ChatGPT Image 21_08_2026, 22_28_50

Ser irmãos não significa viver a mesma família

Dois irmãos podem crescer na mesma casa, ter os mesmos pais e guardar histórias muito diferentes sobre a família onde cresceram. Às vezes, aquilo que ainda hoje acontece entre eles tem menos a ver com o presente do que parece

A mesma família, experiências diferentes

Há uma coisa que me acontece com frequência em consulta individual: alguém começa por falar de uma dificuldade que, à primeira vista, parece não ter grande relação com a razão pela qual procurou ajuda. Pode estar a falar de ansiedade, de uma relação amorosa, de dificuldade em pôr limites ou daquela sensação persistente de ter de dar conta de tudo e, a determinada altura, aparece um irmão. Às vezes aparece quase de passagem: “Com o meu irmão sempre foi assim.” E, de repente, aquilo que parecia uma característica da pessoa começa a ganhar uma história.

É curioso como muitas vezes dizemos que dois irmãos “cresceram juntos”, como se isso significasse que cresceram na mesma família. Tinham os mesmos pais, a mesma casa, muitas vezes os mesmos avós, as mesmas férias e algumas memórias comuns. Mas não tiveram necessariamente a mesma experiência emocional daquela família. Um pode ter conhecido os pais numa fase em que estavam tranquilos e disponíveis; o outro pode ter nascido quando já havia dificuldades no casamento, problemas financeiros ou uma doença na família. Um pode ter sido muito esperado; outro pode ter chegado numa altura em que os pais estavam exaustos. E, mesmo quando as circunstâncias parecem iguais, cada criança chega à família com um temperamento, uma sensibilidade e uma maneira própria de interpretar aquilo que vive.

Os lugares que vamos ocupando na família

Lembro-me de uma mulher que acompanhei individualmente e cuja história ilustra bem esta diferença. Tinha pouco mais de quarenta anos e procurou ajuda porque se sentia constantemente responsável por toda a gente. Era muito competente, organizada e aparentemente autónoma, mas vivia com uma sensação persistente de que, se não estivesse atenta, alguma coisa iria correr mal. Tinha dificuldade em descansar, sentia culpa quando dizia que não e, sobretudo, tinha uma relação muito ambivalente com o irmão mais velho.

Dizia que o amava e que, se ele precisasse, estaria lá imediatamente. Ao mesmo tempo, conseguia ficar furiosa com ele por coisas que, quando contava a história, pareciam desproporcionais.

Durante algum tempo, a narrativa era relativamente simples: ela era a pessoa responsável e o irmão era aquele que nunca assumia verdadeiramente as consequências das suas escolhas. Era assim que a família parecia funcionar. Quando havia um problema, ela resolvia. Quando os pais precisavam de alguma coisa, era a ela que ligavam. Quando o irmão precisava de ajuda, alguém acabava por pedir-lhe que interviesse. E ela, apesar de se queixar, raramente dizia que não.

Só que, à medida que fomos conhecendo melhor a história, essa descrição começou a deixar de ser suficiente.

O irmão tinha sido, durante muitos anos, o filho mais difícil. Tinha tido problemas na adolescência, abandonara a universidade, passara por períodos de grande instabilidade e, em determinada altura, os pais tinham ficado profundamente preocupados com ele. A minha paciente tinha sido a filha que funcionava. Não porque alguém lhe tivesse dito explicitamente que tinha de ser assim, mas porque percebeu muito cedo que, quando ela estava bem, havia uma coisa a menos para os pais resolverem.

Anos mais tarde, já adultos, os papéis pareciam continuar distribuídos da mesma maneira. Só que havia uma diferença importante: ela estava exausta de ser a pessoa responsável e começava a sentir que o irmão tinha tido uma espécie de liberdade que ela nunca tivera.

Foi aí que surgiu uma coisa que me pareceu clinicamente muito mais interessante do que decidir qual dos dois tinha recebido um tratamento injusto.

Ela não queria apenas que o irmão assumisse mais responsabilidades. Queria, talvez pela primeira vez, deixar de ocupar aquele lugar sem sentir que estava a abandonar a família.

E o irmão, pelo que conseguíamos reconstruir da história, não tinha vivido a mesma família que ela. Ele tinha crescido com a sensação de ser aquele que decepcionava os pais, o que precisava de ser corrigido, o que nunca conseguia corresponder. Aquilo que para ela tinha sido uma infância em que aprendera a ser competente, para ele tinha sido uma infância em que aprendera que dificilmente conseguiria fazer alguma coisa suficientemente bem.

Não era preciso escolher quem tinha razão. As duas experiências podiam ser verdadeiras.

Uma consulta individual pode ter uma leitura sistémica

É uma das razões pelas quais, numa consulta individual, não me interessa olhar apenas para aquilo que a pessoa faz hoje. Interessa-me perceber em que sistema relacional essa forma de funcionar se tornou necessária.

Não é preciso trazer toda a família para a consulta para fazer uma leitura sistémica. A pessoa que está sentada à nossa frente traz consigo as relações que a constituíram, os lugares que ocupou, as expectativas que aprendeu a antecipar, as alianças, os conflitos e, muitas vezes, aquilo que ninguém chegou a dizer explicitamente.

É também por isso que a relação entre irmãos pode ser tão persistente. Podemos ter quarenta anos e continuar a sentir qualquer coisa muito semelhante ao que sentíamos aos dez quando aquele irmão entra numa determinada posição. Ele nem sequer precisa de fazer exactamente aquilo que fazia naquela altura. Basta um comentário, uma maneira de falar, uma decisão tomada sem nos consultar. De repente, estamos irritados de uma forma que parece excessiva para o que acabou de acontecer.

Às vezes pergunto: “O que é que ele fez agora?” E depois: “E o que é que isto lhe faz lembrar?”

São perguntas diferentes.

A primeira procura compreender o acontecimento.

A segunda procura compreender a história que aquele acontecimento acordou.

O presente pode acordar uma experiência antiga

Foi precisamente isso que aconteceu com esta paciente. Uma discussão aparentemente banal sobre os cuidados aos pais deixou-a num estado de enorme activação emocional. Estava convencida de que a raiva vinha da injustiça daquela situação. Mas, quando começámos a aproximar-nos da experiência, apareceu algo mais antigo: a sensação de que, mais uma vez, esperavam dela que resolvesse tudo enquanto o irmão podia simplesmente aparecer quando lhe apetecesse.

A emoção era muito maior do que a situação presente parecia justificar.

E aqui o trabalho clínico mudou de natureza.

Já não estávamos apenas a tentar ajudá-la a estabelecer limites com o irmão. Precisávamos de compreender porque é que estabelecer um limite lhe provocava tanta culpa e porque é que, sempre que tentava fazê-lo, surgia quase imediatamente o medo de estar a ser egoísta ou de estar a abandonar os pais.

A memória também pode continuar presente no corpo

É também aqui que o EMDR pode ter um lugar numa intervenção individual deste género. Não para tratar “a relação entre irmãos”, nem para apagar aquilo que aconteceu, mas para trabalhar experiências específicas que continuam emocionalmente activas e que parecem estar a organizar as reacções actuais.

Uma memória em que percebeu que os pais estavam muito preocupados com o irmão e que ela decidiu não lhes dar mais problemas. Outra em que ouviu uma discussão familiar e ficou com a sensação de que tinha de manter tudo sob controlo. Outra, talvez mais difícil, em que tentou expressar uma necessidade e percebeu que naquele momento não havia espaço para ela.

São acontecimentos que, vistos de fora, podem parecer pequenos perante outras experiências claramente traumáticas. Mas não é apenas o acontecimento que interessa. É aquilo que ficou associado a ele: “Tenho de tratar de tudo”, “não posso dar trabalho”, “se eu não estiver atenta, alguma coisa corre mal”, “as necessidades dos outros vêm primeiro”.

Quando essas experiências continuam insuficientemente processadas, não ficam necessariamente presentes como uma recordação consciente. Podem aparecer como uma reacção automática no presente. A pessoa sabe que já não tem dez anos. Sabe que os pais são adultos e que o irmão é responsável pela própria vida. Sabe, racionalmente, que pode dizer não. Mas, perante determinada situação, o corpo reage como se estivesse novamente naquele lugar.

É importante fazer esta distinção porque, às vezes, passamos demasiado depressa da compreensão da história para o conselho: “Tem de pôr limites”, “não pode assumir as responsabilidades do irmão”, “tem de deixar que ele resolva os problemas dele”. Tudo isto pode ser verdade. Mas saber o que devemos fazer não significa necessariamente conseguir fazê-lo.

Há pessoas que sabem perfeitamente que precisam de dizer não e, ainda assim, sentem uma ansiedade enorme quando tentam. Há quem consiga estabelecer limites durante algum tempo e depois recue, tomado pela culpa. Há quem fique tão activado emocionalmente numa discussão com um irmão que já não consiga perceber o que está a acontecer naquele momento.

Nessas situações, não basta trabalhar apenas o comportamento. É preciso perceber aquilo a que o comportamento está ligado.

Os irmãos não vivem necessariamente a mesma história

E isto leva-nos novamente à questão inicial: será que os irmãos vivem a mesma família?

Provavelmente não.

Mesmo quando partilham a mesma casa, cada um constrói uma experiência própria a partir do lugar que ocupa. E esse lugar não é apenas determinado pela ordem de nascimento. Pode ser influenciado pela saúde, pelo temperamento, pelas expectativas dos pais, pela relação entre os progenitores, pelas dificuldades que a família atravessava quando cada filho nasceu, pela proximidade com um dos pais, pelas alianças que se foram formando e até por acontecimentos que um irmão viveu e o outro não.

Por isso, quando uma pessoa me diz “o meu irmão sempre foi o favorito”, não tenho grande interesse em responder se isso é objectivamente verdade. Interessa-me perceber o que significou para aquela pessoa crescer com essa percepção. Quando alguém diz “eu sempre fui o responsável”, interessa-me saber como esse lugar foi construído e o que aconteceria se deixasse de o ocupar. E quando alguém diz “ele sempre foi o problemático”, fico curiosa sobre o que essa família precisou que aquele filho representasse.

Não para encontrar culpados.

Mas porque as famílias organizam-se, muitas vezes, de formas que fazem sentido num determinado momento e que podem tornar-se difíceis de mudar mais tarde.

Talvez seja aqui que a relação entre irmãos se torne especialmente interessante. Eles são, muitas vezes, as pessoas que melhor conhecem determinadas versões de nós. Conhecem-nos antes dos casamentos, antes dos filhos, antes da profissão, antes de aprendermos a controlar aquilo que mostramos aos outros. Sabem quem éramos naquela família. E, por isso mesmo, podem tocar em lugares que outras pessoas já não conseguem alcançar.

Isso pode ser uma fonte de proximidade extraordinária.

Mas também pode ser uma fonte de conflito.

Na idade adulta, os irmãos podem passar anos sem falar sobre aquilo que viveram juntos. Até que chega um acontecimento que reabre tudo: o envelhecimento dos pais, uma doença, uma herança, uma separação, uma mudança de cidade, uma nova configuração familiar. E aquilo que parece ser uma discussão sobre o presente pode trazer consigo décadas de história.

Talvez por isso não me pareça particularmente útil pensar que o objectivo de uma relação entre irmãos é chegar ao ponto em que deixam de discutir ou passam finalmente a gostar de tudo um no outro.

Há relações entre irmãos que serão próximas. Outras serão mais distantes. Algumas precisam de limites. Outras podem ser reconstruídas.

O que me parece mais importante é que cada pessoa possa deixar de viver prisioneira do lugar que ocupou naquela família.

A minha paciente não precisava de deixar de amar o irmão para deixar de ser responsável por ele. E também não precisava de transformar o irmão no culpado pela infância que teve para poder começar a viver de outra maneira.

Talvez uma das coisas mais difíceis — e mais libertadoras — seja perceber que podemos reconhecer a nossa história sem continuarmos obrigados a repeti-la.

Ser irmãos não significa ter as mesmas memórias, sentir as mesmas coisas ou ter vivido exactamente a mesma família. Significa ter uma história que, em parte, é comum e, em parte, pertence a cada um.

E talvez crescer também seja isto: conseguir olhar para aquele irmão que conhecemos desde sempre e, pela primeira vez, perceber que ele não é apenas o irmão que tivemos.

É também a pessoa em que se tornou.

E nós já não somos apenas quem fomos naquela família.

Gemini_Generated_Image_qdgyiwqdgyiwqdgy

Famílias Recompostas: Encontrar um Lugar Numa Nova Família

Nas famílias recompostas, não basta que os adultos se amem. É preciso encontrar novos lugares, novas regras e novas formas de pertencer, sem apagar as relações que já existiam.

Há casais que chegam à consulta a dizer-me que têm um problema com os filhos.

“Não conseguimos estar de acordo sobre nada.”

“Ele acha que sou demasiado permissiva com os meus filhos.”

“Eu acho que ela não percebe que os filhos dela não são meus.”

Ou então dizem-me uma coisa que, à primeira vista, parece explicar tudo: “Damo-nos bem até começarmos a falar dos miúdos.”

E muitas vezes é mesmo aí que começam as discussões. Uma regra que um quer impor e o outro considera exagerada, uma decisão sobre as férias, o tempo que cada um passa com os filhos, o dinheiro, a relação com o outro progenitor, a organização da casa ou simplesmente a questão de quem pode decidir o quê. À primeira vista, parece que estão a discutir educação. Mas, quando começo a perceber melhor o que se passa, encontro muitas vezes uma questão bastante maior.

Quando a discussão sobre os filhos é, afinal, sobre o lugar de cada um

Porque uma família recomposta não começa do zero. Começa com pessoas que já têm uma história. Há filhos que continuam a ter dois pais, mesmo que esses pais já não vivam juntos; há adultos que iniciam uma nova relação sem deixarem de ter responsabilidades, afetos e, por vezes, conflitos ligados à relação anterior; e há alguém que entra numa família onde já existem hábitos, regras, memórias e formas de estar que foram construídos muito antes da sua chegada.

É natural, portanto, que encontrar um lugar neste cenário não seja simples. Enquanto os adultos tentam perceber como organizar a nova vida em conjunto, os filhos também estão a tentar perceber o que mudou e, sobretudo, se aquilo que tinham continua a estar seguro.

Lembro-me de casais em que uma das primeiras coisas que aparece é precisamente esta sensação: “Eu vivo aqui, participo em tudo, ajudo com os miúdos, mas parece que não tenho direito a dizer nada.” E, do outro lado: “Eu percebo que ele vive connosco, mas não consigo aceitar que decida pelos meus filhos.”

Os dois estão a falar de regras, mas eu começo a ouvir outra pergunta por baixo daquilo que estão a discutir:

“Qual é afinal o meu lugar nesta família?”

Os filhos também precisam de encontrar o seu lugar

E essa pergunta não pertence apenas aos adultos. Também pode estar presente nos filhos, embora apareça de formas muito diferentes.

Uma criança pode gostar genuinamente do novo companheiro da mãe e, ao mesmo tempo, sentir que gostar dele é uma espécie de traição ao pai. Pode ficar contente quando o pai começa uma nova relação e, ainda assim, sentir raiva quando percebe que aquela relação está realmente a acontecer. Pode até querer que os pais sejam felizes separados e continuar, em alguns momentos, a desejar que voltassem a estar juntos.

Não vejo isto necessariamente como incoerência. Vejo uma criança a tentar organizar emocionalmente uma realidade que mudou e a tentar encontrar alguma estabilidade dentro de uma situação que, para ela, tem muito menos controlo do que para os adultos.

Por isso, uma das coisas que procuro transmitir aos casais é que nem sempre é preciso apressar a ideia de que todos têm de se sentir uma família.

Uma família recomposta precisa de tempo. Não apenas para que as pessoas se habituem umas às outras, mas para que possam descobrir que relações querem construir. Há crianças que se aproximam rapidamente do novo companheiro de um dos pais e outras que mantêm alguma distância durante bastante tempo; há relações que se tornam muito próximas e outras que permanecem mais reservadas.

E isso, por si só, não significa que exista um problema.

Às vezes significa simplesmente que ainda não existe história suficiente para existir confiança.

Ter um lugar não significa ocupar o lugar de um dos pais

Esta questão torna-se particularmente delicada quando aparece a autoridade.

É compreensível que quem entra numa família queira sentir que tem algum lugar dentro de casa. Vive ali, participa nas rotinas, cuida, faz sacrifícios e, naturalmente, pode sentir que também deveria poder estabelecer regras.

Mas há uma diferença que considero muito importante:

ter um lugar na família não é o mesmo que ocupar o lugar de um dos pais.

Viver com uma criança não cria automaticamente uma relação parental. E, quando tentamos acelerar essa relação, podemos acabar por dificultar precisamente aquilo que queremos construir.

Queremos respeito antes de existir confiança. Autoridade antes de existir relação. Proximidade antes de existir uma história em comum.

Na prática, muitas vezes é preciso começar por coisas muito mais simples: estar disponível, interessar-se, partilhar algum tempo, respeitar o ritmo daquela criança, não exigir afecto e não interpretar imediatamente a distância como rejeição.

A relação pode crescer a partir daí.

Isto não significa que o novo companheiro tenha de ficar completamente à margem da vida familiar, nem que não possa colocar limites. Significa perceber que a autoridade também precisa de uma relação que a sustente e que, numa família recomposta, nem tudo precisa de acontecer ao mesmo tempo.

E o casal? Onde fica no meio de tudo isto?

Entretanto, há outra relação que pode começar a desaparecer sem que ninguém dê por isso: a do casal.

Porque uma família recomposta pode transformar rapidamente duas pessoas apaixonadas em dois gestores de uma casa. Quem vai buscar os filhos, quem fica com eles, quem paga o quê, quem fala com o outro progenitor, quem organiza as férias, quem decide as regras, quem tem razão.

Quando dou por isso, percebo que quase todas as conversas importantes entre aquelas duas pessoas passaram a ser sobre problemas para resolver.

E depois aparecem frases como:

“Já nem sei quando foi a última vez que estivemos bem.”

“Só falamos dos miúdos.”

“Parece que somos uma equipa de gestão.”

É fácil perceber como chegaram ali. Os filhos ocupam espaço, as decisões são muitas e há sempre qualquer coisa para resolver. Mas, se o casal deixa de existir para além da gestão da família, começa também a perder-se uma parte importante da relação.

E é aqui que algumas discussões sobre os filhos começam a ganhar outro significado.

Uma pessoa diz: “Tu nunca defendes os meus filhos”, mas eu posso ouvir, por baixo desta frase: “Tenho medo de que os meus filhos não tenham lugar para ti.”

A outra responde: “Nesta casa parece que não posso dizer nada”, e talvez aquilo que esteja a tentar dizer seja: “Preciso de sentir que também pertenço aqui.”

Já não estão apenas a discutir uma regra.

Estão a defender o seu lugar.

Quando a discussão parece ser sobre os filhos, mas não é só sobre eles

Quando isto acontece, instala-se facilmente um ciclo que se alimenta a si próprio. Um insiste porque sente que precisa de proteger alguma coisa; o outro sente-se excluído e defende-se; quanto mais se defende, mais o primeiro sente que tem de insistir.

A discussão continua a parecer ser sobre os filhos, mas, muitas vezes, também é sobre o casal: sobre a necessidade de continuar a sentir-se escolhido, sobre o medo de perder espaço, sobre a dificuldade de construir uma relação nova sem sentir que se está a abandonar aquilo que existia antes.

E é por isso que não gosto muito da ideia de que uma família recomposta deve, com o tempo, tornar-se simplesmente “uma família normal”.

Não há uma família normal para onde todos tenham de chegar.

Esta família tem uma história própria, relações anteriores que continuam a existir, filhos que precisam de manter os seus vínculos com os dois progenitores, um casal que está a tentar construir alguma coisa nova e, muitas vezes, alguém que está a tentar descobrir onde pode caber sem ocupar o lugar de ninguém.

Não há uma fórmula que me permita dizer a uma família quando é que os filhos devem aceitar o novo companheiro, quando essa pessoa deve participar nas decisões ou como devem ser distribuídas todas as responsabilidades.

Há princípios que ajudam, naturalmente, mas depois preciso de olhar para aquela família concreta, para aquelas pessoas, para aquelas idades e para aquela história.

O que é que cada pessoa precisa para encontrar o seu lugar?

Por isso, em consulta, talvez a pergunta que me interessa mais não seja:

“Como fazemos para que todos se dêem bem?”

É antes:

“O que é que cada um precisa para conseguir encontrar o seu lugar nesta nova família?”

Às vezes, a resposta será tempo. Outras vezes serão limites mais claros, menos competição ou uma reorganização das regras.

Pode ser necessário proteger melhor o espaço do casal ou permitir que os filhos mantenham momentos próprios com cada progenitor.

E pode ser necessário aceitar uma coisa que nem sempre é fácil para os adultos: algumas relações ainda não são próximas.

Não precisam de ser já.

Construir uma família nova sem apagar as histórias anteriores

Uma família recomposta não precisa de apagar o que existia antes para construir alguma coisa nova.

Pelo contrário.

Há vínculos que continuam, histórias que não desaparecem e lugares que não podem, nem precisam, de ser substituídos.

É precisamente isto que procuro ajudar os casais a perceber: não é preciso escolher quem pertence e quem fica de fora.

É possível criar novos vínculos sem apagar os anteriores e construir um “nós” sem pedir a ninguém que deixe de ser “eu”.

talvez seja esse um dos trabalhos mais delicados de construir uma família depois de uma separação: deixar de tentar fazer com que todos ocupem o mesmo lugar e começar, pouco a pouco, a encontrar um lugar possível para cada um.

Gemini_Generated_Image_8vk6v48vk6v48vk6

Entre ficar e partir

Nem todas as relações precisam da mesma resposta. Antes de decidir se faz sentido continuar ou terminar, pode ser importante perceber o que está mesmo a acontecer entre o casal

Há uma pergunta que aparece muitas vezes na consulta de casal.

Falamos primeiro das discussões, do cansaço, da distância. Dos filhos. Da traição. Da falta de tempo. Ou daquela sensação estranha de já não saber muito bem como voltar a conversar com a pessoa que está à nossa frente.

E depois, quase sempre mais tarde, quando já existe algum espaço para o silêncio, alguém pergunta:

Acha que temos hipótese?”

É uma pergunta importante. Mas muitas vezes chega cedo demais.

Porque nos coloca imediatamente perante uma escolha: ficar ou partir. E talvez ainda não seja esse o momento. Antes de decidir o que fazer com uma relação, precisamos, muitas vezes, de perceber o que está realmente a acontecer dentro dela.

O que se passou entre aquelas duas pessoas para chegarem até ali?

É curioso como somos rápidos a concluir que uma relação acabou. Às vezes porque se discute demasiado. Outras porque já não se discute nada. Porque já não há desejo. Porque há demasiado desejo, mas pouca proximidade. Porque um dos dois se afastou. Porque ambos se cansaram.

Só que uma relação é quase sempre mais complexa do que aquilo que aparece à superfície.

Ao longo dos anos, tenho aprendido a desconfiar dos sinais isolados. Aquilo que vemos é apenas uma parte da história. Um pouco como olhar para o mar e tentar perceber o que está a acontecer nas correntes que não conseguimos ver.

Por isso, quando alguém me diz “Eu quero salvar a relação”, há uma pergunta que me ocorre quase imediatamente:

Salvar exactamente o quê?

Às vezes é a relação.

Outras vezes é a família. A vida que construíram. A imagem que cada um tem de si próprio enquanto marido, mulher ou companheiro. Ou a esperança de voltar a encontrar aquilo que existia no início.

E há ainda uma possibilidade menos evidente: talvez aquilo que assuste mais seja imaginar quem se será depois da relação.

Não são perguntas para responder depressa. Aliás, algumas talvez precisem mesmo de ficar sem resposta durante algum tempo.

Porque quando tudo está misturado — amor, medo, culpa, filhos, história, dependência, esperança, cansaço — torna-se difícil perceber aquilo que pertence verdadeiramente à relação e aquilo que pertence ao medo de a perder.

Há casais que chegam à consulta convencidos de que o amor acabou.

Começamos a conversar. Um fala, o outro escuta. Depois trocam. Voltamos atrás. Tentamos perceber quando começaram a afastar-se, o que cada um foi sentindo, aquilo que deixou de ser dito.

E, por vezes, aparece uma história diferente.

Percebemos que ainda estão profundamente ligados. Que continuam a sofrer um com o outro e, em muitos casos, por causa um do outro.

Isso não significa necessariamente que devam ficar juntos. Significa apenas que a relação ainda tem peso emocional.

Noutros casais, a história é quase inversa.

Não discutem. A vida funciona. Os filhos estão orientados, as contas pagas, as tarefas distribuídas. Não há grandes conflitos e, visto de fora, tudo parece relativamente tranquilo.

Mas depois começamos a conversar.

E percebemos que já não se encontram há muito tempo.

Não há discussão, é verdade. Mas também já não há curiosidade. Já não existe aquela vontade espontânea de saber como o outro está, o que pensa, o que deseja ou até quem se está a tornar.

Por isso, uma relação pode estar cheia de conflito e continuar emocionalmente viva. E pode parecer tranquila porque, na verdade, já quase nada está em jogo.

É também por isso que duas pessoas podem viver os mesmos anos e contar histórias completamente diferentes sobre eles.

Uma diz:

“Passei anos a sentir-me sozinho.”

A outra pensa:

“Passei anos a tentar. Nunca consegui fazer o suficiente.”

Uma lembra-se da ausência. A outra lembra-se do esforço.

Uma diz:

“Nunca estiveste lá quando precisei de ti.”

E o outro talvez tenha passado anos a pensar:

“Eu nunca consegui perceber o que ela precisava de mim.”

É neste ponto que a terapia de casal pode tornar-se particularmente interessante.

Porque deixamos, pouco a pouco, de tentar decidir quem tem razão e começamos a olhar para aquilo que se criou entre os dois.

Como é que estas duas pessoas chegaram aqui?

E, sobretudo, como é que foram participando, sem necessariamente perceberem, no ciclo que hoje as mantém presas?

Muitas das atitudes que mais magoam numa relação começaram, curiosamente, como tentativas de proteger alguma coisa.

Quem insiste pode estar a tentar impedir a distância.

Quem se afasta pode estar a tentar evitar mais uma discussão, mais uma acusação, mais uma experiência de fracasso.

Quem controla pode estar aterrorizado com a possibilidade de perder.

Quem desiste de falar pode já não acreditar que será ouvido.

O problema é que estas estratégias raramente protegem aquilo que pretendiam proteger. Muitas vezes fazem exactamente o contrário.

A insistência provoca afastamento. O afastamento aumenta a insegurança. A insegurança leva a mais controlo. E o controlo torna ainda mais difícil aproximar-se.

É assim que um casal pode passar anos a lutar contra um problema que, entretanto, passou a ser criado pelos dois.

E é aqui que a pergunta inicial começa a mudar.

Já não é apenas:

“Temos alguma hipótese?”

Talvez seja antes:

“O que é que ainda não compreendemos sobre a forma como nos fomos perdendo um do outro?”

Esta pergunta não garante uma reconciliação.

Nem deveria.

Há relações que terminam. E há relações cujo fim, depois de compreendido, pode ser a decisão mais saudável para ambos.

Mas há uma diferença importante entre terminar porque já não conseguimos suportar aquilo que estamos a viver e terminar depois de percebermos verdadeiramente o que aconteceu.

Da mesma forma, há uma diferença entre ficar porque ainda existe uma possibilidade real de reconstrução e ficar apenas porque temos medo do que acontecerá se partirmos.

Talvez seja por isso que, antes de perguntar se uma relação deve continuar, seja tão importante perceber se ainda existe alguma coisa que possa ser reconstruída.

E, se existir, o que seria necessário para que isso acontecesse.

Porque, às vezes, o mais difícil não é decidir entre ficar e partir.

É conseguir olhar para a relação com honestidade suficiente para perceber aquilo que ela ainda pode oferecer e aquilo que, por mais que se deseje, já não pode ser pedido.

pexels-pavel-danilyuk-8205159

Money, Money, Money……..

in http://flynews.pt

Este é um tema que , como consequência desta fase que estamos a atravessar, estará seguramente na “ordem do dia” de muitos casais.

Independentemente da saúde financeira da relação, o dinheiro e as finanças do casal são um dos principais preditores de divórcio e fonte de constantes discussões.

No nosso país, falar de dinheiro é quase um sacrilégio e para ultrapassar este obstáculo é necessário compreender do que estamos a falar, porque discutimos, para encontrar uma maneira de chegar a acordos.

Idealmente, antes de assumir uma união de facto ou um casamento, é importante definir como o dinheiro e o restante património será detido e gerido. Mas, se tal não acontecer antes do início da relação , não o fazer depois é um erro que muitos casais cometem.

Considero que um casamento é uma parceria, e para que esta seja saudável, convém conhecer e acordar os termos da mesma.

Então o que precisamos de saber para ter uma abordagem construtiva ao tema?

Gustavo Serbasi identifica 5 perfis (poupados, gastadores, descontrolados, desligados e financeiros), cada um com os seus pontos fortes e fracos.

Conhecê-los e identificar o nosso é algo que ajuda a perceber os hábitos de consumo de cada elemento do casal, e compreender como potenciar os pontos fortes e atenuar os fracos.

Mas existem outros fatores a considerar quando conversamos sobre gestão financeira no casal. Assim aqui ficam algumas dicas a ter em conta:

Seja transparente

Quando for necessário rever os hábitos de consumo de cada um, a honestidade é a melhor política. A análise dos registos de despesa de forma conjunta, com o compromisso da ausência de comentários depreciativos e críticas maliciosas, ajuda a definir metas , a encontrar zonas problemáticas que precisam ser reduzidas.

Se após a definição de um orçamento fizer uma despesa não programada ou num valor superior ao acordado, não tente escondê-la do parceiro mas converse sobre a forma de acomodar esse valor e como proceder no futuro.

Estabelecer um plano

As questões relativas à poupança são também um tema frequente discódia. Nos 5 perfis referidos anteriormente, um dos pontos fracos de 2 deles, relacionam-se com o valor excessivo atribuído à poupança, que impede usufruir a vida de forma variada (jantar fora, viajar, etc).

Assim, quando falamos de poupanças é importante estabelecer metas comuns para ajudar a calcular o montante a economizar cada mês.

Também temos que considerar um montante de poupança individual para situações futuras como a reforma. Existem fórmulas que ajudam a calcular o esforço financeiro adequado a cada casal e que podem ser encontradas com a ajuda de um consultor financeiro.

Conheça os hábitos da família de origem de cada um

A forma como encaramos a nossa relação com o dinheiro construiu-se ao longo do tempo, e com uma grande influência da nossa família e dos seus hábitos financeiros.

Conhecer esta história, permite-nos colocar no lugar do outro e compreender melhor as motivações para os gastos.

É muito importante perceber o valor atribuído ao dinheiro. Para algumas famílias os gastos com os filhos são sinónimo de amor e como tal prioridade, muitas vezes sem limites. Para outros, o dinheiro é fator de segurança, especialmente em famílias que passaram dificuldades ou em que circulava a mensagem de que o dinheiro seria a única forma de construir autonomia. Pode ainda ser significado de valorização pessoal, status, poder.

Não existe uma maneira certa ou errada na forma de interpretar o significado do dinheiro, mas conhecê-lo ajuda-nos a perceber os comportamentos do outro e ajuda o próprio a consciencializar-se das suas atitudes.

Quais os gatilhos que desencadeiam despesas

As compras por impulso são muitas vezes uma forma de atenuar a nossa ansiedade ou de promover um sentimento de reconhecimento e recompensa que não foi obtido de outra forma. Tentar compreender, em casal, qual o contexto emocional e de necessidades não satisfeitas, permite perceber aquilo que está subjacente e que verdadeiramente necessitamos.

A ansiedade e perturbações do foro mental, muitas vezes levam a este tipo de comportamentos e beneficiam de uma intervenção de um psicólogo.

Partilhar informação relativamente aos ganhos reais que cada um obteve

Com frequência, um dos parceiros ganha mais que o outro, ou tem proventos para além do seu salário. A partilha desta informação é essencial para determinar um orçamento equitativo.

A divisão de despesas a meias não é solução quando existe uma disparidade acentuada. Uma divisão proporcional, geralmente é a forma mais aceite e sentida como justa.

Partilhe com o parceiro como nos se sente quando o fator “diferença de salário” é uma realidade que impacta não só na nossa autoestima, como também pode alterar a relação de poder.

Decidir quem controla o quê

Haver um responsável pelo orçamento e pagamento de contas pode fazer sentido. Contudo, esta opção pode levar a excessos de poder ou falhas nos pagamentos.

Tal como noutras situação, tenham uma conversa aberta e honesta com o intuito de perceber como se processa o excesso de controle e encontrar soluções temporárias ou mais definitivas para cumprir prazos de pagamentos.

A alternância de papeis, se previamente estabelecida, pode ser uma solução para ambos os problemas, controle e esquecimento.

Planear o futuro

Ter filhos, dar assistência aos pais e/ou outros dependentes são questões que estarão presentes para muitos casais.

Uma conversa acerca do que pretendem proporcionar aos vossos filhos em termos educativos, como pretendem encarar eventuais necessidades de acompanhamento, financeiro ou outro, dos familiares mais idosos ou dependentes, também irá influenciar o vosso plano financeiro de curto prazo e permitirá perceber valores e formas de encarar o valor da vida.

Dívidas e encargos

Qual o montante de dívida, desde cartões de crédito a empréstimos ou pensões de alimentos, trazemos para a relação?

As dívidas que trazemos para uma relação são da nossa responsabilidade, moral e financeira. Contudo, irão afetar a capacidade do próprio e do casal para construir  e atingir as metas do orçamento.

Se necessário, procurem um plano de renegociação da dívida que permita acomodar as necessidades do orçamento conjunto. Mais uma vez, a transparência e um diálogo construtivo são muito importantes.

Não sendo o tema mais romântico para o início de uma relação, o contrato antenupcial, no caso dos casamentos, ajuda a que logo desde o princípio fiquem claras as questões relativas ao património.

Celebrar conquistas

Depois de alguns anos de rotinas os casais têm tendência a cair numa zona de conforto que potencia conflitos. Celebrar as conquistas, periodicamente, que refletem o esforço do casal, com pequenos gestos, ou simplesmente com o assinalar de mais uma meta alcançada, reforça e aproxima a relação de casal.

O tema dinheiro é difícil. Regra geral, não tivemos acesso a uma educação financeira o que nos deixa muitas vezes inseguros. ( já agora, é fundamental educar financeiramente os filhos, dar-lhes a conhecer o valor do dinheiro, o seu papel na família, a importância do aforro, etc).

Mas a noção do nós em casal é relativa a todas as áreas, as conquistas e dificuldades a este nível são para partilhar, a proximidade e cumplicidade, o amor também se constrói assim.

pexels-karymefranca-838820

Não me vou aborrecer …..

in www.flynews.pt

O tédio parece chato ao princípio, mas,

 caso leve a um saudável desespero,

 acaba sempre por ser fértil e criativo.

Miguel Esteves Cardoso

Aviso:

Este texto não se destina aos muitos portugueses que não estão de todo entediados na medida em que se encontram extraordinariamente ocupados, desempenhando a sua profissão no local de trabalho, em teletrabalho ou lidando com crianças, parentes ou daqueles que mais necessitam. Para estes o meu respeito!

Estar fechado em casa é aborrecido e leva a que se instale uma sensação de tédio. E o tédio pode ser avassalador. Os minutos não passam, vemos e revemos os mesmos canais e séries, lemos os infindáveis posts sobre os mesmos temas nas redes sociais, sempre com a certeza de que há qualquer outra coisa mais interessante que poderíamos ou deveríamos estar a fazer.

O tédio surge quando temos um determinado nível de energia que não conseguimos direcionar. Pode acontecer também por falta de estímulo e satisfação naquilo que estamos a fazer. Esta situação em que os encontramos, coloca-nos precisamente o desafio de encontrar uma forma de gastar essa energia e oportunidade de o fazer com significado.

Donde vêm essa energia?

Muitos de nós vamos experimentar um aumento de ansiedade, que nos predispõe à ação. Quando não temos onde gastá-la, começamos a sentirmo-nos entediados e em vez de ficarmos satisfeitos e relaxados ao assistir àquela série há tanto desejada, estamos inquietos e desconfortáveis.

Um outro fator desencadeador do tédio, é a sensação de falta de controle. Quando não gostamos ou não estamos interessados numa tarefa, mudamos, fazemos de forma diferente, ou fazemos outra coisa. Se estamos fartos de estar em casa, saímos para tomar um café, estar com amigos e voltamos revigorados e motivados para retomar a tarefa. Agora não é possível e esta falta de liberdade e controle, promove o tédio.

É como alguém me dizia: “Estou sem rumo, apenas à espera que o distanciamento físico termine”.

Mas ainda que o tédio seja muito desconfortável, não tem que ser totalmente negativo. As pessoas entediadas podem optar por sentar-se no sofá e acabar de uma vez com um pacote de batatas fritas, mas também podem ser extremamente produtivas, como Isaac Newton que, durante a quarentena imposta pela grande praga de Londres, em 1665, utilizou o tempo de isolamento para descobrir o cálculo e a gravidade.

O tédio tem uma função adaptativa para os seres vivos. Assinala-nos que estamos a deixar ir o controle sobre as nossas vidas e empurra-nos para a ação.

Então como combater o tédio?

Aceite o tédio

Parte do desconforto do tédio sempre existiu, mas estava camuflado pelo ritmo quotidiano em que o valor pessoal era medido pela produtividade.

A paragem obrigatória leva a que muitas pessoas questionem os processos rotineiros e, na ausência deles, sobra o tempo e a falta de sentido.

Contudo, quando o nosso cérebro está “aborrecido”, dedica-se a encontrar novas conexões neuronais, gerar ideias, fazer planos, torna-se criativo.

Encontre o seu ritmo

As rotinas estruturam os nossos dias e dão-nos um sentimento de coerência que potencia o propósito da nossa vida. Agora que a rotina do quotidiano, que nos obrigava a deslocar para o trabalho/escola, que era uma das mais significantes para a nossa identidade social, desapareceu, abriu-se o espaço para o tédio, a menos que outras rotinas igualmente estruturantes sejam adotadas.

Experimente algo novo

O tédio empurra muitos de nós para a necessidade de algo novo. Aproveitar esse impulso para aprender uma receita, uma atividade, uma competência, não só ajuda a curto prazo como se torna numa mais-valia para o futuro e contribuiu para um sentimento de auto-satisfação.

Deixe-se levar

A necessidade de encontrar atividades suficientemente desafiantes é difícil. Tenha em mente que o que encontre para fazer como interessante de manhã pode deixar de sê-lo ao longo do dia, ou das semanas que passam. Não se mantenha nessa atividade se sentir que precisa de uma pausa, mesmo que a pressão social assim o imponha.

Viva sem culpa os momentos de lazer

Ao ficarmos sem fazer nada, parece que desperdiçamos o tempo que até aí, mesmo no lazer, foi ocupado por imensas atividades. A modernidade tornou-nos dependentes dos momentos únicos e singulares que impedem que o tédio se instale com a intensidade da novidade constante.

Não há problema em consumir séries dos canais de streaming se for tudo o que consegue fazer no momento. Se tem prazer em dedicar-se a nada, aceite esses momentos como o seu reset mental para o que se segue.

Recorde porque estamos em casa

Precisamos de atribuir sentido ao “não fazer nada”.

Tal como a emoção, o tédio é influenciado por aquele que é o nosso pensamento do momento. Ou seja, ficar em casa só tem sentido quando pensamos ativamente no bem maior que implica. Reenquadrar a forma como pensamos acerca do que fazemos muda o nosso sentir.

Ficar em casa é a forma mais eficaz de conter a transmissão do vírus, é o meu superpoder.

pexels-thirdman-8011795-2

Ainda não é desta que vou ceder

in http://www.flynews.pt

Não existe forma de “dourar a pílula”. Permanecer em isolamento com a família e/ou o companheiro por perto é fonte de stress e desgaste.

Por outro lado, a gestão do medo, da ansiedade associados à incerteza da situação, pode levar-nos a perturbados e com dificuldade de regressar a um estado de equilíbrio.

Se este fôr o caso, tente pôr em prática técnicas de relaxamento e exercício físico como forma de baixar a intensidade da ativação das emoções.

Existe um exercício de relaxamento, especialmente eficaz, conhecido por “4 elementosTerra, Ar, Água e Fogo” de Elan Shapiro, que ajuda, de forma rápida, a lidar com situações de vida negativas:

Os ativadores de stress internos e externos tem efeito cumulativo ao longo do dia e lidamos melhor com o stress quando ficamos dentro da “janela de tolerância” de ativação.

Um antídoto para ativadores de stress é a monitorização frequente e aleatória do nível de stress com ações simples de redução do mesmo para manter os seus níveis dentro da janela de tolerância.

Assim, use uma pulseira no pulso (de borracha, ou de cordel) e sempre que notar a presença, faça uma rápida leitura do nível atual de stress (por exemplo, numa escala de 0 a 10, sendo 0 a ausência de stress e o 10 o nível máximo de stress) e realize 3 ou 4 breves exercícios de relaxamento/autocontrole (os 4 elementos) e então avalie novamente o nível de stress (0 a 10).

O objetivo, modesto, é reduzir o nível de stress em 1 ou 2 pontos de cada vez e fazer isso pelo menos 10 vezes ao dia em momento aleatórios, a partir de diferentes níveis de stress inicial.

Ao evitar que as suas respostas de stress se acumulem, torna-se mais hábil a permanecer dentro da sua janela de tolerância.

Terra: ponha os pés no chão e tome consciência do local onde está. Sinta a textura do sofá onde está sentado. Seguidamente, repare em 3 objetos à sua volta (ex: “uma cadeira, uma mesa, um telemóvel”). O objetivo é sair da espiral de pensamentos perturbadores e intrusivos e trazer a sua atenção para o “aqui e agora”;

Ar: Vamos usar a “respiração quadrada”:respire fundo, pausadamente (conte 1-2-3-4 enquanto inspira; 1-2-3-4 enquanto retem o ar; 1-2-3-4 expire; 1-2-3-4 suspenda a respiração (antes de voltar a inspirar, reiniciando o ciclo), usando o diafragma.;

Água: beba água ou salive. Quando está ansioso, stressado, a sua boca fica seca, porque parte da resposta de emergência ao stress produzida pelo Sistema Nervoso Simpático, é desativar o sistema digestivo. Quando começa a produzir saliva, ativa novamente o sistema digestivo, pondo em ação o Sistema Nervoso Parassimpático, promovendo a resposta de relaxamento. É por isso que se oferece água, chá ou rebuçados às pessoas após uma experiência difícil. Quando há produção de saliva, a sua mente é capaz de controlar melhor os pensamentos e o corpo.

Fogo: Vamos “aquecer” a imaginação – procure uma imagem de um local agradável, real ou imaginado, inspirador de paz, confiança, segurança, relaxamento. Descreva-o em voz alta utilizando para tal os 5 sentidos: o que ouve? O que vê? O que cheira? O que sente? A que sabe? Simultaneamente vá respirando de forma profunda e pausada.

O exercício físico deverá ser adaptado às condições do espaço de cada um, e, de momento existem vários exemplos a circular na internet. Deixo-vos um, que estando em inglês, é fácil de fazer seguindo as instruções visuais

Este exercício, cross crawl, oferece uma maneira eficaz de reiniciar o sistema nervoso e reintegrar a mente e o corpo. Pode usá-lo regularmente para descarregar e recarregar a sua atenção e energia. Gera uma ótima oportunidade para distrair do foco em excesso e também funciona colocando o corpo e a mente alinhados. Além de um desactivador do stress ou como um aquecimento para se mexer melhor, o exercício traz benefícios sócio-emocionais significativos:

• Maior autoconsciência

• Melhor discernimento do contexto

• Mais clareza de pensamento

• Melhor controle de impulsos

• Melhorias na coordenação física geral

Estas são algumas ideias para ajudar a lidar com estes momentos diferentes e ansiogénicos que vivemos. Contudo são estratégias que podemos pôr em prática sempre que sentirmos necessidade de encontrar algum relaxamento e paz interior.

Fique bem, mantenha-se seguro(a)

Autor: Catarina Mexia (Psicóloga Clínica)

pexels-pavel-danilyuk-6667173

Comunicar bem em casal – agora e sempre

in flynews.pt

Com frequência sou questionada como comunicar melhor, quando, nas consultas de terapia de casal, a principal queixa é apresentada como “não sabemos comunicar”.

Nestes dias de quarentena que vão correndo, esta é uma capacidade fundamental. O potencial de conflito encerrado num processo comunicacional deficiente é enorme, e nesta situação de proximidade constante está exponenciado.

Comunicar é essencialmente ouvir!

Esta é uma das nossas competências mais subutilizadas . Na realidade, a maioria de nós acha que está a ouvir, quando na realidade está envolvido num diálogo interno que lhe permitirá refutar o que pensa que o outro lhe disse.

Quando não há envolvimento ativo no processo de escuta, muita informação não é rececionada (verbal e não verbal) e outra não é retida.

Para nos empenharmos num processo de escuta ativa precisamos utilizar os 5 sentidos. Esta prática não só nos informa sobre o outro, mas também sobre nós mesmos. A atenção ao corpo, a presença no “aqui e agora” permite-nos a construção de um feedback genuíno e que abre o diálogo incentivando uma comunicação positiva.

Assim devemos ter presente o seguinte:

·      Ouça para além do que é dito

Muitas discussões acontecem por razões que os casais descrevem como “tão pouco importantes que já nem se lembram”. Na realidade, a maioria dos conflitos começa com a “gota de água” que faz transbordar o mal estar de necessidades não satisfeitas. Queixar-me de que o meu companheiro não participa na confeção do jantar, na realidade pode ser uma queixa que poderia ser formulada como “Estive longe de ti todo o dia, queria a tua companhia, sentir que sou especial, que sentiste a minha falta também!” ( sim, a partilha das tarefas também aliviam o cansaço do outro)

·      Atente à linguagem não verbal

Compreenda e valorize a linguagem corporal do outro e atente na sua.

Muitas vezes o mal estar que sentimos numa conversa, pode ser explicado pela incongruência entre o que é dito e o comportamento, a linguagem corporal.

Quando estamos a falar com alguém que expressa verbalmente a sua preocupação pelo que lhes transmitimos e tem o olhar fixo no telefone, nas redes sociais, o mal estar que esse diálogo nos faz sentir é legitimo. As minhas palavras dizem “Interesso-me, preocupa-me com o que dizes”, o meu comportamento revela o contrário – e isso é irritante.

Tenha atenção à forma como se expressa e ao modo como se comporta no diálogo com o outro.

·      Time-out

Um diálogo pode estar imbuído de todo o tipo de respostas emocionais, desde a alegria à tristeza passando pela raiva e a zanga.

Quando em conflito, muitas vezes chegamos a um estado de ativação neurofisiológica e emocional que nos impede “manter a cabeça fria” e estar disponível para ouvir o outro.

Aceitem como estratégia o sinal de “time out” como forma de se retirarem da conversa o suficiente (20 minutos costuma ser o tempo adequado) para acalmar e permitir que o seu corpo e as suas emoções regressem a um nível gerível.

·      Realidade única?

A empatia e a bondade são dois elementos fundamentais para uma boa comunicação. A velha questão “queres ter razão ou ser feliz?” implica um equilíbrio entre a nossa visão e a compreensão do outro e da sua realidade. Ficar preso na busca da verdade absoluta só nos bloqueia. Admitir que existirão sempre 2 versões da realidade permite-nos construir pontes, processos de negociação.

·      Negociação

A maioria das negociações termina em compromisso de ambas as partes.

Numa boa conversa, ir mais além do “bater bolas” é fundamental.

Perdermo-nos nos pormenores, no ataque ao outro, não nos deixa perceber que muitas vezes ambos queremos o mesmo, mas temos caminhos diferentes para lá chegar.

Assim, procurem partilhar as vossas necessidades para além da queixa, para poderem passar à fase da resolução. Começar por aceitar que não terão uma solução boa, mas uma suficientemente boa para ambos é o primeiro passo para construir um compromisso partilhado.

Se o meu cansaço na relação se traduz na queixa de falta de iniciativa do outro para programar uma saída a dois, e o meu parceiro se queixa da minha falta de iniciativa para partilhar o sofá nas noites de semana, provavelmente ajuda assumir que o problema é o reconhecimento da necessidade da companhia do outro e da iniciativa de cada um para o demonstrar. Então encontrar um compromisso que permita satisfazer as necessidades especificas de cada um (ficar em casa, sair para jantar), dar-nos-á uma boa probabilidade de chegar a uma solução mutuamente satisfatória.

 Não existem relações perfeitas.

Como alguém dizia, “Casais felizes não são os que não discutem, mas aqueles que sabem resolver uma discussão”.

Autor: Catarina Mexia (Psicóloga Clínica)

pexels-zeynep-asiyan-kosun-53441154-7763781

Até que a morte nos separou

Fazer luto pela pessoa com quem partilhámos a vida é um processo extraordinariamente doloroso e difícil. O sofrimento da perda é normal e vai ocorrendo em diversas fases. É delas que aqui falamos.

“Até que a morte nos separe” é a fórmula pronunciada no casa­mento católico, mas também o pacto secreto que fazemos com o outro numa relação que preten­demos com futuro. É com ele que nos habituamos a contar para nos ajudar a superar os maus momen­tos, a partilhar os bons, no fundo a partilhar tudo o que constituiu uma vida. A sua morte é um enor­me choque.

Com esta morte, acontecem tam­bém inúmeras perdas. Alguém perdeu a mãe ou o pai, a irmã ou o irmão, a filha ou o filho e assim por diante, coisa que promove uma instabilidade em toda a fa­mília, envolvendo diferentes as­pectos, entre eles a difícil tarefa de incluir novos papéis familia­res. Assim, o cônjuge que sobrevive tem pela frente uma dupla tarefa, que é de superar a perda, fazendo o luto, e reconciliar-se na vida familiar.

O luto é um processo complexo de “deixar ir” e não simplesmen­te uma emoção. Se a relação dura­va há muitos anos, implica mesmo uma redefinição de quem somos sem o outro. E esta não é uma ta­refa fácil!

Fases do luto. O sofrimen­to da perda é normal e vai ocor­rendo em diversas fases. Começa por uma reacção inicial de cho­que e “entorpecimento” emocio­nal em que nos faltam as forças e não queremos nem podemos ver ninguém — ou, pelo contrário, em que nos envolvemos num frene­sim organizativo para preencher o tempo e impedir de pensar. Não há filhos, não há emprego, não há família que nos preocupe, apenas um fortíssimo e profundo desgos­to. Nestes momentos, os amigos, a família e mesmo os grupos de apoio são fundamentais para não cair no limbo.

A seguir vem a saudade, aque­la sensação terrível que magoa e parece não ter fim. A tentativa de reencontrarmos o ser amado le­va a rever locais que partilhados, a conversar com amigos comuns, sempre na tentativa de avivar sen­sações. Trata-se de um comporta­mento por vezes levado à exaustão e que deixa amigos e família preo­cupados. Começa, nesta fase, a ha­ver dificuldade em encontrar for­ças para lidar com a própria dor. À medida que a morte se torna mais aceite, seguem-se momentos de desespero, de desorgani­zação, de afastamento. É a fase que mais preocupa os que estão próximos, uma vez nem o conso­lo parece ajudar a recuperar. Con­tudo, este é um tempo necessário ao luto: estar só, integrar a forma socialmente aceite de luto, sentir que podemos rir de boas recorda­ções são pequenos passos que pre­cisam de ser dados a sós.

Finalmente, dá-se um proces­so de reorganização, que emerge gradualmente, permitindo um re­gresso pleno às actividades fami­liares, sociais e profissionais. A vi­da começa a ter outro sentido, o ser amado encontrou o seu espaço na nossa vida e os rituais de perpetu­ação da sua memória foram final­mente organizados.

Viver a tristeza. Infelizmen­te, hoje em dia muitos de nós te­mos dificuldade em tolerar a tris­teza, assumindo que deve ser um sentimento intenso mas de rápi­da resolução, coisa que permite um retorno imediato à vida nor­mal. Trata-se, no entanto, de um percurso enganador e prejudi­cial, uma vez que é uma etapa que necessita de tempo para decor­rer saudavelmente. Especialistas na matéria apontam mesmo pa­ra um período entre um a quatro anos para realizar o luto.

Geralmente, o luto só se torna pro­blemático quando se prolonga com as mesmas características e tonali­dade emocional por muito tempo, quando é acompanhado por mani­festações de hostilidade aberta em relação a algumas pessoas, quan­do a recusa de contactos sociais e laborais se prolonga, quando, em situações quase limite, existe re­cusa em aceitar a morte.

Poucos acontecimentos nas nos­sas vidas mexem tanto connosco como a morte do nosso marido ou mulher. Geralmente não nos limi­tamos a perder o nosso marido ou a nossa mulher, mas o nosso me­lhor amigo. É normal sentirmos que perdemos uma parte de nós, uma relação amorosa intensa.

Recomeçar. A idade da viuvez pode ser importante para a for­ma de encarar a hipótese de uma nova relação. Se para os mais no­vos parece ser mais fácil optar por um novo companheiro, pa­ra os mais velhos não é tão claro que tal seja necessário ou mesmo adequado.

No que diz respeito aos homens idosos, as estatísticas mostram que voltam a casar mais vezes do que as mulheres da mesma faixa etária e, geralmente, com mulhe­res mais novas. A mulher mantém o seu estado de viuvez até à mor­te mais frequentemente do que o homem.

Quando se trata de jovens adultos,reiniciar uma relação é mais com­plicado. Encontrar um novo com­panheiro sem sentir que está a trair a memória do falecido, ou mesmo os familiares do seu lado que, ao contrário do que se passa no divórcio, mantêm uma relação próxima como sobrevivente, nem sempre é fácil.

Ser capaz de suportar a solidão sem “saltar” de imediato para uma relação como forma de evitar o sofrimento de fazer o luto não é uma boa ideia. Aquele que escolhermos para partilhar a nos­sa vida deve merecer uma rela­ção completa, em que a memó­ria do outro, ainda que presente, não seja um obstáculo para o ple­no desenvolvimento do relaciona­mento. Neste caso isso passa, por exemplo, por darmos tempo para decidir o que queremos fazer com objectos que foram da relação an­terior. Pode parecer uma preocu­pação prosaica, mas é uma ques­tão que habitualmente se coloca: “desmanchar ou não a mobília de quarto, pintar ou não as paredes, renovar ou não a casa?” Para po­dermos tomar essas decisões de forma consequente, precisamos de nos dar tempo.

 

Algumas ideias para ajudar a recuperar a morte do conjuge

Estimar as memórias Inicialmente às memórias estará mais associado o sofrimento, mas, com o tempo, a recordação do que se passou de bom fará soltar uma boa gargalhada.

Não sofrer sózinho Procurar encontrar uma rede de apoio, seja os amigos, a igreja, os grupos de apoio.

Falar dos sentimentos Os outros estão disponíveis para ouvir e falar com eles ajuda a “arrumar”o nosso mundo interior

Sentir Raiva Nem só a tristeza está envolvida no processo de luto. A raiva, a zanga com o outro que faleceu são também normais e precisam de ser sentidas.

Procurar aliados A tristeza é única e nunca ninguém conseguirá compreender a perda, mas os amigos, familiares e outros elemen­tos da comunidade serão bons aliados para “manter o contacto”.

Permitir-se “estar triste” É uma situação particularmente difícil quando há filhos envolvidos, mas também eles precisam de olhar para si e sentirem-se acompanhados na tristeza.

 

12e41a66-cbf7-4a12-b0e6-33f132683166

Perfeccionismo – A armadilha perfeita

Num mundo conturbado e apressado como o nosso ainda existem muitas pessoas que ainda acreditam na perfeição e que procuram o sucesso em tudo o que fazem. Mas será essa uma atitude acertada?

A palavra perfeição vem do latim perfectio e refere-se a uma acção le­vada até ao limite e que atingiu a sua plenitude. O perfeccionismo é muito bem-vindo até ao momen­to em que começa a atrapalhar o funcionamento natural da vida de um indivíduo. As áreas de procu­ra de perfeição são as mais varia­das e vão desde o âmbito profissio­nal ao corpo e às relações. Mas es­ta realidade vem criando cada vez mais tensão, pois as pessoas vêem- se cada vez mais confrontadas com a incapacidade de corresponderem às expectativas que resultam de fasquias demasiado altas.

Absolutistas. Se superarmo-nos pode ser entendido como um desa­fio saudável que mantém os nos­sos objectivos, já quando ultra­passa determinados limites constitui-se numa doença. Os transtor­nos obsessivo compulsivos, aliás, são uma das facetas que a mania da perfeição levada ao extremo po­de assumir, de tal modo que o seu controlo escapa aos doentes. Mas sem entrarmos na área da patolo­gia psiquiátrica, as pessoas que têm uma forma de pensar mui­to rígida, com tendência a avaliar tudo numa dualidade do “bran­co ou preto”, dizem muito sobre a forma como se manifestam os seus sentimentos, mas também a sua saúde.

As pessoas que pensam em ter­mos rígidos, absolutistas (AB), tal como os perfeccionistas e os maníacos do controlo, são mais susceptíveis de sofrer de proble­mas emocionais e físicos do que as que se mostram mais flexíveis e pensam de uma forma “não absolutista”. Os AB ficam preocupa­dos se os acontecimentos não cor­rem como planearam, o que os pa­ralisa e impede de pôr em prática as suas capacidades para resolve­rem e lidarem com os problemas. Isso pode transformar-se em pro­blemas de saúde, tais como insó­nia, palpitações cardíacas, fadi­ga crónica e tensão arterial eleva­da. O contínuo estado de stress em que se encontram aumenta a pro­dução de uma hormona designa­da por cortisol, que, entre outros, provoca uma diminuição do fun­cionamento do sistema imunitá­rio, tornando-os mais vulnerá­veis a infecções.

Dois tipos. Existem dois tipos de perfeccionistas: os que estão orientados para a sua performan­ce e os que se preocupam com a dos outros. No primeiro caso o perfeccionismo pode ser extre­mamente valioso para ajudar em assuntos profissionais, o mesmo pode ser extremamente penoso quando se encontra um erro, con­siderado como perfeitamente ina­ceitável. Como muitos outros, pre­ocupam-se com o que as pessoas possam pensar de si, do seu traba­lho, contudo, perante o erro, sen­tem uma profunda humilhação, stress, insónia e isolam-se, pois têm dificuldade em ultrapassar o erro. Para estas pessoas é perfeita­mente aceitável que os outros co­metam erros, mas o mesmo é im­pensável para elas.

O segundo tipo de perfeccionis­tas sente-se bem consigo mesmo, mas experimenta frequentemente desilusão e frustração com os ou­tros, que parecem fazer tudo para o deixar mal. Para estas pesso­as parece que todos os dias existe algo de novo para se queixarem. Os outros estão sempre a falhar no que lhes é pedido e o que fazem nunca está bem feito. Torna- se tão frustrante que acabam por ser elas a fazer o trabalho sem pe­dir ajuda, só para não terem de li­dar com argumentos e desculpas. Este tipo de perfeccionismo causa problemas nas relações com os ou­tros, pois estas pessoas estão cons­tantemente frustradas pela inca­pacidade dos outros em preenche­rem as suas expectativas. Quando tentam explicar a situação a tercei­ros, mesmo que de uma forma cal­ma, geram tensão, mal-estar e, por vezes, conflito.

No casamento. Querer ser per­feito pode ser apenas uma ques­tão pessoal. Contudo, a realida­de mostra-nos que o perfeccionis­mo afecta quem está à volta. Geral­mente, o perfeccionista tem muita dificuldade em ficar satisfeito com o que foi atingido e os bons resul­tados ou conquistas nunca são as­sinalados, e aqueles que chefiam ou têm responsabilidades educa­tivas mostram uma imensa difi­culdade em elogiar os resultados dos outros, gerando desmotiva­ção, desânimo e revolta.

Outra dificuldade dos perfeccio­nistas passa por encobrirem os seus erros, na tentativa de con­seguirem manter a imagem que criaram de super-pessoas.

No casamento, os perfeccionis­tas lutam para que tudo seja per­feito e com isso podem apenas conseguir uma relação marcada por uma profunda insatisfação e tristeza. Os elementos de um ca­sal que consideram o seu parcei­ro perfeccionista têm mais ten­dência a utilizar o sarcasmo para lidarem com os problemas da re­lação. Estas reacções conduzem a menor satisfação no relaciona­mento. Geralmente as mulheres esperam mais dos seus parceiros do que o inverso e, consequentemente, expressam mais facilmen­te o desencanto e a tristeza por es­tes não estarem à altura das suas expectativas. A melhor forma de lidar com esta situação num casa­mento é procurar ajustar expec­tativas, encontrar objectivos real­mente possíveis e aceitar a imper­feição e o erro.

Para escapar ao perfeccionismo é necessário compreender e desa­fiar as crenças que estão subjacen­tes a esta necessidade de fazer tu­do muito bem. Por exemplo, mui­tas vezes as pessoas fazem depen­der a sua aceitação por terceiros da sua capacidade de corresponder e superar as expectativas que outros significativos têm em relação a ela. Geralmente são crenças en­raizadas em aprendizagens feitas na infância. Por isso é tão impor­tante os pais valorizarem, aplau­direm e conversarem, tentando compreender o processo do erro, dos feitos escolares e relacionais dos seus filhos.

pexels-kampus-8380091

A Pressão do Grupo

Pertencer a um grupo ajuda os adolescentes a moldarem a sua personalidade, mas também complementa a função dos pais como educadores. Importa que uns e outros falem sobre o assunto.

Recentemente uma dos nossas canais de televisão apresen­tou um programa sobre um pro­blema crescente e cada vez mais grave relacionado com o consu­mo de álcool em jovens adoles­centes. Estamos a falar de crian­ças, pois outro nome seria difícil de lhes dar quando começam a be­ber aos 12, 13 anos. Se deixarmos de lado explicações relacionadas com a moda ou os meios de ma­rketing dos empresários da noite, restam-nos algumas opções. Refi­ro-me a uma situação particular­mente importante para os jovens adolescentes, pois para eles a per­tença ao grupo pode ser uma im­portante ajuda para moldarem a sua personalidade.

Adolescentes e o grupo. Há medida que a criança vai crescen­do e entra na adolescência, o envolvimento com o grupo de pa­res (amigos, colegas da escola, do bairro, do surf, etc.) vai aumentan­do. Como pré-adolescente, inicia rápidas mudanças físicas, emo­cionais e sociais e começa a ques­tionar os referentes dos adultos e as regras parentais. A procura de conselhos junto dos pares, que o compreende e aceita, torna-se um hábito. Afinal, estes encontram-se na mesma posição e podem com­preendê-lo melhor que ninguém. Por sua vez, a experiência de no­vas situações dentro do grupo, al­gumas perfeitamente normais e inerentes ao crescimento, assegu­ra-lhes uma protecção do medo da crítica e da ridicularização. Contudo, quando mencionamos a expressão “pressão de grupo”, muitos de nós conotam negativa­mente a situação. A ideia de que alguém ou alguma coisa pode in­fluenciar o nosso filho a ter com­portamentos destrutivos ou perigosos fora de qualquer supervisão parental é muito assustadora. Contudo, a pressão de grupo po­de ser muito positiva. É ela que contribui para que os nossos filhos participem em actividades em grupo, desportivas, culturais, de entretenimento, mesmo quan­do não são os líderes desses mes­mos grupos.

Para que serve? O grupo forne­ce aos jovens um espaço protegido para experimentar novas facetas daquilo que virão a ser, permitin­do-lhes pôr em prática duas tare­fas fundamentais no seu desenvolvimento: responder à questão de “quem sou eu?”, que contribui pa­ra a construção da sua identidade, e experimentar novas formas de li­berdade, que conduzirão à cons­trução da sua autonomia. Assim, não é de espantar que os jovens gostem tanto de estar com o seu grupo de amigos.

Todavia, a convivência entre o grupo e a família nem sempre é pacífica, existindo mesmo algu­mas situações em que pode cons­tituir uma fonte de conflito e pre­ocupação.

Filho versus grupo. Os pais in­citam com frequência uma guer­ra cerrada ao grupo de pares como fonte de todos os males. Muitas vezes, no entanto, não compreendem que este afastamento é necessário e saudável e leva a que o grupo pas­se a ter uma importância decisiva na formação do filho.

Encarar esta fase como mais uma etapa da vida de uma família, en­contrar pontos comuns e renovar regras que não excluam a crescen­te presença do grupo pode ser uma tarefa difícil mas necessária para famílias com jovens adolescentes.

Família versus grupo. Em famí­lias que atravessam momentos de crise, como dificuldades económi­cas, divórcio, desemprego, etc., ve­mos com frequência que o suporte emocional do grupo se torna ainda mais importante para o adolescen­te. Lidar com os conflitos próprios da adolescência e da situação “ex­tra” obriga-nos, a todos, a man­ter a frequência e intensidade dos mesmos o mais baixo possível

Família versus gangs. É uma realidade muito actual e nem sem­pre restrita a bairros pobres e culturalmente diversificados. São factor de preocupação para a família, pois, na maioria (para não falar na totalidade das situações conheci­das), estes grupos de jovens dedi­cam-se a actividades reconhecida­mente perigosas e ilegais. Vencer a atracção do poder associado à pro­tecção do gang pode ser uma tare­fa muito difícil para a família.

Crescer com os filhos. Algu­mas destas situações podem não encaixar na nossa família, mas a responsabilidade de encarar pro­blemas que advenham desta fase normal do desenvolvimento deve ser partilhada entre diversos ele­mentos: o adolescente, a família e a microcomunidade em que estão inseridos (seja ela a escola, o bair­ro ou outros que constituam a fon­te do grupo).

Não me canso de referir para es­tarmos atentos, mas não encarar­mos o grupo como o “ser” maléfi­co que virá roubar o nosso precioso filho, destruindo todos os valores e ideias que tão afincadamente lhe procurámos transmitir. A estraté­gia mais acertada passa por cres­cer com os nossos filhos, aceitando sempre que se trata de um relação que se vai modificar ao longo dos anos.