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A importância do Auto-conhecimento

A capacidade de nos relacionarmos os outros está, em primeiro lugar, ligada à capacidade de nos auto-relacionarmos. Daí que o auto-conhecimento seja cada vez mais procurado, seja através de terapia ou de técnicas de meditação oriental.

Cada um de nós procura o seu in­terior motivado, na minha opi­nião, pela procura de segurança pessoal. Quero saber quem sou para ter mais segurança em mim. Quero saber quem sou, para saber quem procuro ou o que procuro no outro. E há medida que vou cres­cendo esta questão é cada vez mais importante. Quem sou eu? O que necessito? O que me atrai, o que me cativa, o que me satisfaz? Fala-se de um mundo novo, de um mundo despojado de certezas, de afirmações absolutas, de cami­nhos correctos, de lugares segu­ros. Há um risco maior, há solicita­ções permanentes, há obrigações inadiáveis, há trabalho constante e muito pouco tempo para nos de­dicarmos a nós próprios e ao ou­tro. Daí que quando escolhemos os amigos ou o companheiro com quem queremos partilhar a nossa vida sejamos mais exigentes e se­lectivos nessa escolha, que tende a ser cada vez mais verdadeira e in­dependente de questões sociais ou culturais.

Crescer com os desafios. Pe­rante novos desafios podemos to­mar duas opções: recusar o desafio e procurar refúgio no que é segu­ro, familiar e protetor ou aceitar o risco e experimentar novos papéis, situações e sensações.

Crescer implica enfrentar medos, ter a coragem de desafiar pressu­postos antigos, questionar ver­dades absolutas, ponderar cami­nhos tidos como certos, aceitar correr riscos. Muitas vezes prefe­rimos viver agarrados a tradições, costumes, regras, verdades que nos fazem sentir seguros (e prova­velmente infelizes), do que aceitar novas maneiras de ser e fazer, de sentir, de pensar, de estar.

Crescer implica realizar mudanças pessoais, alternando entre avanços e retrocessos, movimento e estag­nação, busca de novas sensações ou refúgio nas antigas. Pode significar dor, desvinculação, separa­ção, mas também segurança, for­ça, alegria e determinação. Uma mudança pessoal vai para além da mudança observável. A mudança física, objetiva e concreta é mais simples de realizar do que a mu­dança interior. Com maior ou me­nor dificuldade, mudamos de casa, de emprego, de cidade, alteramos hábitos de vida ou adaptamo-nos a novas circunstâncias. No entanto, a mudança interior necessária pa­ra nos adaptarmos a novos desafios da vida é muito mais dura e difícil de conseguir.

A mudança interior permite maior capacidade de adaptação à vida e de realização pessoal. Realizar uma mudança implica enfrentar medos, desafiar a au­toridade, estar preparado para assumir a responsabilidade pelos próprios atos.

Perante acontecimentos que desa­fiam a nossa maneira de pensar e de agir, ou perante situações que nos obrigam a tomar opções, po­demos optar por dois caminhos: a estagnação ou a evolução.

Crescer ou estagnar? Se as pressões ou os desejos para a es­tagnação prevalecem, tendemos a negar as oportunidades de vi­da que nos surgem, recusando-as ou encontrando justificações que nos permitem pô-las de parte sem nos sentirmos culpados. Impedi­mo-nos de arriscar numa relação porque temos medo de ser mago­ados, ou prolongamo-la indefini­damente no tempo por medo de ficarmos sós; não aceitamos um novo emprego aliciante porque o atual é seguro e fixo, ou recusa­mos uma nova tarefa porque te­mos medo de não sermos bem su­cedidos a fazê-la; não partimos em viagem com medo de não conse­guirmos voltar ou andamos sem­pre de lado para lado porque te­mos medo de parar.

Neste caminho não conseguimos aceitar que temos medo, que po­demos errar e que, por isso, op­tamos por viver estagnados mas “seguros” a um modo de vida. Normalmente agarramo-nos aos pressupostos que nos foram incu­tidos na infância, seguimos as pi­sadas daqueles em que confiamos, deixamos os mais próximos deci­dir o nosso rumo. Definimo-nos mais por aquilo que partilhamos com o outro do que pelas caracte­rísticas que nos são próprias ou ex­clusivas. Há uma tendência para a fusão com o outro.

Mais desafios. “Eu sou a rela­ção que formo com o outro; per­der a relação significa perder-me a mim mesmo”. Esta situação po­de ser muito angustiante e obri­gar a um grande desgaste pessoal, pois na corrida para satisfazermos os desejos do outro deixamos pa­ra trás os nossos. Bloqueamos os nossos impulsos e necessidades em favor das vontades do outro. Não expressamos a nossa verdade com medo de perder o outro. Se, pelo contrário, as pressões ou o desejo pessoal para a evolução se sobrepõem, optamos por arris­car, realizando mudanças que são movidas, decididas e iniciadas por nós. São mudanças que têm asso­ciadas mais dúvidas e incertezas, do que a segurança e solidez, pois o caminho a traçar é novo, diferen­te do conhecido e experimentado e, consequentemente, mais desa­fiante. Movemo-nos no sentido de construção da nossa identida­de, fortalecimento e crescimen­to pessoal. Nestas situações agi­mos. Somos capazes de organizar o tempo em função das necessi­dades pessoais, de dizer “não” ao outro, de defender princípios di­ferentes dos que nos foram incu­tidos. O adolescente é capaz de di­zer “não” às pressões dos amigos; a rapariga é capaz de terminar a re­lação em que sofre e assumir a vi­da de forma autónoma; a mulher parte para a viagem que necessita, enfrentando o mundo de frente; o homem inicia uma terapia porque sabe que sozinho não é capaz de resolver os seus problemas.

Forte e autêntico. Ter a cora­gem de arriscar e de enfrentar os obstáculos que esta ação implica é por si só um sinal de mudança, uma certeza de que acreditamos que a vida pode ser diferente. O caminho é pautado por dor ou so­frimento, mas acreditamos que o conseguimos trilhar. É certo que podemos não acertar sempre nas opções que fazemos ou magoar­mo-nos com algumas delas, mas sabemos que temos capacidade pa­ra realizar as mudanças e tornar­mo-nos mais fortes e autênticos. É neste momento que cada um é o verdadeiro ator e autor da sua vi­da. Na dúvida do que fazer, expe­rimente!

 

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Aborto Espontâneo , Sonho adiado

Com o aparecimento da pílula e de técnicas de reprodução medicamente assistida, aquilo que para muitas mulheres passaria despercebido passou a ser vivido como um problema real: a interrupção involuntária no início da gravidez, ou seja, qualquer momento antes das 20 semanas de gestação.

Os abortos espontâneos são mui­to comuns. As estatísticas mos­tram que para as mulheres que tomam como medida de gravidez a falta de menstruação, cerca de 15% tiveram um atraso menstru­al sem uma gravidez subsequen­te. No entanto, o aparecimento de testes altamente sensíveis permi­te detectar uma gravidez ao fim de cinco ou sete dias após a fertiliza­ção do óvulo, cerca de uma sema­na antes do período menstrual. Se ao primeiro grupo juntarmos es­tas gravidezes detectadas tão pre­cocemente, o número de abortos espontâneos sobe para 3o%.

Explicação médica. As causas deste tipo de aborto podem ser muito diversificadas e parecem não reunir consenso. Contudo, alguns estudos apontam para que cerca de metade destas situações se devam a um erro genético no momento da concepção. Trata-se da resposta da mãe natureza a es­ta situação, descartando o ovo que resultaria num embrião inviável ou numa criança com problemas graves.

Contrariamente ao que muitos ca­sais julgam, o aborto não se deve, na maior parte dos casos, a atitu­des erradas, ainda que a adopção de um estilo de vida saudável, no que diz respeito ao exercício, ali­mentação e hábitos tabágicos e al­coólicos, potcncie a fertilidade do casal. Muitos médicos consideram o primeiro aborto deste tipo como fruto do acaso, embora esta expli­cação seja insuficiente para os fu­turos pais. A avaliação médica des­tas situações apenas se inicia após o terceiro aborto e, mais uma vez, a hipótese de haver uma falha ge­nética é muito grande.

Para identificar a causa dos abor­tos espontâneos, a mulher deve su­jeitar-se a uma série de testes. Um dos primeiros factores que deve ser pesquisado é a existência de ano­malias estruturais do útero, ana­tómicas ou não, que comprome­tam a implantação do embrião.

Esta parece ser a causa em 12% dos casos, apesar de muitos pro­blemas anatómicos poderem ser corrigidos cirurgicamente.

Os níveis hormonais são outra área de investigação. Por vezes o corpo da mulher não produz a quantida­de de progesterona necessária pa­ra permitir o crescimento do endo­métrio após a concepção. Noutros casos, um desequilíbrio da tiróide ou o aparecimento de uma diabe­tes também podem dar origem a este tipo de aborto. Nestes casos, a compensação hormonal e do es­tado metabólico em geral pode ser suficiente para que uma nova ten­tativa seja bem sucedida.

O estudo da mulher e do parcei­ro quanto a doenças sexualmen­te transmissíveis e outras, como a rubéola, é também necessário. Da mesma forma, o casal deve efectuar uma análise cromossó­mica através da determinação do cariótipo de cada um. Em alguns casos, raros, um dos cônjuges po­de ser portador de uma estrutura genética anormal que poderá in­viabilizar uma gravidez.

Lidar com a perda. Perder uma gravidez deixa qualquer casal nu­ma luta intensa para recuperar o equilíbrio emocional, ao mesmo tempo que o corpo da mulher re­cupera das alterações físicas. Se al­guns casais parecem pouco afecta­dos pelos acontecimentos, outros experimentam sentimentos de perda que os podem levar a uma instabilidade emocional e, por ve­zes, uma depressão reactiva a tu­do o que se passou. Muitos os ca­sais expressam uma tristeza que até aí não julgavam ser possível sentir e esse sentimento tem ten­dência a agravar-se com o número de abortos.

O modo como a mulher e o seu par encaram o aborto espontâneo é ge­ralmente diferente: a mulher ne­cessita de rever e falar acerca da perda, enquanto o homem se mos­tra mais prático e orientado para ultrapassar a situação. Isto não significa que o homem não este­ja a sofrer — as pessoas nem sem­pre ultrapassam os mesmos problemas ao mesmo ritmo ou com as mesmas soluções. De uma for­ma geral é o homem que consola a mulher, mas este não deve ser o único a proporcionar conforto. Cada um necessita de contar com o outro para dar suporte e confor­to, encontrando um espaço em que ambos se permitam estar infe­lizes, estar tristes, poderem falar e confraternizarem com outras pessoas sem julgamentos de valor quanto à forma como cada um rea­ge em determinado momento. Se já existem outros filhos, é nor­mal que eles expressem o senti­mento de responsabilidade pelo sucedido. Assim, devemos ouvir as suas preocupações e tentar ex­plicar-lhes o que se passou. As crianças devem ter a possibilida­de de partilhar e compreender a tristeza dos adultos e de expres­sar a sua própria tristeza.

Processo emocional. Todas as perdas representam objectivos que não foram atingidos, sonhos que se desvanecem e trazem algum pessimismo na forma de encarar o futuro. Em qualquer perda exis­te subjacente um processo que pode ser identificado através das se­guintes etapas: choque e negação; raiva, culpa e depressão; aceitação. Cada uma destas fases é necessá­ria para ultrapassar a perda. Leva tempo a ser superada e a forma que assume pode variar muito de pes­soa para pessoa.

A patologia apenas acontece quan­do há fixação apenas numa destas etapas e recusa em passar à scguin­te, no sentido da aceitação. Podem existir factores que favorecem es­sa fixação. Alguns podem ser ante­cipados e evitados, outros não. Se, por exemplo, se sofreu uma perda recente, e o momento do processo é o da raiva, culpa e depressão, e te­mos um convite para uma festa de crianças em que o ambiente não é adequado à nossa forma de estar, será melhor não comparecer à fes­ta e sair, envolvendo-se noutras ac­tividades que dêem prazer ao ca­sal. No entanto, se não for possível evitar situações como esta, então será melhor encará-las como incó­modos temporários inevitáveis. Percorrer o processo de luto faz parte da recuperação. Não faz de­saparecer a perda nem permite es­quecer, mas com o tempo permite encontrar um lugar para arrumar confortavelmente esta perda. Importa saber que todas as reac­ções são normais e o casal não de­ve sentir medo ou retracção em expressar e eventualmente expor a um terapeuta os seus medos e preocupações

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Ser Pai

A gravidez é um período geralmente desejado e bem recebido pelos casais. Mas se para a mulher significa um tempo de transformação e novidade, para o homem é muitas vezes um período marcado por um misto de alegria e ansiedade.

Quanto à alegria, a sua razão pa­rece-me evidente. Já a ansiedade está muitas vezes relacionada com a incapacidade em compreender e ajudar a mulher a ultrapassar as dificuldades decorrentes das transformações da gravidez.

Primeiro trimestre. Qualquer tipo de ajustamento gera stress e a preparação para um novo ser na família é uma enorme mudan­ça no estilo de vida de cada um de nós. O espaço físico e mental vai ser alterado e partilhado por um bebé. Os próximos nove me­ses são momentos de incerteza e novidade para a mulher e para o homem.

Compreender as alterações que vão ocorrendo durante este período pode ajudar o casal a ultrapas­sar pequenos desentendimentos. Assim, durante o primeiro tri­mestre a mulher experimenta grandes mudanças no seu am­biente hormonal de maneira a preparar o corpo para gerar uma nova vida. Nesta fase é comum as mulheres mostrarem-se susceptí­veis, com mudanças súbitas de hu­mor, especialmente no sentido da irritabilidade e do humor depres­sivo. Os enjoos matinais não são comuns a todas as mulheres, mas aquelas que os sofrem referem que os mesmos desaparecem ao fim dos primeiros dois a três me­ses. Cheiros, habitualmente tole­rados, como comida, tabaco, etc., podem tornar-se incómodos e des­poletar situações de enjoo.

Para ajudar a ultrapassar estes incómodos, o marido pode ter em atenção os intervalos entre re­feições, até porque um estômago vazio pode aumentar a sensação de náusea e uma ida ao cinema pode ser mais descansada e agra­dável para ambos se antes cuida­rem do estômago antes de entra­rem na sala.

Segundo trimestre. Durante o segundo trimestre o maior desa­fio surge com as alterações que o corpo da mulher começa a sofrer. A mulher pode ganhar peso de uma forma repentina e a presen­ça do bebé torna-se mais eviden­te através de movimentos que são percebidos pela mãe e muitas ve­zes visíveis para o pai. Durante este trimestre torna-se possível ou­vir o som do batimento cardíaco do bebé e vê-lo nas ecografias. Do ponto de vista psicológico, es­te é um período em que o bebé faz a sua aparição de forma mais evi­dente. Se até aí constituía uma ideia, um sonho bonito, agora a sua presença começa a condicio­nar ainda mais a vida do casal. Al­guns dos futuros pais começam a notar que por volta do segundo trimestre a mulher começa a de­monstrar alterações no apetite se­xual. A resposta das mulheres às mudanças que estão a ocorrer é di­ferente. Algumas tornam-se sexu­almente mais receptivas e alteram a sua frequência nas relações sexu­ais. Outras podem simplesmente estar demasiado cansadas ou preocupadas se o acto sexual irá pre­judicar o bebé. As experiências relatadas deste segundo trimes­tre são muito diferentes de casal para casal mas a verdade é que não existem regras para encarar a vida sexual. Os casais devem ape­nas informar-se dos reais incon­venientes que podem estar rela­cionados com a sua gravidez em particular.

Falar abertamente acerca das mu­danças que foram percebidas po­de ser uma forma de evitar dis­cussões e mal-entendidos entre alguém preocupado em criar o melhor ambiente para a nova vida e um futuro pai que começa a per­ceber que vai ter que partilhar a sua mulher com o bebé. Este é um momento único para o casal come­çar a experimentar novas formas de relacionamento, especialmen­te marcadas pelo compromisso en­tre o que quer, o que era habitual e as novas necessidades.

Terceiro trimestre. O tercei­ro trimestre é o período marcado pela preparação para o parto. As últimas semanas de gravidez pa­recem eternas para o futuro pai e para a mãe e os dois começam a verbalizar de forma mais intensa a sua preocupação com o bem-es­tar do bebé e se este será perfeito.

A aproximação do parto aumenta os receios dos futuros pais relati­vamente ao que irão encontrar. Outro problema que muitas vezes começa a ser verbalizado pelos fu­turos pais, com o nascimento emi­nente do filho, prende-se com as responsabilidades financeiras. Es­te pode ser um momento impor­tante para o casal rever a sua forma de estar na vida e chegar a consen­sos relativamente ao que conside­ra fundamental para a boa relação do casal e para a educação e bem—estar do seu filho. Para alguns ca­sais, habituados a viverem para os dois, sem preocupações com o fu­turo, pode ser um assunto difícil. A preparação de um orçamento antecipado pode ter vantagens. Quando se aproxima o momen­to do parto é comum as mulheres expressarem o seu medo da dor ou do parto. Dizer-lhe apenas que “tudo irá correr bem”, geral­mente não é muito eficaz. Impor­ta perceber a dois, antes da “hora H” qual o papel do pai, como pode ser um elemento securizante e co­mo pode participar neste momen­to, que, quer se queira ou não, vai ser vivido de forma muito inten­sa pela mulher. Principalmente, é necessário que ambos estejam conscientes das suas responsa­bilidades e limitações: a mulher não pode esperar que o marido não tenha dificuldades ou hesita­ções relativamente à sua conduta, ou mesmo que tenha dificuldade em presenciar o seu sofrimento. Não significa desinteresse, me­nor importância ou desprezo pe­lo momento, mas todos temos as nossas limitações.

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Feliz Natal ?

O Natal e o fim de ano são datas in­contornáveis. Os seus sinais inva­dem-nos e subitamente o mundo que nos rodeia fica colorido com lu­zinhas brilhantes, o Pai Natal es­preita em cada esquina e o irresistí­vel chamamento das montras leva- nos a contemplar os desejados pre­sentes. O Natal entra em nossa ca­sa através da publicidade na televi­são. Invariavelmente, a mensagem é de felicidade generalizada. Familiares, colegas de trabalho e amigos parecem apostados em ganhar a corrida das compras. As­sociado a todas estas questões es­tá implícita a alegria e o entusias­mo antecipado de quem vai ter um grande prazer em receber aquela prenda tão desejada.

Muitos de nós acabamos por asso­ciar a noção de felicidade, quem sa­be repetindo o prazer da magia dos natais da infância. São momentos mágicos, onde a harmonia fami­liar é reinventada, os brindes se sucedem e a esperança num futuro melhor é reafirmada. São dias especiais, dias em que é qua­se obrigatório estar feliz e por aí se mede a nossa sensação de integra­ção social.

Disfarçar a Tristeza. Por estar tão associada à felicidade, a qua­dra natalícia é uma altura em que a dor, o desgosto e a solidão não de­veriam estar presentes e se tornam difíceis de gerir. A ausência de al­guém muito querido é ainda mais sentida. Faltam forças para resis­tir à agitação familiar, para orga­nizar a consoada e para estarmos felizes, especialmente para com os mais novos.

A pressão de ter que correspon­der às expectativas dos outros, de disfarçar a tristeza para não estragar a festa ou de nos sentir­mos obrigados a conviver são situ­ações que apenas acrescentam so­frimento à nossa dor. Todavia, es­tas podem ser geridas com menos sofrimento.

A palavra de ordem terá que ser “protecção”, permitindo-nos não fingir gostar do insuportável e deixar que os amigos e familia­res conheçam os nossos senti­mentos. Devemos procurar as su­as opiniões, a sua ajuda sobre a me­lhor forma de lidar com estes mo­mentos, porque ignorá-los não fará a dor desaparecer mas partilhá- los poderá ajudar a suportar a so­lidão. Fazê-lo com antecedência é também importante. Partilhar o nosso estado de espírito vai per­mitiir que os outros ajustem as suas maneiras de agir, quebrando o ta­bu paralisante de não falar na per­da ou na dor a ela associada.

Direito aos sentimentos. As crianças deveria ser autorizada a liberdade de exprimir a saudade e tristeza e de questionarem os adul­tos sobre a melhor forma de lida­rem com a situação sem constran­gimentos. A sinceridade e dispo­nibilidade dos adultos são neces­sárias para que isso seja possível. Numa época em que toda a gente exibe sorrisos bem dispostos, es­tar triste é destoar. Contudo, to­dos nós podemos conquistar o di­reito aos nossos sentimentos dis­sonantes. Embora seja habitual festejar de acordo com rituais so­cialmente estabelecidos, estes podem cumprir-se de forma diferen­te, em acções que tenham signifi­cado individual, com sentido pró­prio, que integrem a dor e ajudem a curá-la.

Separação. O divórcio é outra das situações particularmente di­fíceis para viver na época natalí­cia. É necessário reorganizar a fa­mília, construir novas formas de celebrar e novos motivos de cele­bração. O círculo social transfor­ma-se, especialmente no primei­ro ano. Os amigos do outro, ou de ambos, podem já não fazer parte das relações mais próximas. As crianças continuam a esperar um Natal cheio de prendas. E o consu­mismo que nos caracteriza não é compatível com a perda de capaci­dade financeira resultante de uma separação. Boa disposição e muita criatividade precisam-se.

 

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Depressão: um assunto da família

Os dados estatísticos relativos à depressão demonstram que, de facto, o número de deprimidos tem vindo a crescer de forma consistente nos últimos 50 anos e que esse crescimento se verifica sobretudo nas pessoas nascidas depois de 1945. Por sua vez, os sintomas depressivos têm vindo a surgir cada vez mais cedo, perto dos 20 anos, enquanto que antes não seria de esperar encontrar pessoas com esta doença com menos de 3o.

A análise dos dados de estudos transculturais tem demonstrado que, embora tenham vindo a ser descobertas causas associadas a fatores individuais, bioquímicos e genéticos, esta é uma condição fortemente associada a fatores culturais. Podemos encontrar inúmeros fatores depressores na nossa cultura e, entre outros, destacam-se a facilidade de acesso a enormes quantidades de informação e a alteração da noção de tempo, causados pela súbita evolução tecnológica. Só desde 1945 devemos ter acumulado e criado mais formas de acesso a informação do que aquelas que produzimos até então.

Quanto maior é a quantidade de informação de que dispomos mais nos vemos forçados a roçar- lhe apenas a superfície, para evitarmos uma sobrecarga. Do ponto de vista psicológico somos levados a olhar esse excesso de informação de uma forma global, descurando o detalhe, o pormenor, donde resulta que, quando tentamos resolver um problema, tenhamos tendência para nos perdermos porque, frequentemente, a sua solução nos aparece dispersa, como numa sucessão de pequenos objetivos. Assim, cresce em nós uma sensação de impotência perante os problemas, que nos faz senti-los como inultrapassáveis e que nos leva a desistir de resolvê-los antes mesmo de tentarmos. Mas esta grande mais-valia da revolução tecnológica — a economia de tempo — também contribui para o aparecimento da depressão na medida em que permite que tudo aconteça com maior rapidez, ao contrário do que se verifica nas relações interpessoais, valores e cultura, em que as mudanças ocorrem de uma forma muito mais lenta. Não podemos aprender a ser bons juízes de carácter num instante nem querer estabelecer uma relação amorosa perfeita de um dia para o outro. Este novo conceito aplica-se bem à tecnologia, trazendo-nos inúmeras vantagens, mas faz-nos esquecer de que é necessário muito tempo para vencer etapas e atingir objetivos no domínio das relações humanas. Talvez o exemplo mais próximo de muitos de nós se prenda com o facto de, ao partilharmos a intimidade tendo sexo com alguém, acharmos que imediatamente construímos uma relação, quando na realidade ainda nem conhecemos a pessoa.

O que é? A depressão é caracterizada pelos profissionais de saúde mental como uma perturbação do humor mas também como um sintoma que pode variar muitíssimo de indivíduo para indivíduo. É seguramente uma situação complexa que irá afetar inúmeras facetas da vida de uma pessoa. Pode afetar-nos fisicamente, originando sintomas como a insónia, a fadiga, perturbações do apetite, diminuição do desejo sexual, ansiedade ou afetar-nos psiquicamente, interferindo com a capacidade de pensarmos com clareza, estarmos atentos e recordarmos, levando-nos a tomar decisões inadequadas. Também pode afetar-nos emocionalmente, causando-nos sentimentos de tristeza, desespero, culpa, inutilidade e apatia e desregular-nos comportamentalmente, conduzindo-nos ao abuso de álcool ou outras drogas, tentativas de suicídio, e outros comportamentos antissociais e auto-destrutivos. Pode ainda afetar as relações interpessoais, sociais e familiares, conduzindo à agressão, retraimento e perturbações no relacionamento do casal e familiar.

Existem essencialmente três formas de depressão: a unipolar em que apenas um dos extremos do continuum do humor se encontra afetado, no sentido da depressão, a doença bipolar, antigamente conhecida como maníaco-depressiva, que leva o indivíduo a oscilar periodicamente entre o polo da depressão e da mania e a distimia, geralmente mais ligeira que nos casos anteriores, mas mais crónica.

Estar em sofrimento. Os comportamentos e humor das pessoas deprimidas afetam toda a família: a irritabilidade que despoleta conflitos e altera a dinâmica familiar, os padrões de pensamento pessimista que contaminam todos, a não participação nas tarefas e ações mais banais da família, que gera toda uma panóplia de sentimentos de rejeição.

Contudo, as famílias são os melhores cuidadores para estas pessoas, podendo influenciar decisivamente a cura ou o aparecimento de recaídas. Os familiares destas pessoas são elementos cruciais para um diagnóstico precoce desta afeção. Muitas vezes o próprio não reconhece determinados sinais como sintomas depressivos atribuindo- os a outras razões relacionados com a idade, o dia-a-dia ou características de personalidade. Por outro lado o meio familiar contribui de forma importante para a atmosfera emocional em que crescemos, e como tal pode tornar-se, ou não, num fator de recuperação.

Tratamentos. Muitas vezes é prescrita medicação e a adesão à mesma, bem como a eficácia na sua toma, pode depender do apoio que o indivíduo deprimido sentir no seu ambiente familiar. Se os parentes não compreenderem ou aceitarem a necessidade do tratamento, quer ele seja medicamentoso ou psicoterapêutico, os resultados podem ser prejudicados reforçando a dificuldade que o paciente tem em cumprir tarefas ou sentir motivação externa no sentido da sua cura.

Por sua vez, a participação da família nas sessões de psicoterapia pode ser muito importante, nomeadamente quando existam crianças pequenas ou adolescentes envolvidos, na medida em que os elementos da família não estão imunes ao negativismo, fragilidade e falta de esperança que caracterizam o meio familiar em que existe uma pessoa com depressão.

Assim, e de uma forma preventiva, deve ser dado espaço para que estes elementos possam encontrar respostas sobre a forma como lidar como elemento deprimido e dar largas aos sentimentos, como a raiva a culpa ou mesmo o desejo de “mudar de família”. É também uma oportunidade para que os familiares, com o apoio do psicólogo, possam criar alguma rotatividade nos cuidados à pessoa com depressão, nomeadamente nas fases mais agudas. É frequente os cônjuges sentirem-se alienados da relação e as crianças sentirem-se culpadas, ressentidas e com comportamentos estranhos, por exemplo na escola.

Recursos individuais. A medicação e a psicoterapia são indubitavelmente necessárias como formas de tratamento e os medicamentos atualmente disponíveis têm um número significativamente menor de efeitos secundários do que aqueles que eram prescritos há quatro ou cinco décadas atrás. Também tem sido alargado o leque de terapias breves eficazes no tratamento da depressão: da psicoterapia cognitiva comportamental à terapia familiar, passando pelo uso de técnicas específicas como a hipnose ou o EMDR (Eye Movement Dessensitation Reprogramation), as possibilidades destas pessoas se sentirem rapidamente capazes de reingressarem na vida ativa com prazer e motivação são cada vez maiores.

Contudo, existem uma variedade de recursos que devemos possuir e aprender a por em prática como forma de evitar a depressão, dos quais talvez o mais importante seja o de reconhecer e tolerar a ambiguidade. Nada ou quase nada é branco ou preto na nossa vida. A capacidade de lidar com a incerteza e de abraçar um grande número de possibilidades evitando a procura da solução única que, porque funcionou no passado tem de funcionar agora, pode proteger-nos de reações de impotência e desespero.

O pensamento crítico perante o que nos rodeia é crucial para vencer a depressão. A capacidade de julgarmos criticamente as nossas ações aceitando a responsabilidade das mesmas na medida certa, colocando em nós e não no exterior a capacidade e motivação para a mudança, permite-nos sermos “senhores de nós”, ultrapassando sentimentos de incapacidade ou inutilidade.

Por fim, embora muitos outros recursos fiquem por nomear, a capacidade de estabelecer objetivos parcelares — face ao grande objetivo — e de reconhecermos as características inerentes aos mesmos é uma ajuda preciosa para que cada vez mais nos sintamos capazes. Em última análise, cultivar o relacionamento saudável com os outros, começando pela nossa família, tornando possível expressarmo-nos livremente, sem rancor mas com vontade de nos darmos a conhecer, procurando entender os outros, é seguramente uma forma de prevenir depressões.

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Sou Tímido

A timidez é uma forma ligeira de fobia social e traduz-se na dificuldade de adaptação a novas situações sociais.

Corar, gaguejar ou sentir que faltam recursos para lidar com determinadas situações são sintomas comuns da timidez. Parece que o corpo trai a mente e mostra a todos o que implicou tanto esforço a esconder, ou seja, a incapacidade em lidar com terceiros.

O que é? Uma pessoa tímida tem dificuldade em afirmar as suas necessidades, deixa-se ultrapassar na fila do supermercado sem reclamar, não consegue tomar a palavra em reuniões e costuma isolar- se a um canto em eventos sociais. A timidez é uma forma ligeira de fobia social, uma perturbação bastante mais grave que pode ser paralisante na vida de uma pessoa e deve ser tratada antes de conduzir ao isolamento e à depressão.

Um tímido é uma pessoa que demora mais tempo do que as outras a adaptar-se a novas situações sociais, que desencadeiam nele uma ansiedade forte e menos controlável do que na maioria das pessoas.

Tem geralmente uma imagem negativa de si mesmo e apresenta autoestima fraca. Não crê nas suas capacidades, o que resulta na falta de autoconfiança. Os mais tímidos passam a vida a adiar o cumprimento dos seus sonhos e a arrependerem-se amargamente dessa demora. Incapazes de dar o primeiro passo, não conseguem chegar aos outros, ficando sempre à espera que alguém dê o primeiro passo na sua direção.

Infância fragilizada. Uma leitura possível da timidez reporta- nos à intolerância perante a incapacidade de ser bem sucedido. É comum os tímidos não tomarem iniciativas com receio de estragarem tudo. Têm em si urna ansiedade antecipatória negativa, o que apenas lhes permite antever cenários extremamente derrotistas. Para eles, a critica é sinónimo de rejeição. E se as suas ideias são reprovadas, tal é sentido como humilhação. Estes sentimentos só vêm reforçar ainda mais a certeza de que não dar nas vistas é a melhor e mais saudável atitude. Outra explicação para este fenómeno remete para a infância. Por exemplo, uma criança que cresceu num ambiente familiar demasiado protegido, onde se sentiu sufocada ou excluída num ambiente demasiado adulto, ou ainda urna criança com falta de afecto ou compreensão que sofreu conflitos familiares, é uma boa candidata a comportar-se de forma tímida. Também o falhanço escolar e as frequentes mudanças de escola são fatores que não ajudam.

Falta de segurança. Geralmente, a timidez traduz-se por uma atitude receosa, urna perturbação excessiva e uma falta de segurança no comportamento perante terceiros. Mas pode também esconder-se por trás de um comportamento agressivo, que denota, muito simplesmente, ausência de autoconfiança.

As manifestações são simultaneamente fisiológicas e psicológicas. Entre as primeiras, contam-se transpirar excessivamente, sentir falta de ar, rubor ou palidez acentuados, gaguejar e alterações da voz (que se torna praticamente inaudível ou ininteligível), rigidez muscular e tremores. No plano psicológico destacam-se o sentimento de paralisia (que torna impossível a mais pequena reação) e atenção demasiado centrada no objecto do medo (neste caso, as outras pessoas).

Mas a timidez pode e deve ser encarada como uma perceção mental distorcida que só faz sentido em função da presença do outro. Ninguém é tímido sozinho! Daí que outra característica dos tímidos passe por pensarem que estão a ser constantemente observados ou julgados de forma negativa, desenvolvendo, assim, uma sensibilidade especial para qualquer tipo de crítica ou comentário sobre a sua aparência e conduta.

Acabar com a timidez. Ninguém é tímido na sua casa, consigo mesmo, no seu próprio meio, com a sua família mais próxima. A timidez desenvolve-se quando essa mesma pessoa ultrapassa os limites da sua intimidade e se envolve em situações desconhecidas e novas relações sociais. A insegurança e o mal-estar que assaltam o tímido manifestam-se unicamente quando se vê rodeado de estranhos. Para ele é muito difícil deixar de pensar em si mesmo. Leva-se “demasiado a sério”, pelo que se torna muito difícil concentrar-se em qualquer outra atividade. Não tira proveito de um jantar ou de uma festa, por exemplo, pois está constantemente preocupado com o que os outros estão a pensar dele. Também tem sérias dificuldades na esfera profissional, uma vez que se encontra mais preocupado em não destoar do que a brilhar.

No comportamento generalizado que todos temos de procura de aprovação — caracterizado pelas tentativas de causar boa impressão nos outros —, os tímidos não se sentem merecedores dessa aprovação e os seus esforços vão apenas no sentido de diminuir a desaprovação. A pressão social repercute-se especialmente sobre os tímidos que têm um baixo conceito de si mesmos e que consideram de forma muito modesta as suas capacidades.

Existe tratamento? A terapia cognitivo-comportamental é o tratamento preferencial para estas situações. Podem ser utilizados psicofármacos associados, especialmente quando a ansiedade ou os sintomas fisiológicos são muito intensos ou existem outras patologias associadas. Esta forma de terapia ajuda a despistar complexos, frustrações e cognições distorcidas da realidade. Adaptada a todas as idades, parece ser muito eficaz, pois permite afrontar progressivamente as situações ameaçadoras. A tónica é posta nas causas atuais do comportamento problemático e menos nas causas inconscientes.

Utilizam-se, para isso, técnicas de controlo da ansiedade, como relaxamento e controlo da respiração, treino de competências sociais, técnicas para corrigir pensamentos disfuncionais, outras inseridas num processo psicoterapêutico, geralmente de curta duração.

A prática de uma atividade desportiva é um meio de integração num grupo, onde se promovem trocas e companheirismos, que ajuda a lutar contra o isolamento em qualquer idade.

Virtudes e defeitos. A timidez não é necessariamente um inibi- dor da expressão de personalidade. Numerosos comediantes, cantores, personalidades públicas provam-no aparecendo em cena para melhor ultrapassar urna timidez que os angustia. Exprimir-se sem receios é aceitar o risco de sermos postos em questão, de enfrentarmos a desaprovação e de nos mostramos tal qual somos, com virtudes e defeitos. Mas é também partilhar e enriquecermo-nos no contacto com o outro: sermos reconhecidos como uma personalidade, como um todo que vale a pena conhecer.

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Solteiros e Felizes

Da mesma forma que a sociedade mudou para acolher os solteiros por opção, também a nossa cabeça tem que mudar, especialmente se ser solteiro resulta do fim de um casamento em que predominou a união e a não individualidade. Estar solteiro pode ser uma experiência produtiva e feliz, se essa for uma escolha consciente.

Três rostos. Existem pelo menos três formas de encarar a condição de solteiro. A primeira engloba pessoas que se sentem envergonhadas por terem de admitir que continuam sozinhas. Mostram-se desesperadas e anseiam por um companheiro. São facilmente aterrorizadas pelo medo de não terem ninguém que as ame, o que as leva frequentemente à depressão e à insatisfação, distanciando-as cada vez mais de um relacionamento.

Outras apregoam os benefícios de viverem sozinhas, mas não dispensam uma noitada, uma saída com amigos. Muitas delas estão a mentir a si próprias e aos outros, porque na realidade sentem-se sozinhas e percebem que estão tão desesperadas quanto as que sentem vergonha por estarem sozinhas. Para algumas destas pessoas a necessidade de um companheiro pode esconder uma dificuldade de relacionamento consigo próprias. Sentem esta fase como uma interrupção numa área da vida que não devia parar. O medo de ficarem sozinhas leva-as a passarem por relacionamentos desagradáveis. E ao rejeitarem ficarem sós, estas pessoas defendem-se da confrontação consigo mesmas, com as suas qualidades e insuficiências.

Por último, existem pessoas que, mesmo não sendo solteiras por opção, sentem-se felizes e sabem lidar com esse estado saboreando cada minuto da vida. São a melhor prova de que ser solteiro não é sinónimo de solidão. Mas porque viver a sós pode não ser voluntário, há que aprender a ser solteiro. Por vezes as pessoas que se encontram novamente solteiras após um divórcio sentem um grande alívio e rapidamente desfrutam das vantagens dessa situação. São geralmente casos de pessoas separadas cujos casamentos foram de tal maneira absorventes quase constituíram verdadeiras barreiras à realização pessoal. Tal não significa que os casamentos sejam por definição um impedimento à realização pessoal ou que os solteiros sejam mais felizes que os casados, pois nenhuma destas situações é perfeita. Estar bem connosco enquanto solteiros envolve três estádios básicos.

Autossuficiência. Ter prazer em estar solteiro envolve a capacidade de experimentar tudo através de nós próprios, em vez de o fazer através do parceiro. Significa cuidarmos de nós, mas também compreendermos a nossa personalidade. É neste trabalho de introspeção a sós que melhor percebemos e podemos explorar as nossas necessidades, gostos e objetivos individuais.

Ser solteiro pode ser visto como um estado que permite o crescimento pessoal, especialmente entre a adolescência e o casamento. Ao contrário do que geralmente acontece, ser solteiro podia até ser reconhecido como um estádio de maturação do indivíduo e não um motivo de pena ou estranheza, até porque permite aprender os princípios da responsabilidade e da autossuficiência, características difíceis de concretizar quando estamos envolvidos numa relação entre pais e filhos ou marido e mulher.

Infelizmente, muitas pessoas não vivem esta importante fase. Saem de casa dos seus pais diretamente para a sua família recém-constituída sem sequer considerarem que podiam ser felizes como solteiros por algum tempo.

Viver objetivos. Quando se casam, muitas pessoas deixam para trás muitos objetivos por cumprir e isso pode prejudicar o casamento. Daí que muitas pessoas divorciadas ou viúvas aproveitem a sua nova condição para viverem os seus sonhos: viver sós, aprender a conhecer os ritmos próprios, diversificar e aumentar o número de namoros, conhecer outro tipo de amigos e interesses, aprender a viver e a cuidar de si.

Antes de nos envolvermos numa relação de longo termo ou num casamento, geralmente preocupamo-nos em conhecer o outro, do que gosta, como é, que características nos atraem ou afastam. Se isso é importante quanto a terceiros, também o deveria ser em relação a nós próprios. Ser solteiro é especialmente indicado para nos envolvermos no conhecimento de nós mesmos, eventualmente colocando-nos as mesmas questões que colocaríamos quando conhecemos outras pessoas.

Muitos de nós fomos de tal forma influenciados pela família, pelos amigos e pelas normas sociais que que muitas vezes temos dificuldade em aceitarmo-nos e conhecermo-nos tal como somos.

Gerir o tempo. Se o estado de solteiro é consequência de uma relação desfeita, o tempo extra que advém pode ter de se tornar alvo de uma verdadeira aprendizagem. Se antes da separação, especialmente no caso das mulheres, o tempo livre entre a casa, o emprego e os filhos era quase nulo, agora pode não ser. E a tarefa por vezes mais difícil de encarar nesta nova condição é encontrar o que fazer nas horas livres. Saber tirar partido de ser solteiro significa aproveitar a liberdade para criar um estilo de vida excitante e recompensador. E vivê-lo sem a preocupação de não ser exatamente o que o outro gostaria. As possibilidades estão apenas limitadas pela imaginação e determinação.

Com a liberdade de gerir o tempo vem a liberdade de ação. Mesmo que ser solteiro tenha inconvenientes em termos financeiros, pelo menos podemos sempre adaptar os nossos sonhos ao tamanho do orçamento.

 

 

 

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Terapia de Casal

Ao longo da sua história, todos os casais passam por dificuldades no seu relacionamento e as causas nem sempre se relacionam com fenómenos “estranhos”. Podem resultar de crises naturais do desenvolvimento da relação, de circunstâncias externas como o desemprego, doença de um familiar ou mesmo de fatores de personalidade de ambos os cônjuges. As pessoas procuram a terapia de casal por muitas razões e cada casal é diferente, mas as queixas mais frequentes são falta de comunicação, discussões constantes, necessidades emocionais que não são atendidas, problemas financeiros e conflitos com as famílias de origem. Estes são problemas presentes em quase todas as relações e o pedido de ajuda surge como o resultado do aumento da frustração e desapontamento que progressivamente se vai instalando. Outras causas prendem-se com situações de infidelidade, sensação de perda de afeto, carinho ou um acontecimento traumático, como, por exemplo, a morte de um filho.

Influências. Não é novidade dizer que o casamento, a relação a dois, constitui uma realidade complexa e desafiadora, compensadora e dolorosa. A natureza das relações acaba por ser fruto da forma como o casal lida com os diversos fatores que a influenciam. Por exemplo, os casais não tradicionais (sem filhos ou com elementos do mesmo sexo) têm que se disponibilizar para ultrapassar obstáculos adicionais para que a relação funcione.

A sociedade influencia a forma como os relacionamentos se vão estruturando e estes acabam por sofrer o impacto das mudanças ao nível social. Por exemplo, no contexto atual e na sociedade ocidental os casais constituem-se e vivem os seus relacionamentos esperando uma intimidade emocional e sexual intensa, igualdade de sexos e tolerância em relação à diferença. Se recuarmos algumas dezenas de anos, tal seria não só impossível como estranho. Contudo, constatamos alguma contradição entre esta liberdade de escolha e o número de divórcios e muitas vezes perguntamo-nos porquê?

Na realidade, as mudanças que têm acontecido na sociedade, mesmo as positivas, ocorreram a um ritmo que se tornou perturbador, na medida em que as pessoas levam tempo a integrá-las no seu modo de pensar e agir, gerando-se assim um conflito entre a tradição c a necessidade de integração face às regras da sociedade. Se em teoria gostamos de poder ser livres e escolher o nosso companheiro em função da existência ou não de um laço amoroso, a verdade é que temos dificuldade em transformar em atos o respeito pelo autodeterminismo sem nos sentirmos menos família, pois, afinal, o modelo que ainda está fortemente enraizado nas nossas mentes diz-nos que um casal tem prazer em partilhar tudo.

Por sua vez, as importantes alterações económicas que aconteceram na sociedade e que levam ao desemprego, à dificuldade de arranjar o primeiro emprego ou às reformas antecipadas exigem que o casal se adapte àquilo que são desvios à evolução normal do seu ciclo de vida. Encontrar empregos adequados e casas compatíveis é difícil para os jovens, que permanecem em casa dos pais quando deveriam procurar desenvolver os seus relacionamentos. Os seus pais podem ambicionar a sua liberdade ou estar a atravessar mudanças importantes na sua vida e têm que partilhar esses momentos num regime alargado, quando era suposto voltarem a ser apenas dois. Também os media promovem o consumismo e a ideia de que o casamento e a vida em família é relativamente feliz e livre de conflitos, criando uma enorme pressão devido a expectativas que se revelam inatingíveis. Como resultado, o stress emocional e económico acaba por cobrar a sua parte na relação.

Adicionalmente, cada um dos elementos do casal pode estar a atravessar vivências individuais complexas no seu crescimento psicológico e emocional, o que nem sempre encaixa à primeira na vida do casal.

O que é? Antes de mais, importa dizer que não existe um modelo ideal e universal para uma relação. A “boa relação” é aquela que funciona para os dois elementos do casal e lhes permite alcançar os seus objetivos, individuais e de conjunto. Se isso não funciona, não significa necessariamente que o casal necessite de terapia.

Todas as relações passam por momentos difíceis e as fases de crise são também momentos privilegiados para o crescimento e introdução de novas regras de funcionamento. No entanto, um ou os dois elementos do casal podem sentir- se continuamente insatisfeitos, frustrados, incompreendidos e se não foi possível resolver os assuntos de forma aceitável para ambos, então é altura de pedir ajuda profissional.

A terapia de casal é um meio de resolver problemas e conflitos que os casais não conseguem trabalhar de forma eficaz entre si. Envolve os dois elementos na presença de um psicoterapeuta com treino específico para conversar com eles os seus pensamentos, sentimentos e emoções acerca da relação. O objetivo é permitir que cada um consiga um melhor entendimento de si e do seu parceiro, para decidirem se precisam ou querem fazer mudanças e, se assim for, ajudá-los a estabelecer e atingir objetivos.

Esta forma de terapia envolve apenas o casal. Podem discutir-se situações relacionadas com os filhos, mas sem a presença deles. Pretende-se que o casal possa desfrutar de um espaço e de um tempo para cuidar de si, longe das interferências dos filhos ou das famílias de origem. A terapia que envolve pais e filhos desenrola-se de forma diferente e geralmente é conhecida por terapia familiar.

Mediador. O papel do terapeuta é ouvir os intervenientes e ajudá-los a identificar e clarificar áreas problema. Começa por perceber como cada um vê o problema, qual a história do relacionamento e os aspectos relevantes da história com as famílias de origem. Após a discussão e avaliação da situação, é proposto um plano terapêutico. O terapeuta actua quase como um mediador, tentando, por exemplo, clarificar mal-entendidos na comunicação, promovendo novas formas de olhar para situações aparentemente sem saída.

Novas perspetivas resultam numa mudança de sentimentos e comportamentos, o que permite lidar com as dificuldades e criar disponibilidade para novas formas de estar.

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Amigos de Infância

Falar de amigos de infância é falar de um laço único que resiste ao tempo e à distância. Quantas vezes não nos encontramos com amigos de infância apenas para recordar aventuras inconfessáveis, como quando, por exemplo, conspirámos para ir à discoteca, pregar uma partida à professora de quem não gostávamos… Passaram-se só, 30 anos, mas, no entanto, estas memórias continuam tão vivas e emocionantes como se tivessem acontecido ontem.

Entre amigos de infância é frequente associar memórias a emoções fortes. Na verdade, trata-se de relações cimentadas durante a primeira infância, fortemente ancoradas na nossa memória e daí serem lembradas de forma tão intensa.

Na infância. A infância é um momento privilegiado para fazer amigos e as nossas primeiras e verdadeiras amizades iniciam-se entre os três e os seis anos de idade. Mas por que razão escolhemos os amigos que escolhemos? Na verdade, a seleção do nosso leque de amizades não é fruto do acaso. Ao eleger um amigo, a criança assume- se e inicia o seu processo de autonomização da família, com a qual não tem uma relação tão globalizante como a que tem com um amigo especial. No fundo, é ele o companheiro privilegiado de jogos e a melhor proteção para iniciar outras relações afetivas. Esta amizade vai enriquecer a sua visão do mundo e, muitas vezes, imprimir a coragem necessária para arriscar um pouco mais na descoberta do que está à sua volta. Mas não só. Nestes relacionamentos intensos, as crianças testam a capacidade de desempenhar papéis da vida de adulto, como o amor, o ciúme, a traição e o perdão. Preparam-se, assim, para enfrentar o longo processo que os aguarda de crescimento e interação com os outros. O período da adolescência faz-nos valorizar ainda mais esta relação de amizade. Num momento em que muitos aspetos da nossa vida parecem ter entrado em mudança e em que as crises de crescimento são dolorosas, este amigo é uma espécie de porto seguro.

Quantas vezes, depois de uma discussão em família, por exemplo, reconsiderámos a nossa posição conversando, barafustando e deixando sair toda a raiva com esse amigo? O conhecimento desenvolvido ao longo dos anos permite- nos confidenciar as fantasias mais estranhas e os desejos mais profundos.

Amizade ou amor? Na idade adulta é frequente elegermos o nosso amigo de infância para desenvolver projetos profissionais, justamente por se tratar de uma pessoa em quem confiamos incondicionalmente. De um modo geral são experiências bem conseguidas e não é raro encontrar empresas de sucesso que começaram baseadas nesta forma de amizade.

Se o sucesso profissional é frequente, o mesmo não se pode dizer no que respeita a relações amorosas. O amigo de infância pode ser do sexo oposto e a tentação de ir mais além neste relacionamento pode acontecer. Pode mesmo pôr- se a hipótese de casamento. Geralmente não funciona. À partida, a confiança e o conhecimento do outro seriam mais-valias para que tudo desse certo, mas a rutura que geralmente acontece advém precisamente da falta de novidade junto de alguém que conhecemos bem, muitas vezes em facetas que podemos aceitar enquanto amigos mas que temos dificuldade em integrar numa vida a dois. O relacionamento amoroso tem melhor prognóstico quando é assente numa boa amizade, mas uma grande proximidade prévia por vezes é de mais.

Alimentar a amizade. “Para além do tempo e da distância” poderia ser um lema associado às amizades de infância, mas nem sempre o ditado se confirma. Se queremos que a amizade perdure, temos que saber alimentá-la para que consiga sobreviver a períodos de separação. Existem momentos mais ou menos longos, mais ou menos definitivos, em que o nosso melhor amigo é posto “fora de jogo”. A intensidade e especificidade desta relação pode ser abalada pela complexa rede de relações que vamos estabelecendo ao longo da vida. E a promoção social é frequentemente a razão de uma rutura. A dificuldade de conjugar outras amizades, a alteração de valores e modos de estar resultam num afastamento definitivo.

Contudo, nalguns casos esta amizade mantém-se clandestina, resistindo num espaço de intimidade que é só nosso e que não partilhamos ou deixamos invadir por ninguém, nem mesmo pelo nosso companheiro. É como se fosse uma bolsa de oxigénio que nos permite retemperar forças, encontrar outras formas de encarar a vida e da qual não abdicamos.

Há quanto tempo! Outra característica das amizades de infância é resistirem à distância e ao tempo. Acontece perdermos o rasto do melhor amigo por dez anos, mas um novo encontro tem a atualidade de “como se nos tivéssemos visto ontem”. Paradoxalmente, tal significa que a relação evolui. É uma relação inteligente que mantém um forte laço afetivo e nos permite estar próximo do outro. É suficientemente flexível e curiosa para acolhermos as diferenças do outro como ponto de interesse que vale a pena descobrir.

A importância de um amigo de infância e de uma rede de amigos tem sido demonstrada em diversos estudos e traduz-se por melhor saúde física e melhor bem-estar psicológico. O que não é de estranhar, já que são estes amigos que nos dão suporte emocional, conselhos e ajuda prática, aliviando muito o stress da nossa vida de cada dia.

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Amor Platónico

O amor platónico ou o amor idealizado deve o seu nome a Platão (350 a.C.), filósofo grego que acreditava na existência de dois mundos: o das ideias, onde tudo era perfeito e eterno, e o mundo real, finito e imperfeito, cópia mal acabada do mundo ideal.

Nesse sentido, viver um amor platónico é viver em dois mundos simultaneamente: um onde estamos sozinhos e outro onde namoramos, somos felizes e realizados com a pessoa perfeita que é objeto do nosso amor.

Amor impossível. Este tipo de amor baseado no impossível envolve a mistificação do ser amado, que é geralmente colocado numa posição inatingível. Ocorre muito frequentemente durante a adolescência e em jovens adultos, principalmente em pessoas mais tímidas, introvertidas e que sentem mais dificuldade em aproximar-se de quem amam. A insegurança, imaturidade e inibição emocional estão muitas vezes na origem deste comportamento. A forte idealização do objeto amado gera o medo de não atender aos seus anseios, o que contribui para amar à distância e impede viver a experiência não só de amar mas também de nos sentirmos amados, não só de cuidarmos e nos preocuparmos mas também de nos sentirmos acolhidos e amparados. Esta troca de experiências emocionais é que permite o sentimento de que amar vale a pena, com a vantagem acrescida de poder ainda ajudar a superar conflitos e dificuldades do quotidiano.

Amar por medo. Muitas vezes as pessoas têm um amor platónico por medo de sofrer. Isto porque preferem viver um amor que nunca irá realizar-se do que lidar com os eventuais desapontamentos e tristezas inerentes à relação. Nada disto é necessariamente mau ou errado, desde que saibamos racionalmente que aquilo que julgamos ter não existe, até porque o outro desconhece totalmente os sentimentos que alguém nutre por ele.

A maioria das pessoas fantasia acerca das relações amorosas: “Um dia encontrarei o par ideal, que será capaz de me compreender, sem discussões, onde a compatibilidade será perfeita.

A magia do amor estará sempre presente e a paixão será eterna.” A realidade das relações amoro­sas, no entanto, é muito diferente. Todo o processo de namoro é uma situação tremendamente arrisca­da. Somos e sentimo-nos postos à prova, principalmente se aceitar­mos darmo-nos a conhecer tal co­mo somos, o que significa arriscar sermos amados, mas também re­jeitados. E a rejeição não é fácil de aceitar.

Uma relação amorosa é uma das melhores oportunidades de cres­cimento pessoal. E não há cres­cimento que não implique sofri­mento. Todavia, também inclui uma felicidade enorme. Tal co­mo noutras situações da nossa vi­da, aquilo que obtemos depende da vontade de lutar por essa relação, arriscando-nos a deixar o nosso “lugar seguro”. Geralmente, antes do fim do primeiro ano de relacionamento, os

elementos do casal começam a experimentar as primeiras discussões, desentendimentos e dificuldades. É normal. Resulta da necessidade de estabelecer regras de conduta na relação. A cultura familiar de cada elemento do casal permite-lhe crescer com regras, que são forçosamente diferentes do outro. Mas estas funcionam a um nível inconsciente, e muitas vezes não nos damos conta que estamos a tentar impô- las ao outro.

Herança cultural. Recordo a este propósito um casal constituído por um português e uma alemã, onde o trabalho inicial da terapia consistiu em perceber como a “importância de dormir com a roupa da cama entalada ou solta” não resultava da má vontade do outro, mas de uma herança cultural (para uma alemã, que geralmente dorme com um edredão não fazia sentido dormir presa pela roupa. Mas muitos de nós recorda como a mãe, na hora de irmos dormir, nos vinha aconchegar na cama, entalando a roupa debaixo do colchão).

Sem nos darmos conta, mantemo-nos fortemente leais à cultura e crenças da nossa família de origem e, geralmente, cada um acredita firmemente que a sua abordagem é a mais correta.

Este é um período importante na construção de uma relação. É frustrante e doloroso. Obriga- nos a fazer cedências, a olhar para o outro, não como o ser perfeito que imaginámos, mas alguém que “não nasceu ontem à espera de ser moldado pelo outro” e que tem uma história.

Arriscar e crescer. Todas as relações começam por ser platónicas. Todos os namorados começam por ser idealizados, imaculados. Mas tal como não podemos permanecer eternos adolescentes, necessitamos de nos envolver com o outro para podermos crescer.

Crescer também é arriscar. Se estivermos dispostos a arriscar, podemos crescer e tirar o prazer de desfrutar de uma relação amorosa dinâmica e partilhada.