de ser interpretado apenas como desinteresse e começar a ser visto como uma forma de evitar dizer algo que possa magoar ainda mais. Nenhuma destas estratégias costuma resultar muito bem, mas quase todas nasceram da tentativa de proteger a relação e não de a destruir.

Talvez seja esta uma das ideias mais importantes que a terapia de casal nos pode oferecer. Nem sempre discutimos porque estamos mais longe, às vezes discutimos precisamente porque voltámos a sentir que aquela relação ainda importa, porque quando há esperança, também há mais medo de perder. E talvez a pergunta mais útil não seja: “Porque voltámos a discutir?” mas antes: “O que tornou esta discussão tão importante para cada um de nós?”

Muitas vezes, é aí que a conversa verdadeiramente começa.

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Money, Money, Money……..

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Este é um tema que , como consequência desta fase que estamos a atravessar, estará seguramente na “ordem do dia” de muitos casais.

Independentemente da saúde financeira da relação, o dinheiro e as finanças do casal são um dos principais preditores de divórcio e fonte de constantes discussões.

No nosso país, falar de dinheiro é quase um sacrilégio e para ultrapassar este obstáculo é necessário compreender do que estamos a falar, porque discutimos, para encontrar uma maneira de chegar a acordos.

Idealmente, antes de assumir uma união de facto ou um casamento, é importante definir como o dinheiro e o restante património será detido e gerido. Mas, se tal não acontecer antes do início da relação , não o fazer depois é um erro que muitos casais cometem.

Considero que um casamento é uma parceria, e para que esta seja saudável, convém conhecer e acordar os termos da mesma.

Então o que precisamos de saber para ter uma abordagem construtiva ao tema?

Gustavo Serbasi identifica 5 perfis (poupados, gastadores, descontrolados, desligados e financeiros), cada um com os seus pontos fortes e fracos.

Conhecê-los e identificar o nosso é algo que ajuda a perceber os hábitos de consumo de cada elemento do casal, e compreender como potenciar os pontos fortes e atenuar os fracos.

Mas existem outros fatores a considerar quando conversamos sobre gestão financeira no casal. Assim aqui ficam algumas dicas a ter em conta:

Seja transparente

Quando for necessário rever os hábitos de consumo de cada um, a honestidade é a melhor política. A análise dos registos de despesa de forma conjunta, com o compromisso da ausência de comentários depreciativos e críticas maliciosas, ajuda a definir metas , a encontrar zonas problemáticas que precisam ser reduzidas.

Se após a definição de um orçamento fizer uma despesa não programada ou num valor superior ao acordado, não tente escondê-la do parceiro mas converse sobre a forma de acomodar esse valor e como proceder no futuro.

Estabelecer um plano

As questões relativas à poupança são também um tema frequente discódia. Nos 5 perfis referidos anteriormente, um dos pontos fracos de 2 deles, relacionam-se com o valor excessivo atribuído à poupança, que impede usufruir a vida de forma variada (jantar fora, viajar, etc).

Assim, quando falamos de poupanças é importante estabelecer metas comuns para ajudar a calcular o montante a economizar cada mês.

Também temos que considerar um montante de poupança individual para situações futuras como a reforma. Existem fórmulas que ajudam a calcular o esforço financeiro adequado a cada casal e que podem ser encontradas com a ajuda de um consultor financeiro.

Conheça os hábitos da família de origem de cada um

A forma como encaramos a nossa relação com o dinheiro construiu-se ao longo do tempo, e com uma grande influência da nossa família e dos seus hábitos financeiros.

Conhecer esta história, permite-nos colocar no lugar do outro e compreender melhor as motivações para os gastos.

É muito importante perceber o valor atribuído ao dinheiro. Para algumas famílias os gastos com os filhos são sinónimo de amor e como tal prioridade, muitas vezes sem limites. Para outros, o dinheiro é fator de segurança, especialmente em famílias que passaram dificuldades ou em que circulava a mensagem de que o dinheiro seria a única forma de construir autonomia. Pode ainda ser significado de valorização pessoal, status, poder.

Não existe uma maneira certa ou errada na forma de interpretar o significado do dinheiro, mas conhecê-lo ajuda-nos a perceber os comportamentos do outro e ajuda o próprio a consciencializar-se das suas atitudes.

Quais os gatilhos que desencadeiam despesas

As compras por impulso são muitas vezes uma forma de atenuar a nossa ansiedade ou de promover um sentimento de reconhecimento e recompensa que não foi obtido de outra forma. Tentar compreender, em casal, qual o contexto emocional e de necessidades não satisfeitas, permite perceber aquilo que está subjacente e que verdadeiramente necessitamos.

A ansiedade e perturbações do foro mental, muitas vezes levam a este tipo de comportamentos e beneficiam de uma intervenção de um psicólogo.

Partilhar informação relativamente aos ganhos reais que cada um obteve

Com frequência, um dos parceiros ganha mais que o outro, ou tem proventos para além do seu salário. A partilha desta informação é essencial para determinar um orçamento equitativo.

A divisão de despesas a meias não é solução quando existe uma disparidade acentuada. Uma divisão proporcional, geralmente é a forma mais aceite e sentida como justa.

Partilhe com o parceiro como nos se sente quando o fator “diferença de salário” é uma realidade que impacta não só na nossa autoestima, como também pode alterar a relação de poder.

Decidir quem controla o quê

Haver um responsável pelo orçamento e pagamento de contas pode fazer sentido. Contudo, esta opção pode levar a excessos de poder ou falhas nos pagamentos.

Tal como noutras situação, tenham uma conversa aberta e honesta com o intuito de perceber como se processa o excesso de controle e encontrar soluções temporárias ou mais definitivas para cumprir prazos de pagamentos.

A alternância de papeis, se previamente estabelecida, pode ser uma solução para ambos os problemas, controle e esquecimento.

Planear o futuro

Ter filhos, dar assistência aos pais e/ou outros dependentes são questões que estarão presentes para muitos casais.

Uma conversa acerca do que pretendem proporcionar aos vossos filhos em termos educativos, como pretendem encarar eventuais necessidades de acompanhamento, financeiro ou outro, dos familiares mais idosos ou dependentes, também irá influenciar o vosso plano financeiro de curto prazo e permitirá perceber valores e formas de encarar o valor da vida.

Dívidas e encargos

Qual o montante de dívida, desde cartões de crédito a empréstimos ou pensões de alimentos, trazemos para a relação?

As dívidas que trazemos para uma relação são da nossa responsabilidade, moral e financeira. Contudo, irão afetar a capacidade do próprio e do casal para construir  e atingir as metas do orçamento.

Se necessário, procurem um plano de renegociação da dívida que permita acomodar as necessidades do orçamento conjunto. Mais uma vez, a transparência e um diálogo construtivo são muito importantes.

Não sendo o tema mais romântico para o início de uma relação, o contrato antenupcial, no caso dos casamentos, ajuda a que logo desde o princípio fiquem claras as questões relativas ao património.

Celebrar conquistas

Depois de alguns anos de rotinas os casais têm tendência a cair numa zona de conforto que potencia conflitos. Celebrar as conquistas, periodicamente, que refletem o esforço do casal, com pequenos gestos, ou simplesmente com o assinalar de mais uma meta alcançada, reforça e aproxima a relação de casal.

O tema dinheiro é difícil. Regra geral, não tivemos acesso a uma educação financeira o que nos deixa muitas vezes inseguros. ( já agora, é fundamental educar financeiramente os filhos, dar-lhes a conhecer o valor do dinheiro, o seu papel na família, a importância do aforro, etc).

Mas a noção do nós em casal é relativa a todas as áreas, as conquistas e dificuldades a este nível são para partilhar, a proximidade e cumplicidade, o amor também se constrói assim.

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Não me vou aborrecer …..

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O tédio parece chato ao princípio, mas,

 caso leve a um saudável desespero,

 acaba sempre por ser fértil e criativo.

Miguel Esteves Cardoso

Aviso:

Este texto não se destina aos muitos portugueses que não estão de todo entediados na medida em que se encontram extraordinariamente ocupados, desempenhando a sua profissão no local de trabalho, em teletrabalho ou lidando com crianças, parentes ou daqueles que mais necessitam. Para estes o meu respeito!

Estar fechado em casa é aborrecido e leva a que se instale uma sensação de tédio. E o tédio pode ser avassalador. Os minutos não passam, vemos e revemos os mesmos canais e séries, lemos os infindáveis posts sobre os mesmos temas nas redes sociais, sempre com a certeza de que há qualquer outra coisa mais interessante que poderíamos ou deveríamos estar a fazer.

O tédio surge quando temos um determinado nível de energia que não conseguimos direcionar. Pode acontecer também por falta de estímulo e satisfação naquilo que estamos a fazer. Esta situação em que os encontramos, coloca-nos precisamente o desafio de encontrar uma forma de gastar essa energia e oportunidade de o fazer com significado.

Donde vêm essa energia?

Muitos de nós vamos experimentar um aumento de ansiedade, que nos predispõe à ação. Quando não temos onde gastá-la, começamos a sentirmo-nos entediados e em vez de ficarmos satisfeitos e relaxados ao assistir àquela série há tanto desejada, estamos inquietos e desconfortáveis.

Um outro fator desencadeador do tédio, é a sensação de falta de controle. Quando não gostamos ou não estamos interessados numa tarefa, mudamos, fazemos de forma diferente, ou fazemos outra coisa. Se estamos fartos de estar em casa, saímos para tomar um café, estar com amigos e voltamos revigorados e motivados para retomar a tarefa. Agora não é possível e esta falta de liberdade e controle, promove o tédio.

É como alguém me dizia: “Estou sem rumo, apenas à espera que o distanciamento físico termine”.

Mas ainda que o tédio seja muito desconfortável, não tem que ser totalmente negativo. As pessoas entediadas podem optar por sentar-se no sofá e acabar de uma vez com um pacote de batatas fritas, mas também podem ser extremamente produtivas, como Isaac Newton que, durante a quarentena imposta pela grande praga de Londres, em 1665, utilizou o tempo de isolamento para descobrir o cálculo e a gravidade.

O tédio tem uma função adaptativa para os seres vivos. Assinala-nos que estamos a deixar ir o controle sobre as nossas vidas e empurra-nos para a ação.

Então como combater o tédio?

Aceite o tédio

Parte do desconforto do tédio sempre existiu, mas estava camuflado pelo ritmo quotidiano em que o valor pessoal era medido pela produtividade.

A paragem obrigatória leva a que muitas pessoas questionem os processos rotineiros e, na ausência deles, sobra o tempo e a falta de sentido.

Contudo, quando o nosso cérebro está “aborrecido”, dedica-se a encontrar novas conexões neuronais, gerar ideias, fazer planos, torna-se criativo.

Encontre o seu ritmo

As rotinas estruturam os nossos dias e dão-nos um sentimento de coerência que potencia o propósito da nossa vida. Agora que a rotina do quotidiano, que nos obrigava a deslocar para o trabalho/escola, que era uma das mais significantes para a nossa identidade social, desapareceu, abriu-se o espaço para o tédio, a menos que outras rotinas igualmente estruturantes sejam adotadas.

Experimente algo novo

O tédio empurra muitos de nós para a necessidade de algo novo. Aproveitar esse impulso para aprender uma receita, uma atividade, uma competência, não só ajuda a curto prazo como se torna numa mais-valia para o futuro e contribuiu para um sentimento de auto-satisfação.

Deixe-se levar

A necessidade de encontrar atividades suficientemente desafiantes é difícil. Tenha em mente que o que encontre para fazer como interessante de manhã pode deixar de sê-lo ao longo do dia, ou das semanas que passam. Não se mantenha nessa atividade se sentir que precisa de uma pausa, mesmo que a pressão social assim o imponha.

Viva sem culpa os momentos de lazer

Ao ficarmos sem fazer nada, parece que desperdiçamos o tempo que até aí, mesmo no lazer, foi ocupado por imensas atividades. A modernidade tornou-nos dependentes dos momentos únicos e singulares que impedem que o tédio se instale com a intensidade da novidade constante.

Não há problema em consumir séries dos canais de streaming se for tudo o que consegue fazer no momento. Se tem prazer em dedicar-se a nada, aceite esses momentos como o seu reset mental para o que se segue.

Recorde porque estamos em casa

Precisamos de atribuir sentido ao “não fazer nada”.

Tal como a emoção, o tédio é influenciado por aquele que é o nosso pensamento do momento. Ou seja, ficar em casa só tem sentido quando pensamos ativamente no bem maior que implica. Reenquadrar a forma como pensamos acerca do que fazemos muda o nosso sentir.

Ficar em casa é a forma mais eficaz de conter a transmissão do vírus, é o meu superpoder.

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Ainda não é desta que vou ceder

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Não existe forma de “dourar a pílula”. Permanecer em isolamento com a família e/ou o companheiro por perto é fonte de stress e desgaste.

Por outro lado, a gestão do medo, da ansiedade associados à incerteza da situação, pode levar-nos a perturbados e com dificuldade de regressar a um estado de equilíbrio.

Se este fôr o caso, tente pôr em prática técnicas de relaxamento e exercício físico como forma de baixar a intensidade da ativação das emoções.

Existe um exercício de relaxamento, especialmente eficaz, conhecido por “4 elementosTerra, Ar, Água e Fogo” de Elan Shapiro, que ajuda, de forma rápida, a lidar com situações de vida negativas:

Os ativadores de stress internos e externos tem efeito cumulativo ao longo do dia e lidamos melhor com o stress quando ficamos dentro da “janela de tolerância” de ativação.

Um antídoto para ativadores de stress é a monitorização frequente e aleatória do nível de stress com ações simples de redução do mesmo para manter os seus níveis dentro da janela de tolerância.

Assim, use uma pulseira no pulso (de borracha, ou de cordel) e sempre que notar a presença, faça uma rápida leitura do nível atual de stress (por exemplo, numa escala de 0 a 10, sendo 0 a ausência de stress e o 10 o nível máximo de stress) e realize 3 ou 4 breves exercícios de relaxamento/autocontrole (os 4 elementos) e então avalie novamente o nível de stress (0 a 10).

O objetivo, modesto, é reduzir o nível de stress em 1 ou 2 pontos de cada vez e fazer isso pelo menos 10 vezes ao dia em momento aleatórios, a partir de diferentes níveis de stress inicial.

Ao evitar que as suas respostas de stress se acumulem, torna-se mais hábil a permanecer dentro da sua janela de tolerância.

Terra: ponha os pés no chão e tome consciência do local onde está. Sinta a textura do sofá onde está sentado. Seguidamente, repare em 3 objetos à sua volta (ex: “uma cadeira, uma mesa, um telemóvel”). O objetivo é sair da espiral de pensamentos perturbadores e intrusivos e trazer a sua atenção para o “aqui e agora”;

Ar: Vamos usar a “respiração quadrada”:respire fundo, pausadamente (conte 1-2-3-4 enquanto inspira; 1-2-3-4 enquanto retem o ar; 1-2-3-4 expire; 1-2-3-4 suspenda a respiração (antes de voltar a inspirar, reiniciando o ciclo), usando o diafragma.;

Água: beba água ou salive. Quando está ansioso, stressado, a sua boca fica seca, porque parte da resposta de emergência ao stress produzida pelo Sistema Nervoso Simpático, é desativar o sistema digestivo. Quando começa a produzir saliva, ativa novamente o sistema digestivo, pondo em ação o Sistema Nervoso Parassimpático, promovendo a resposta de relaxamento. É por isso que se oferece água, chá ou rebuçados às pessoas após uma experiência difícil. Quando há produção de saliva, a sua mente é capaz de controlar melhor os pensamentos e o corpo.

Fogo: Vamos “aquecer” a imaginação – procure uma imagem de um local agradável, real ou imaginado, inspirador de paz, confiança, segurança, relaxamento. Descreva-o em voz alta utilizando para tal os 5 sentidos: o que ouve? O que vê? O que cheira? O que sente? A que sabe? Simultaneamente vá respirando de forma profunda e pausada.

O exercício físico deverá ser adaptado às condições do espaço de cada um, e, de momento existem vários exemplos a circular na internet. Deixo-vos um, que estando em inglês, é fácil de fazer seguindo as instruções visuais

Este exercício, cross crawl, oferece uma maneira eficaz de reiniciar o sistema nervoso e reintegrar a mente e o corpo. Pode usá-lo regularmente para descarregar e recarregar a sua atenção e energia. Gera uma ótima oportunidade para distrair do foco em excesso e também funciona colocando o corpo e a mente alinhados. Além de um desactivador do stress ou como um aquecimento para se mexer melhor, o exercício traz benefícios sócio-emocionais significativos:

• Maior autoconsciência

• Melhor discernimento do contexto

• Mais clareza de pensamento

• Melhor controle de impulsos

• Melhorias na coordenação física geral

Estas são algumas ideias para ajudar a lidar com estes momentos diferentes e ansiogénicos que vivemos. Contudo são estratégias que podemos pôr em prática sempre que sentirmos necessidade de encontrar algum relaxamento e paz interior.

Fique bem, mantenha-se seguro(a)

Autor: Catarina Mexia (Psicóloga Clínica)

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Comunicar bem em casal – agora e sempre

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Com frequência sou questionada como comunicar melhor, quando, nas consultas de terapia de casal, a principal queixa é apresentada como “não sabemos comunicar”.

Nestes dias de quarentena que vão correndo, esta é uma capacidade fundamental. O potencial de conflito encerrado num processo comunicacional deficiente é enorme, e nesta situação de proximidade constante está exponenciado.

Comunicar é essencialmente ouvir!

Esta é uma das nossas competências mais subutilizadas . Na realidade, a maioria de nós acha que está a ouvir, quando na realidade está envolvido num diálogo interno que lhe permitirá refutar o que pensa que o outro lhe disse.

Quando não há envolvimento ativo no processo de escuta, muita informação não é rececionada (verbal e não verbal) e outra não é retida.

Para nos empenharmos num processo de escuta ativa precisamos utilizar os 5 sentidos. Esta prática não só nos informa sobre o outro, mas também sobre nós mesmos. A atenção ao corpo, a presença no “aqui e agora” permite-nos a construção de um feedback genuíno e que abre o diálogo incentivando uma comunicação positiva.

Assim devemos ter presente o seguinte:

·      Ouça para além do que é dito

Muitas discussões acontecem por razões que os casais descrevem como “tão pouco importantes que já nem se lembram”. Na realidade, a maioria dos conflitos começa com a “gota de água” que faz transbordar o mal estar de necessidades não satisfeitas. Queixar-me de que o meu companheiro não participa na confeção do jantar, na realidade pode ser uma queixa que poderia ser formulada como “Estive longe de ti todo o dia, queria a tua companhia, sentir que sou especial, que sentiste a minha falta também!” ( sim, a partilha das tarefas também aliviam o cansaço do outro)

·      Atente à linguagem não verbal

Compreenda e valorize a linguagem corporal do outro e atente na sua.

Muitas vezes o mal estar que sentimos numa conversa, pode ser explicado pela incongruência entre o que é dito e o comportamento, a linguagem corporal.

Quando estamos a falar com alguém que expressa verbalmente a sua preocupação pelo que lhes transmitimos e tem o olhar fixo no telefone, nas redes sociais, o mal estar que esse diálogo nos faz sentir é legitimo. As minhas palavras dizem “Interesso-me, preocupa-me com o que dizes”, o meu comportamento revela o contrário – e isso é irritante.

Tenha atenção à forma como se expressa e ao modo como se comporta no diálogo com o outro.

·      Time-out

Um diálogo pode estar imbuído de todo o tipo de respostas emocionais, desde a alegria à tristeza passando pela raiva e a zanga.

Quando em conflito, muitas vezes chegamos a um estado de ativação neurofisiológica e emocional que nos impede “manter a cabeça fria” e estar disponível para ouvir o outro.

Aceitem como estratégia o sinal de “time out” como forma de se retirarem da conversa o suficiente (20 minutos costuma ser o tempo adequado) para acalmar e permitir que o seu corpo e as suas emoções regressem a um nível gerível.

·      Realidade única?

A empatia e a bondade são dois elementos fundamentais para uma boa comunicação. A velha questão “queres ter razão ou ser feliz?” implica um equilíbrio entre a nossa visão e a compreensão do outro e da sua realidade. Ficar preso na busca da verdade absoluta só nos bloqueia. Admitir que existirão sempre 2 versões da realidade permite-nos construir pontes, processos de negociação.

·      Negociação

A maioria das negociações termina em compromisso de ambas as partes.

Numa boa conversa, ir mais além do “bater bolas” é fundamental.

Perdermo-nos nos pormenores, no ataque ao outro, não nos deixa perceber que muitas vezes ambos queremos o mesmo, mas temos caminhos diferentes para lá chegar.

Assim, procurem partilhar as vossas necessidades para além da queixa, para poderem passar à fase da resolução. Começar por aceitar que não terão uma solução boa, mas uma suficientemente boa para ambos é o primeiro passo para construir um compromisso partilhado.

Se o meu cansaço na relação se traduz na queixa de falta de iniciativa do outro para programar uma saída a dois, e o meu parceiro se queixa da minha falta de iniciativa para partilhar o sofá nas noites de semana, provavelmente ajuda assumir que o problema é o reconhecimento da necessidade da companhia do outro e da iniciativa de cada um para o demonstrar. Então encontrar um compromisso que permita satisfazer as necessidades especificas de cada um (ficar em casa, sair para jantar), dar-nos-á uma boa probabilidade de chegar a uma solução mutuamente satisfatória.

 Não existem relações perfeitas.

Como alguém dizia, “Casais felizes não são os que não discutem, mas aqueles que sabem resolver uma discussão”.

Autor: Catarina Mexia (Psicóloga Clínica)

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Sedução e Sedutores

Don Juan e Casanova são exemplos clássicos de sedutores inquietantes, bem falantes e mal pensantes que precipitam as senhoras no mau caminho. Hoje, no mundo das SMS, da Internet e de outras tecnologias, existirá ainda lugar para sedutores?

Terá o sedutor desaparecido da nossa sociedade tendencial e se­xualmente igualitária? Não me parece. Aliás, a curta duração de muitas relações, que morrem nas suas fases mais iniciais, comprovam o domínio do reino da sedução.

Em 1995, o filme Don Juan Demar­co, de Jeremy Leven, interpretado por dois grandes sedutores do cinema, Marlon Brando e Johnny Deep, veio reanimar o persona­gem literário de Don Juan, tido como símbolo de sedução e liber­tinagem. Este personagem, cuja existência real ainda hoje é discu­tida mas largamente representada nas mais variadas formas de arte, procura representar um padrão de personalidade narcísica, sem escrúpulos, amada e odiada e que não olha a meios para conquistar uma mulher. Curiosamente, este protótipo não é descrito para o sexo feminino – tido sempre co­mo vítima do sedutor, ainda que muitas mulheres sejam mestras na arte de seduzir.

Triunfo da conquista. Actual­mente a referência ao Don Juanis­mo serve para caracterizar uma situação que muitas vezes se torna patológica para o sedutor e para aqueles com quem ele se relaciona. Trata-se de uma forma de estar caracterizada por uma forte com­pulsão para a sedução de alguém que procura enamorar-se da pes­soa mais difícil de conquistar para a abandonar em seguida. São pes­soas que não conseguem manter uma relação por muito tempo, partindo logo em busca de novas conquistas.

Para o Don Juan apenas interessa o instante do prazer e o triunfo so­bre a sua conquista, principalmen­te quando o alvo do seu interesse tem uma situação relacional e ci­vil proibida. É o aspecto do desafio que o mobiliza, fazendo com que a conquista amorosa tenha contor­nos de desporto e competição. O narcisismo destas pessoas é um aspecto que melhor as caracteri­za, ao ponto de se amarem muito mais a si mesmas que a qualquer outra pessoa.

Estes Don Juan não são obriga­toriamente mais viris ou sexual­mente activos. A sedução contínua nem sempre se dá à custa de um eventual desempenho sexual ex­cepcional, mas devido à habilida­de em oferecer sempre às mulheres aquilo que elas mais desejam. São, por isso, o protótipo do príncipe encantado, tão valorizado pelo sexo feminino desde a mais tenra infância, e têm a capacidade de perceber rapidamente os gostos e fraquezas das suas vítimas, sendo muito rápidos em satisfazer as mais diversas expectativas. Não é de estranhar, por isso, que as mulheres que se envolvem em ligações deste tipo saem muito magoadas e com uma profunda sensação de raiva e abandono.

Arte de seduzir. Para além da faceta negativa da capacidade de seduzir, geralmente instalada em personalidades imaturas, já o uso da sedução no dia-a-dia deveria ser uma arte a desenvolver e a aplicar com frequência, qualquer que seja a nossa condição. Muitos casais beneficiariam desta arte se a praticassem mais e melhor, que­brando assim rotinas maçadoras e espevitando relações mornas. O dia de São Valentim tornou-se na festa instituída para pôr em prática a capacidade de agradar ao outro, de lhe mostrar que nos importa a sua presença. É o amor com dia e hora marcada. Mas porque hoje nos casamos ou nos unimos a alguém por amor, sen­timento muito pouco racional, feito de ternura e sexo, a sedução está cada vez mais que nunca na ordem do dia.

O objectivo da sedução é obter a atenção da pessoa por todos os meios possíveis para conseguir o controlo emocional e criar uma fonte de prazer. As etapas e ri­tuais de sedução são universais, com poucas nuances, geralmente de natureza cultural. Por exem­plo, quer no mundo dos huma­nos como no animal, é sempre a fêmea que é o sujeito da sedução e o macho o sedutor. Mas o sedu­tor nem sempre é aquilo que julga­mos. Se um homem tentar sedu­zir uma mulher que não o queira, rapidamente compreenderá quem tem o poder no processo de sedu­ção. Mas quais são as famosas eta­pas de sedução?

Etapas da sedução. O primei­ro passo é prender a atenção do outro. Geralmente as mulheres valorizam os atributos físicos (ao contrário do mundo animal), enquanto os homens ostentam o seu poder e riqueza. Os homens exibem-se e as mulheres provo­cam. E vem o momento em que os olhares se cruzam. Se o olhar perscrutador do homem encon­tra o olhar receptivo da mulher, produz-se uma faísca repleta de promessas. Se a mulher sorri, revolve o seu cabelo com os dedos, o homem tem permissão para avançar. Caso contrário as suas hi­póteses são reduzidas. O olhar é o instrumento de sedução mais efi­caz no ser humano e tem o poder de decidir o sucesso ou insucesso de uma potencial relação.

A seguir há que iniciar uma con­versação. A naturalidade e curio­sidade em conhecer o outro um pouco melhor criam melhores probabilidades de gerar uma con­versação, cujo conteúdo até nem é muito importante. A manuten­ção do interesse do outro é extre­mamente importante e para tal temos que ser observadores, estar atentos, esquecermo-nos de nós. A conversação é o ponto de ruptura: a sedução passa ou acaba, o encan­tamento permanece ou parte-se. De acordo com os antropólogos, é geralmente a mulher que gera o primeiro contacto físico, através de um leve aflorar da mão com a mão, sempre de forma fortuita e ingénua, ainda que premeditada e calculada quanto aos seus fins. É aí que começa o verdadeiro teste às capacidades de sedução. Com este ligeiro toque foi dito “sim interes­sas-me, continua a seduzir-me.”

Reacender a paixão. A arte da sedução não diz respeito apenas àqueles que se querem envolver numa relação. Ela permite fazer durar um amor e reacender mo­mentos de paixão numa relação ameaçada pelo tempo e pelas crises.

A sedução e o amor necessitam de manutenção, no sentido de ha­ver uma ajuda mútua na satisfa­ção das nossas necessidades de afeição, crescimento pessoal, ne­cessidades sexuais, sonhos, pro­jectos conjugais. Em suma, a ser felizes.