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Sou Tímido

A timidez é uma forma ligeira de fobia social e traduz-se na dificuldade de adaptação a novas situações sociais.

Corar, gaguejar ou sentir que faltam recursos para lidar com determinadas situações são sintomas comuns da timidez. Parece que o corpo trai a mente e mostra a todos o que implicou tanto esforço a esconder, ou seja, a incapacidade em lidar com terceiros.

O que é? Uma pessoa tímida tem dificuldade em afirmar as suas necessidades, deixa-se ultrapassar na fila do supermercado sem reclamar, não consegue tomar a palavra em reuniões e costuma isolar- se a um canto em eventos sociais. A timidez é uma forma ligeira de fobia social, uma perturbação bastante mais grave que pode ser paralisante na vida de uma pessoa e deve ser tratada antes de conduzir ao isolamento e à depressão.

Um tímido é uma pessoa que demora mais tempo do que as outras a adaptar-se a novas situações sociais, que desencadeiam nele uma ansiedade forte e menos controlável do que na maioria das pessoas.

Tem geralmente uma imagem negativa de si mesmo e apresenta autoestima fraca. Não crê nas suas capacidades, o que resulta na falta de autoconfiança. Os mais tímidos passam a vida a adiar o cumprimento dos seus sonhos e a arrependerem-se amargamente dessa demora. Incapazes de dar o primeiro passo, não conseguem chegar aos outros, ficando sempre à espera que alguém dê o primeiro passo na sua direção.

Infância fragilizada. Uma leitura possível da timidez reporta- nos à intolerância perante a incapacidade de ser bem sucedido. É comum os tímidos não tomarem iniciativas com receio de estragarem tudo. Têm em si urna ansiedade antecipatória negativa, o que apenas lhes permite antever cenários extremamente derrotistas. Para eles, a critica é sinónimo de rejeição. E se as suas ideias são reprovadas, tal é sentido como humilhação. Estes sentimentos só vêm reforçar ainda mais a certeza de que não dar nas vistas é a melhor e mais saudável atitude. Outra explicação para este fenómeno remete para a infância. Por exemplo, uma criança que cresceu num ambiente familiar demasiado protegido, onde se sentiu sufocada ou excluída num ambiente demasiado adulto, ou ainda urna criança com falta de afecto ou compreensão que sofreu conflitos familiares, é uma boa candidata a comportar-se de forma tímida. Também o falhanço escolar e as frequentes mudanças de escola são fatores que não ajudam.

Falta de segurança. Geralmente, a timidez traduz-se por uma atitude receosa, urna perturbação excessiva e uma falta de segurança no comportamento perante terceiros. Mas pode também esconder-se por trás de um comportamento agressivo, que denota, muito simplesmente, ausência de autoconfiança.

As manifestações são simultaneamente fisiológicas e psicológicas. Entre as primeiras, contam-se transpirar excessivamente, sentir falta de ar, rubor ou palidez acentuados, gaguejar e alterações da voz (que se torna praticamente inaudível ou ininteligível), rigidez muscular e tremores. No plano psicológico destacam-se o sentimento de paralisia (que torna impossível a mais pequena reação) e atenção demasiado centrada no objecto do medo (neste caso, as outras pessoas).

Mas a timidez pode e deve ser encarada como uma perceção mental distorcida que só faz sentido em função da presença do outro. Ninguém é tímido sozinho! Daí que outra característica dos tímidos passe por pensarem que estão a ser constantemente observados ou julgados de forma negativa, desenvolvendo, assim, uma sensibilidade especial para qualquer tipo de crítica ou comentário sobre a sua aparência e conduta.

Acabar com a timidez. Ninguém é tímido na sua casa, consigo mesmo, no seu próprio meio, com a sua família mais próxima. A timidez desenvolve-se quando essa mesma pessoa ultrapassa os limites da sua intimidade e se envolve em situações desconhecidas e novas relações sociais. A insegurança e o mal-estar que assaltam o tímido manifestam-se unicamente quando se vê rodeado de estranhos. Para ele é muito difícil deixar de pensar em si mesmo. Leva-se “demasiado a sério”, pelo que se torna muito difícil concentrar-se em qualquer outra atividade. Não tira proveito de um jantar ou de uma festa, por exemplo, pois está constantemente preocupado com o que os outros estão a pensar dele. Também tem sérias dificuldades na esfera profissional, uma vez que se encontra mais preocupado em não destoar do que a brilhar.

No comportamento generalizado que todos temos de procura de aprovação — caracterizado pelas tentativas de causar boa impressão nos outros —, os tímidos não se sentem merecedores dessa aprovação e os seus esforços vão apenas no sentido de diminuir a desaprovação. A pressão social repercute-se especialmente sobre os tímidos que têm um baixo conceito de si mesmos e que consideram de forma muito modesta as suas capacidades.

Existe tratamento? A terapia cognitivo-comportamental é o tratamento preferencial para estas situações. Podem ser utilizados psicofármacos associados, especialmente quando a ansiedade ou os sintomas fisiológicos são muito intensos ou existem outras patologias associadas. Esta forma de terapia ajuda a despistar complexos, frustrações e cognições distorcidas da realidade. Adaptada a todas as idades, parece ser muito eficaz, pois permite afrontar progressivamente as situações ameaçadoras. A tónica é posta nas causas atuais do comportamento problemático e menos nas causas inconscientes.

Utilizam-se, para isso, técnicas de controlo da ansiedade, como relaxamento e controlo da respiração, treino de competências sociais, técnicas para corrigir pensamentos disfuncionais, outras inseridas num processo psicoterapêutico, geralmente de curta duração.

A prática de uma atividade desportiva é um meio de integração num grupo, onde se promovem trocas e companheirismos, que ajuda a lutar contra o isolamento em qualquer idade.

Virtudes e defeitos. A timidez não é necessariamente um inibi- dor da expressão de personalidade. Numerosos comediantes, cantores, personalidades públicas provam-no aparecendo em cena para melhor ultrapassar urna timidez que os angustia. Exprimir-se sem receios é aceitar o risco de sermos postos em questão, de enfrentarmos a desaprovação e de nos mostramos tal qual somos, com virtudes e defeitos. Mas é também partilhar e enriquecermo-nos no contacto com o outro: sermos reconhecidos como uma personalidade, como um todo que vale a pena conhecer.

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Solteiros e Felizes

Da mesma forma que a sociedade mudou para acolher os solteiros por opção, também a nossa cabeça tem que mudar, especialmente se ser solteiro resulta do fim de um casamento em que predominou a união e a não individualidade. Estar solteiro pode ser uma experiência produtiva e feliz, se essa for uma escolha consciente.

Três rostos. Existem pelo menos três formas de encarar a condição de solteiro. A primeira engloba pessoas que se sentem envergonhadas por terem de admitir que continuam sozinhas. Mostram-se desesperadas e anseiam por um companheiro. São facilmente aterrorizadas pelo medo de não terem ninguém que as ame, o que as leva frequentemente à depressão e à insatisfação, distanciando-as cada vez mais de um relacionamento.

Outras apregoam os benefícios de viverem sozinhas, mas não dispensam uma noitada, uma saída com amigos. Muitas delas estão a mentir a si próprias e aos outros, porque na realidade sentem-se sozinhas e percebem que estão tão desesperadas quanto as que sentem vergonha por estarem sozinhas. Para algumas destas pessoas a necessidade de um companheiro pode esconder uma dificuldade de relacionamento consigo próprias. Sentem esta fase como uma interrupção numa área da vida que não devia parar. O medo de ficarem sozinhas leva-as a passarem por relacionamentos desagradáveis. E ao rejeitarem ficarem sós, estas pessoas defendem-se da confrontação consigo mesmas, com as suas qualidades e insuficiências.

Por último, existem pessoas que, mesmo não sendo solteiras por opção, sentem-se felizes e sabem lidar com esse estado saboreando cada minuto da vida. São a melhor prova de que ser solteiro não é sinónimo de solidão. Mas porque viver a sós pode não ser voluntário, há que aprender a ser solteiro. Por vezes as pessoas que se encontram novamente solteiras após um divórcio sentem um grande alívio e rapidamente desfrutam das vantagens dessa situação. São geralmente casos de pessoas separadas cujos casamentos foram de tal maneira absorventes quase constituíram verdadeiras barreiras à realização pessoal. Tal não significa que os casamentos sejam por definição um impedimento à realização pessoal ou que os solteiros sejam mais felizes que os casados, pois nenhuma destas situações é perfeita. Estar bem connosco enquanto solteiros envolve três estádios básicos.

Autossuficiência. Ter prazer em estar solteiro envolve a capacidade de experimentar tudo através de nós próprios, em vez de o fazer através do parceiro. Significa cuidarmos de nós, mas também compreendermos a nossa personalidade. É neste trabalho de introspeção a sós que melhor percebemos e podemos explorar as nossas necessidades, gostos e objetivos individuais.

Ser solteiro pode ser visto como um estado que permite o crescimento pessoal, especialmente entre a adolescência e o casamento. Ao contrário do que geralmente acontece, ser solteiro podia até ser reconhecido como um estádio de maturação do indivíduo e não um motivo de pena ou estranheza, até porque permite aprender os princípios da responsabilidade e da autossuficiência, características difíceis de concretizar quando estamos envolvidos numa relação entre pais e filhos ou marido e mulher.

Infelizmente, muitas pessoas não vivem esta importante fase. Saem de casa dos seus pais diretamente para a sua família recém-constituída sem sequer considerarem que podiam ser felizes como solteiros por algum tempo.

Viver objetivos. Quando se casam, muitas pessoas deixam para trás muitos objetivos por cumprir e isso pode prejudicar o casamento. Daí que muitas pessoas divorciadas ou viúvas aproveitem a sua nova condição para viverem os seus sonhos: viver sós, aprender a conhecer os ritmos próprios, diversificar e aumentar o número de namoros, conhecer outro tipo de amigos e interesses, aprender a viver e a cuidar de si.

Antes de nos envolvermos numa relação de longo termo ou num casamento, geralmente preocupamo-nos em conhecer o outro, do que gosta, como é, que características nos atraem ou afastam. Se isso é importante quanto a terceiros, também o deveria ser em relação a nós próprios. Ser solteiro é especialmente indicado para nos envolvermos no conhecimento de nós mesmos, eventualmente colocando-nos as mesmas questões que colocaríamos quando conhecemos outras pessoas.

Muitos de nós fomos de tal forma influenciados pela família, pelos amigos e pelas normas sociais que que muitas vezes temos dificuldade em aceitarmo-nos e conhecermo-nos tal como somos.

Gerir o tempo. Se o estado de solteiro é consequência de uma relação desfeita, o tempo extra que advém pode ter de se tornar alvo de uma verdadeira aprendizagem. Se antes da separação, especialmente no caso das mulheres, o tempo livre entre a casa, o emprego e os filhos era quase nulo, agora pode não ser. E a tarefa por vezes mais difícil de encarar nesta nova condição é encontrar o que fazer nas horas livres. Saber tirar partido de ser solteiro significa aproveitar a liberdade para criar um estilo de vida excitante e recompensador. E vivê-lo sem a preocupação de não ser exatamente o que o outro gostaria. As possibilidades estão apenas limitadas pela imaginação e determinação.

Com a liberdade de gerir o tempo vem a liberdade de ação. Mesmo que ser solteiro tenha inconvenientes em termos financeiros, pelo menos podemos sempre adaptar os nossos sonhos ao tamanho do orçamento.

 

 

 

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Terapia de Casal

Ao longo da sua história, todos os casais passam por dificuldades no seu relacionamento e as causas nem sempre se relacionam com fenómenos “estranhos”. Podem resultar de crises naturais do desenvolvimento da relação, de circunstâncias externas como o desemprego, doença de um familiar ou mesmo de fatores de personalidade de ambos os cônjuges. As pessoas procuram a terapia de casal por muitas razões e cada casal é diferente, mas as queixas mais frequentes são falta de comunicação, discussões constantes, necessidades emocionais que não são atendidas, problemas financeiros e conflitos com as famílias de origem. Estes são problemas presentes em quase todas as relações e o pedido de ajuda surge como o resultado do aumento da frustração e desapontamento que progressivamente se vai instalando. Outras causas prendem-se com situações de infidelidade, sensação de perda de afeto, carinho ou um acontecimento traumático, como, por exemplo, a morte de um filho.

Influências. Não é novidade dizer que o casamento, a relação a dois, constitui uma realidade complexa e desafiadora, compensadora e dolorosa. A natureza das relações acaba por ser fruto da forma como o casal lida com os diversos fatores que a influenciam. Por exemplo, os casais não tradicionais (sem filhos ou com elementos do mesmo sexo) têm que se disponibilizar para ultrapassar obstáculos adicionais para que a relação funcione.

A sociedade influencia a forma como os relacionamentos se vão estruturando e estes acabam por sofrer o impacto das mudanças ao nível social. Por exemplo, no contexto atual e na sociedade ocidental os casais constituem-se e vivem os seus relacionamentos esperando uma intimidade emocional e sexual intensa, igualdade de sexos e tolerância em relação à diferença. Se recuarmos algumas dezenas de anos, tal seria não só impossível como estranho. Contudo, constatamos alguma contradição entre esta liberdade de escolha e o número de divórcios e muitas vezes perguntamo-nos porquê?

Na realidade, as mudanças que têm acontecido na sociedade, mesmo as positivas, ocorreram a um ritmo que se tornou perturbador, na medida em que as pessoas levam tempo a integrá-las no seu modo de pensar e agir, gerando-se assim um conflito entre a tradição c a necessidade de integração face às regras da sociedade. Se em teoria gostamos de poder ser livres e escolher o nosso companheiro em função da existência ou não de um laço amoroso, a verdade é que temos dificuldade em transformar em atos o respeito pelo autodeterminismo sem nos sentirmos menos família, pois, afinal, o modelo que ainda está fortemente enraizado nas nossas mentes diz-nos que um casal tem prazer em partilhar tudo.

Por sua vez, as importantes alterações económicas que aconteceram na sociedade e que levam ao desemprego, à dificuldade de arranjar o primeiro emprego ou às reformas antecipadas exigem que o casal se adapte àquilo que são desvios à evolução normal do seu ciclo de vida. Encontrar empregos adequados e casas compatíveis é difícil para os jovens, que permanecem em casa dos pais quando deveriam procurar desenvolver os seus relacionamentos. Os seus pais podem ambicionar a sua liberdade ou estar a atravessar mudanças importantes na sua vida e têm que partilhar esses momentos num regime alargado, quando era suposto voltarem a ser apenas dois. Também os media promovem o consumismo e a ideia de que o casamento e a vida em família é relativamente feliz e livre de conflitos, criando uma enorme pressão devido a expectativas que se revelam inatingíveis. Como resultado, o stress emocional e económico acaba por cobrar a sua parte na relação.

Adicionalmente, cada um dos elementos do casal pode estar a atravessar vivências individuais complexas no seu crescimento psicológico e emocional, o que nem sempre encaixa à primeira na vida do casal.

O que é? Antes de mais, importa dizer que não existe um modelo ideal e universal para uma relação. A “boa relação” é aquela que funciona para os dois elementos do casal e lhes permite alcançar os seus objetivos, individuais e de conjunto. Se isso não funciona, não significa necessariamente que o casal necessite de terapia.

Todas as relações passam por momentos difíceis e as fases de crise são também momentos privilegiados para o crescimento e introdução de novas regras de funcionamento. No entanto, um ou os dois elementos do casal podem sentir- se continuamente insatisfeitos, frustrados, incompreendidos e se não foi possível resolver os assuntos de forma aceitável para ambos, então é altura de pedir ajuda profissional.

A terapia de casal é um meio de resolver problemas e conflitos que os casais não conseguem trabalhar de forma eficaz entre si. Envolve os dois elementos na presença de um psicoterapeuta com treino específico para conversar com eles os seus pensamentos, sentimentos e emoções acerca da relação. O objetivo é permitir que cada um consiga um melhor entendimento de si e do seu parceiro, para decidirem se precisam ou querem fazer mudanças e, se assim for, ajudá-los a estabelecer e atingir objetivos.

Esta forma de terapia envolve apenas o casal. Podem discutir-se situações relacionadas com os filhos, mas sem a presença deles. Pretende-se que o casal possa desfrutar de um espaço e de um tempo para cuidar de si, longe das interferências dos filhos ou das famílias de origem. A terapia que envolve pais e filhos desenrola-se de forma diferente e geralmente é conhecida por terapia familiar.

Mediador. O papel do terapeuta é ouvir os intervenientes e ajudá-los a identificar e clarificar áreas problema. Começa por perceber como cada um vê o problema, qual a história do relacionamento e os aspectos relevantes da história com as famílias de origem. Após a discussão e avaliação da situação, é proposto um plano terapêutico. O terapeuta actua quase como um mediador, tentando, por exemplo, clarificar mal-entendidos na comunicação, promovendo novas formas de olhar para situações aparentemente sem saída.

Novas perspetivas resultam numa mudança de sentimentos e comportamentos, o que permite lidar com as dificuldades e criar disponibilidade para novas formas de estar.

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Amigos de Infância

Falar de amigos de infância é falar de um laço único que resiste ao tempo e à distância. Quantas vezes não nos encontramos com amigos de infância apenas para recordar aventuras inconfessáveis, como quando, por exemplo, conspirámos para ir à discoteca, pregar uma partida à professora de quem não gostávamos… Passaram-se só, 30 anos, mas, no entanto, estas memórias continuam tão vivas e emocionantes como se tivessem acontecido ontem.

Entre amigos de infância é frequente associar memórias a emoções fortes. Na verdade, trata-se de relações cimentadas durante a primeira infância, fortemente ancoradas na nossa memória e daí serem lembradas de forma tão intensa.

Na infância. A infância é um momento privilegiado para fazer amigos e as nossas primeiras e verdadeiras amizades iniciam-se entre os três e os seis anos de idade. Mas por que razão escolhemos os amigos que escolhemos? Na verdade, a seleção do nosso leque de amizades não é fruto do acaso. Ao eleger um amigo, a criança assume- se e inicia o seu processo de autonomização da família, com a qual não tem uma relação tão globalizante como a que tem com um amigo especial. No fundo, é ele o companheiro privilegiado de jogos e a melhor proteção para iniciar outras relações afetivas. Esta amizade vai enriquecer a sua visão do mundo e, muitas vezes, imprimir a coragem necessária para arriscar um pouco mais na descoberta do que está à sua volta. Mas não só. Nestes relacionamentos intensos, as crianças testam a capacidade de desempenhar papéis da vida de adulto, como o amor, o ciúme, a traição e o perdão. Preparam-se, assim, para enfrentar o longo processo que os aguarda de crescimento e interação com os outros. O período da adolescência faz-nos valorizar ainda mais esta relação de amizade. Num momento em que muitos aspetos da nossa vida parecem ter entrado em mudança e em que as crises de crescimento são dolorosas, este amigo é uma espécie de porto seguro.

Quantas vezes, depois de uma discussão em família, por exemplo, reconsiderámos a nossa posição conversando, barafustando e deixando sair toda a raiva com esse amigo? O conhecimento desenvolvido ao longo dos anos permite- nos confidenciar as fantasias mais estranhas e os desejos mais profundos.

Amizade ou amor? Na idade adulta é frequente elegermos o nosso amigo de infância para desenvolver projetos profissionais, justamente por se tratar de uma pessoa em quem confiamos incondicionalmente. De um modo geral são experiências bem conseguidas e não é raro encontrar empresas de sucesso que começaram baseadas nesta forma de amizade.

Se o sucesso profissional é frequente, o mesmo não se pode dizer no que respeita a relações amorosas. O amigo de infância pode ser do sexo oposto e a tentação de ir mais além neste relacionamento pode acontecer. Pode mesmo pôr- se a hipótese de casamento. Geralmente não funciona. À partida, a confiança e o conhecimento do outro seriam mais-valias para que tudo desse certo, mas a rutura que geralmente acontece advém precisamente da falta de novidade junto de alguém que conhecemos bem, muitas vezes em facetas que podemos aceitar enquanto amigos mas que temos dificuldade em integrar numa vida a dois. O relacionamento amoroso tem melhor prognóstico quando é assente numa boa amizade, mas uma grande proximidade prévia por vezes é de mais.

Alimentar a amizade. “Para além do tempo e da distância” poderia ser um lema associado às amizades de infância, mas nem sempre o ditado se confirma. Se queremos que a amizade perdure, temos que saber alimentá-la para que consiga sobreviver a períodos de separação. Existem momentos mais ou menos longos, mais ou menos definitivos, em que o nosso melhor amigo é posto “fora de jogo”. A intensidade e especificidade desta relação pode ser abalada pela complexa rede de relações que vamos estabelecendo ao longo da vida. E a promoção social é frequentemente a razão de uma rutura. A dificuldade de conjugar outras amizades, a alteração de valores e modos de estar resultam num afastamento definitivo.

Contudo, nalguns casos esta amizade mantém-se clandestina, resistindo num espaço de intimidade que é só nosso e que não partilhamos ou deixamos invadir por ninguém, nem mesmo pelo nosso companheiro. É como se fosse uma bolsa de oxigénio que nos permite retemperar forças, encontrar outras formas de encarar a vida e da qual não abdicamos.

Há quanto tempo! Outra característica das amizades de infância é resistirem à distância e ao tempo. Acontece perdermos o rasto do melhor amigo por dez anos, mas um novo encontro tem a atualidade de “como se nos tivéssemos visto ontem”. Paradoxalmente, tal significa que a relação evolui. É uma relação inteligente que mantém um forte laço afetivo e nos permite estar próximo do outro. É suficientemente flexível e curiosa para acolhermos as diferenças do outro como ponto de interesse que vale a pena descobrir.

A importância de um amigo de infância e de uma rede de amigos tem sido demonstrada em diversos estudos e traduz-se por melhor saúde física e melhor bem-estar psicológico. O que não é de estranhar, já que são estes amigos que nos dão suporte emocional, conselhos e ajuda prática, aliviando muito o stress da nossa vida de cada dia.

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Amor Platónico

O amor platónico ou o amor idealizado deve o seu nome a Platão (350 a.C.), filósofo grego que acreditava na existência de dois mundos: o das ideias, onde tudo era perfeito e eterno, e o mundo real, finito e imperfeito, cópia mal acabada do mundo ideal.

Nesse sentido, viver um amor platónico é viver em dois mundos simultaneamente: um onde estamos sozinhos e outro onde namoramos, somos felizes e realizados com a pessoa perfeita que é objeto do nosso amor.

Amor impossível. Este tipo de amor baseado no impossível envolve a mistificação do ser amado, que é geralmente colocado numa posição inatingível. Ocorre muito frequentemente durante a adolescência e em jovens adultos, principalmente em pessoas mais tímidas, introvertidas e que sentem mais dificuldade em aproximar-se de quem amam. A insegurança, imaturidade e inibição emocional estão muitas vezes na origem deste comportamento. A forte idealização do objeto amado gera o medo de não atender aos seus anseios, o que contribui para amar à distância e impede viver a experiência não só de amar mas também de nos sentirmos amados, não só de cuidarmos e nos preocuparmos mas também de nos sentirmos acolhidos e amparados. Esta troca de experiências emocionais é que permite o sentimento de que amar vale a pena, com a vantagem acrescida de poder ainda ajudar a superar conflitos e dificuldades do quotidiano.

Amar por medo. Muitas vezes as pessoas têm um amor platónico por medo de sofrer. Isto porque preferem viver um amor que nunca irá realizar-se do que lidar com os eventuais desapontamentos e tristezas inerentes à relação. Nada disto é necessariamente mau ou errado, desde que saibamos racionalmente que aquilo que julgamos ter não existe, até porque o outro desconhece totalmente os sentimentos que alguém nutre por ele.

A maioria das pessoas fantasia acerca das relações amorosas: “Um dia encontrarei o par ideal, que será capaz de me compreender, sem discussões, onde a compatibilidade será perfeita.

A magia do amor estará sempre presente e a paixão será eterna.” A realidade das relações amoro­sas, no entanto, é muito diferente. Todo o processo de namoro é uma situação tremendamente arrisca­da. Somos e sentimo-nos postos à prova, principalmente se aceitar­mos darmo-nos a conhecer tal co­mo somos, o que significa arriscar sermos amados, mas também re­jeitados. E a rejeição não é fácil de aceitar.

Uma relação amorosa é uma das melhores oportunidades de cres­cimento pessoal. E não há cres­cimento que não implique sofri­mento. Todavia, também inclui uma felicidade enorme. Tal co­mo noutras situações da nossa vi­da, aquilo que obtemos depende da vontade de lutar por essa relação, arriscando-nos a deixar o nosso “lugar seguro”. Geralmente, antes do fim do primeiro ano de relacionamento, os

elementos do casal começam a experimentar as primeiras discussões, desentendimentos e dificuldades. É normal. Resulta da necessidade de estabelecer regras de conduta na relação. A cultura familiar de cada elemento do casal permite-lhe crescer com regras, que são forçosamente diferentes do outro. Mas estas funcionam a um nível inconsciente, e muitas vezes não nos damos conta que estamos a tentar impô- las ao outro.

Herança cultural. Recordo a este propósito um casal constituído por um português e uma alemã, onde o trabalho inicial da terapia consistiu em perceber como a “importância de dormir com a roupa da cama entalada ou solta” não resultava da má vontade do outro, mas de uma herança cultural (para uma alemã, que geralmente dorme com um edredão não fazia sentido dormir presa pela roupa. Mas muitos de nós recorda como a mãe, na hora de irmos dormir, nos vinha aconchegar na cama, entalando a roupa debaixo do colchão).

Sem nos darmos conta, mantemo-nos fortemente leais à cultura e crenças da nossa família de origem e, geralmente, cada um acredita firmemente que a sua abordagem é a mais correta.

Este é um período importante na construção de uma relação. É frustrante e doloroso. Obriga- nos a fazer cedências, a olhar para o outro, não como o ser perfeito que imaginámos, mas alguém que “não nasceu ontem à espera de ser moldado pelo outro” e que tem uma história.

Arriscar e crescer. Todas as relações começam por ser platónicas. Todos os namorados começam por ser idealizados, imaculados. Mas tal como não podemos permanecer eternos adolescentes, necessitamos de nos envolver com o outro para podermos crescer.

Crescer também é arriscar. Se estivermos dispostos a arriscar, podemos crescer e tirar o prazer de desfrutar de uma relação amorosa dinâmica e partilhada.

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Medo de ser feliz

Todos procuramos ser felizes e, no entanto, raramente atingimos aquilo a que chamamos felicidade. Porque será este um objetivo raramente conseguido? Será a felicidade uma experiência tão complexa ou estranha que só é acessível a seres excecionais? E quando acedemos a ela, somos capazes de a reconhecer?

Aparentemente não existe uma definição universal de felicidade. Cada um é feliz à sua maneira, de acordo com as suas aspirações, necessidades e dificuldades. Assim, por exemplo, para aqueles que ficaram sozinhos, a felicidade pode passar por encontrar um companheiro que preencha mais ou menos as suas expectativas. Outras pessoas pensam que não teriam dificuldade em atingir a felicidade se ganhassem o euromilhões.

A nossa definição de felicidade pode mesmo mudar consoante as situações: quando somos atingidos por uma doença, parece-nos que a felicidade passa pelo bem-estar relativo em que nos encontrávamos antes, mas quando nos sentimos profundamente cansados uma boa cama seria o suficiente para nos tornar felizes.

Por toda esta relatividade, não é de espantar que seja tão difícil perceber quando atingimos a felicidade: é impossível defini-la de modo absoluto e verdadeiro para todos. Não há um padrão.

Cumprir. A felicidade não é de facto uma realidade estática, pois os seus conceitos e definições são bastante numerosos e variados. Este estado de alma não é de beatitude aprazível, durável no tempo ou uma satisfação total e definitiva. É sim uma experiência em que proliferam sentimentos e emoções, com uma forte intensidade e de sinal positivo. É algo intrinsecamente vivido, e como tal mutável. Mais detalhadamente, a felicidade depende da satisfação das nossas necessidades mais importantes. Mas como estas mudam continuamente, a experiência que procuramos é sempre diferente daquela que aconteceu na vez anterior.

Ainda, a felicidade não aparece de forma gratuita nem cai do céu: ela ganha-se e merece-se. O sentimento de ter cumprido algo de importante a que nos propusemos, é uma das facetas fundamentais da sensação de felicidade, pois contribui em muito para uma autoestima saudável.

Pessimismo. No final do século XIX, Freud denominou de expectativa angustiada a tendência de que a partir de um facto esperarmos sempre o pior. Entre várias situações, referiu o de uma mulher que sempre que o marido tossia, imediatamente pensava e agia como se este estivesse em vias de contrair uma pneumonia fatal. No entanto, salientou que nestes casos este tipo de angústia ultrapassava a simples tendência para o pessimismo plausível.

Encontramos com frequência pessoas que ultrapassam estes limites e que desenvolvem uma neurose marcada pela incapacidade para ver o lado bom das coisas. É como se para estas pessoas o ambiente externo fosse uma projeção daquilo que está dentro de si. Desta forma, o mundo passa a ser percebido como mau e ameaçador, enquanto que a pessoa se resguarda na posição de vítima.

Esta posição traz, aparentemente, algumas vantagens: atrai atenções, permite que adoptemos uma posição mais infantil caracterizada pela dependência, pelo desamparo e pela necessidade de cuidados dos outros.

É possível que a nossa tendência para competir na desgraça seja, no fundo, uma espécie de disputa pelo lugar de vítima, de incapaz e de impotente para assumir a responsabilidade pela própria vida. Obviamente é mais fácil atribuir as culpas dos nossos males a causas externas do que admitir a nossa simples incapacidade ou apenas falta de vontade.

Insatisfação. Para algumas pessoas, parece não haver escolha. As suas experiências de vida, a impossibilidade de desenvolver uma boa autoestima, o vazio que se criou, fazem de algumas delas pessoas constantemente insatisfeitas consigo e com os outros, ainda que o grau de exigência para si e para os outros seja sempre demasiado elevado.

Se observarmos com atenção aqueles que nos rodeiam, para não falar de nós próprios, existe, igualmente uma grande dificuldade em aceitar o que é bom. Muitos são aqueles que não conseguem aceitar um elogio, receber um presente sem sentir estranheza, sem saber como reagir. Experimentam um certo desconforto, como se as coisas boas apenas estivessem ao alcance dos outros. As questões da autoestima, do mérito, as dúvidas quanto ao ser ou não ser verdadeiramente amado e aceite, são as variáveis que fazem pender o nosso julgamento para uma visão mais ou menos favorável. Por outro lado, não podemos esquecer o factor cultural que enfatiza a ideia de que temos que ser bons para merecer coisas boas, como se a felicidade fosse algo exclusivamente exterior. E como temos consciência de que não somos perfeitos, acabamos por cultivar uma crença interna de que não merecemos o bom que nos acontece.

A verdade é que todos ambicionamos saúde, realização pessoal ou harmonia familiar. A dúvida é se não boicotamos com frequência a nossa vida baseados em crenças infundadas ou no medo de sermos felizes, por não sabermos o que fazer com este sentimento que achamos desconhecer. Correndo o risco de estar a recorrer a um cliché, está quase tudo dito na expressão “a felicidade não se compra no supermercado, mas cultiva-se no jardim”.

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Ciúme

Todos nós conhecemos ou vivemos histórias de ciúme pois não dizem respeito apenas às relações amorosas. O ciúme pode estar presente em qualquer tipo de relacionamento e a minha experiência como terapeuta prova isso mesmo.
Pedro, um exemplo comum, tem atualmente 33 anos e assume que lidou com o ciúme em quase todos os relacionamentos que teve. Para ele, o ciúme e uma experiência que remonta aos seus primeiros anos de escolaridade. Não só se mostra ciumento com a sua companheira atual, como com os seus amigos e colegas de trabalho. Faz o melhor que pode para esconder esta sua faceta, mas quando o ciúme ataca dá-se conta de que faz comentários e tem atitudes que invariavelmente vem a lamentar depois. Por vezes opta por se retirar e torna-se distante, como forma de tentar manter estes sentimentos extremamente dolorosos para si mesmo. O Pedro, quando me procura, sente-se profundamente frustrado, sem saber como proceder.

Ana e Vasco, outros exemplos, estão casados depois de cada um ter passado por divórcios relativamente calmos, que lhes permitiram a manutenção de um bom relacionamento com os ex-cônjuges. Vasco não teve filhos, mas Ana tem dois rapazes do casamento anterior. As queixas do casal relacionam-se com a incapacidade de Ana para lidar com o que considera serem os ciúmes do Vasco em relação aos dois miúdos. Nada tem a ver com o pai das crianças, mas com o tempo que a Ana dedica aos filhos. Ana começa a ver como única saída um novo divórcio e por isso consegue que Vasco valorize a questão e venham juntos à consulta.
Muitas vezes a procura de ajuda só acontece quando o parceiro se cansa da falta de confiança, dos infindáveis interrogatórios, dos gritos, das constantes acusações injustificadas e, por vezes, de uma intensa violência, psicológica ou mesmo física.
A iminência ou a concretização da perda faz muitas vezes com que o ciumento descubra da forma mais dolorosa que afinal nunca controlou nada, não evitou a perda, nem se mostrou insubstituível.

Onde começa o ciúme? Enquanto crianças todos começamos por acreditar que somos o centro do universo e que a nossa mãe é exclusivamente nossa. Podemos dizer que o primeiro ciúme que sentimos se refere ao momento em que tomamos consciência da existência do nosso pai, que passa a ter existência real e que, de alguma forma, nos “rouba” a nossa mãe.
Um outro momento importante que nos pode levar a sentir ciúmes tem a ver com o nascimento de um irmão mais novo. O amor e o colo, o carinho e atenção que até aí eram só nossos passam para este irmão mais novo e, muitas vezes, de uma forma muito intensa. Enquanto crescemos, quanto mais nos sentirmos seguros do amor dos nossos pais ou das figuras que os substituem e são igualmente importantes, mais nos sentimos imunes ao medo de uma futura perda, ainda que nem mesmo os pais mais atentos e dedicados nos possam proteger. Ou seja, é necessário ao nosso crescimento sabermos lidar com o sentimento de perda, não permitindo que a ausência do outro nos faça desaparecer ou sentir desvalorizados enquanto pessoas.
Não levamos muito tempo a perceber que o ciúme é um sentimento negativo mas, tal como as outras emoções que não podemos simplesmente eliminar, aprendemos a introjetar esse sentimento nefasto e a virá-lo contra nós próprios ou a virá-lo contra o objeto dos nossos sentimentos.

No primeiro caso o ciúme pode converter-se em auto-repulsa levando-nos a acreditar que não somos merecedores de amor ou, até, incapazes de obter o que desejamos da vida e, como tal, desistimos de tentar transformando-nos numa espécie de vítimas. Já o ciúme exteriorizado degenera com frequência em raiva. Interiorizamos os sentimentos maus e projetamo-los sobre a pessoa que julgamos ter roubado o nosso amor. E a raiva ciumenta pode destruir uma amizade, dar cabo de um amor e, em casos extremos, matar uma pessoa.

Afinal o que é o ciúme? O ciúme surge como um mecanismo inconsciente que procura controlar e reter o outro só para si. Tudo o que não se encontra dentro da relação simbiótica passa a representar uma ameaça para o parceiro que não suporta a ideia de ser abandonado.

No entanto, o ciúme é a expressão de uma emoção e, como tal, é normal senti-lo.
A habilidade reside em não nos deixarmos dominar por ele, tentando, pelo contrário, dominá-lo, controlando os comportamentos a ele associados para que não cause danos irreversíveis à pessoa e/ou ao relacionamento.
Está ligado a influências culturais, sociais e à história de vida de cada um.

O sentimento maior que motiva o ciúme é a desconfiança. Mas existem outras características de personalidade que estão presentes de forma mais ou menos vincada no ciumento. A necessidade de posse é um dos traços fortes do ciúme. Quem ama é capaz de dar espaço ao outro, de respeitar a sua individualidade não se sentindo ameaçado pela presença de terceiros. O medo de perder o ser amado para outra pessoa também pode ser devastador. Muitas vezes uma baixa auto-estima e falta de aceitação tal como somos, faz com que a pessoa se sinta diminuída e em constante perigo de ser trocada por outra mais interessante.

O egoísmo é uma das marcas mais gritantes de um ciúme doentio. Por oposição ao amor altruísta, estas pessoas são capazes de expressar sentimentos como “prefiro ver a minha mulher morta do que vê-la a viver com outro!”. Na realidade quando o ciúme nos toma nas suas garras, parece que o coração não nos cabe no peito, a respiração torna-se dolorosa enquanto lutamos para trazer um pouco de ar para os pulmões e as nossas emoções parecem oscilar entre uma raiva incontrolada e o pânico total. Este desequilíbrio no sistema nervoso faz aumentar o nível de adrenalina, interfere na dinâmica dos neurotransmissores e faz parecer que tudo desaba dentro do nosso corpo, rompendo-se o equilíbrio do bem-estar.

O ciúme hoje. Um dado interessante é o de que o ciúme parece estar cada vez mais presente nos relacionamentos actuais. No entanto não é uma doença contagiosa que se possa pegar através do contacto com os outros.
O estatuto do homem e da mulher tem vindo a alterar-se de forma muito intensa nas últimas décadas. Existem, especialmente para as mulheres, oportunidades de sucesso e realização profissional baseadas no seu próprio mérito. Ou seja, quer para a mulher como para o homem aumentaram as possibilidades de escolha. Hoje em dia as mulheres podem escolher ter uma relação, que condições esta deve ter para durar, se têm ou não filhos ou se investirem mais na carreira.

Mas se, por um lado, estas conquistas trouxeram mais-valias na relação homem/mulher, por outro também potenciaram a insegurança e o medo de perder o outro.
Atualmente são as pessoas que afirmam não conseguir lidar com a perda que mais facilmente se mostram ciumentas. Por oposição, aqueles que aceitam que existe sempre a possibilidade de perdermos aquilo que consideramos precioso e que sabem que tudo é efémero, que tendem a tirar melhor partido daquilo que vivem no presente: valorizam a relação, minoram as dificuldades, trabalham em equipa e aprendem com os outros.

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Amores de Verão

O período estival é sinónimo de liberdade do corpo e do espírito. Sinónimo de despreocupação, as férias são, para muitos, ricas em aventuras e encontros amorosos. Mas serão estes amores feitos para durar?

Mais do que a Primavera, o Verão é, por excelência, a época dos amores. E a razão por que isso acontece não deriva do acaso. Existem diversas teorias e condicionantes que parecem contribuir.

Redescobrir o corpo. Durante o ano os relacionamentos amorosos têm falta de sensualidade. As inquietações, o stress e a fadiga são os piores inimigos do desejo e a chegada do Verão revela-se o momento ideal para acordar uma libido adormecida pelos dias mais frios. O corpo, finalmente descoberto das roupas de Inverno, revela-se nas suas formas, cores e odores que despertam sensações e atracções. Geralmente apresentam-se peles bronzeadas, sem rugas de preocupações, distendidas pelo conforto da liberdade de movimentos.

Associada a esta exposição corporal parece estar a teoria que diz sermos ainda influenciados pelas feromonas, hormonas associadas à atração e disponibilidade sexuais, especialmente importantes nos animais não racionais. Para nós terão passado para segundo plano, mas muitos cientistas creem que ainda têm um papel muito importante nos mecanismos de atração entre humanos.

Verdade ou não, o que parece é que o calor favorece a libertação de odores corporais que incluem estas hormonas a que inconscientemente continuamos sensíveis.

Tempo livre. Suspender a monotonia do quotidiano, interromper rotinas, autorizar-se a fazer nada, tirar partido das horas extra de luz, sair e passear, tudo nesta altura parece contribuir para reencontrar o gosto e a disponibilidade para estar com outras pessoas. A época de Verão é eleita pela maioria de nós para gozar as merecidas férias grandes. Sem imposição de horários, esquecemos os pequenos males do quotidiano que nos deixam de mau humor e subitamente descobrimos ter tempo para cuidar de nós, o que nos deixa agradavelmente felizes e bem dispostos. Interessa-nos pouco mais do que o dia-a-dia e mesmo as situações sociais daqueles que conhecemos são irrelevantes. Provavelmente travamos conhecimento com pessoas que nos agradam, mas que em circunstâncias normais nunca teríamos conhecido. A rotura do momento propicia a união de duas pessoas que fora deste tempo certamente nunca se encontrariam. O que conta é o prazer de estar junto.

Uma questão de luz. O sol influencia todos os nossos comportamentos. Dependemos totalmente da sua luz para o nosso metabolismo e biorritmos. Em países em que predominam as horas de luz e a presença do sol a expressão emocional é mais expansiva, como nos países latinos, enquanto que nos países do Norte da Europa, por exemplo, com menos horas de sol, essa característica é mais contida.

Estas são algumas das condições que o Verão e as férias reúnem para que o amor “ande no ar”, especialmente o amor romântico, efémero por natureza. Mas raramente estes amores perduram até à estação fria. Ainda que o amor de Verão seja intenso e muitas vezes recíproco, raramente resiste à prova do tempo, da distância e da realidade. Quando estas contingências regressam, muitas vezes assistimos a verdadeiras transmutações do outro. Aquele que tinha agradado pela sua espontaneidade, alegria de viver e capacidade de aventura modifica-se radicalmente. O seu penteado torna-se mais formal, as suas roupas transformam-se em verdadeiras carapaças, máscaras que tem de envergar para enfrentar a sua profissão.

Apenas alguns encontros extraordinários parecem resistir ao fim do Verão. Mas serão eles capazes de resistir à distância?

Longe da vista. Além do Verão ter acabado, a distância geográfica também é uma realidade em muitos amores de Verão e pode ser uma vantagem que ajuda a manter uma relação que tanto prazer deu, não só porque mantém o drama, como evita o desgaste. Permanece a incerteza, a impaciência da espera de um sinal do outro. A alegria dos reencontros predomina e muda o humor, pois são tão raros que há que aproveitá-los bem.

A distância tem ainda a virtude de não favorecer a rotina. Estar fora de contacto impede que os hábitos de casal se instalem, tornando cada encontro uma oportunidade para novas descobertas. Os assuntos de conversa nunca se esgotam. Mais: esta distância permite continuar uma vida de celibatário, sem a necessidade de estar comprometido ou de fazer cedências imediatas.

Suspender a monotonia do quotidiano, interromper rotinas e autorizar-se a fazer nada, tudo no Verão parece contribuir para reencontrar o gosto e a disponibilidade para estar com outras pessoas.

E evita discussões, porque raramente os elementos do casal estão em “dia não”. Vêem-se tão pouco que não faz sentido estragarem tudo com críticas ou desentendimentos.

Mas o reverso da medalha existe e revela-se quando impede a criação de hábitos de partilha característicos e necessários numa vida de casal, como, por exemplo, conhecer verdadeiramente a pessoa por quem nos apaixonámos no Verão. Mesmo que a maioria dos romances de Verão não dure, a verdade é que não nos devemos privar deles, até porque nos permitem aprender a conhecer e experimentar outras características que desconhecíamos em nós.

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Lidar com a Doença Crónica

O diagnóstico de uma doença crónica obriga sempre a mudanças inevitáveis no estilo de vida do doente, de maneira a garantir não só a sobrevivência mas também a qualidade de vida. Independentemente da doença diagnosticada, este é sempre um momento de crise. Um desafio importante para o doente crónico é aderir a um tratamento que irá manter por toda a vida, o que para muitos vem reafirmar a sua condição de pessoa doente.

A família. A experiência do diagnóstico acaba inevitavelmente por ser partilhada pela família, pelos amigos e por todas as pessoas próximas do doente. Existe aqui uma dupla componente muito importante, pois os comportamentos adotados pelo paciente face à doença e as relações que estabelece a partir daí dependem da capacidade de adaptação da família às mudanças decorrentes do diagnóstico.

A doença tem estádios de evolução que influenciam as diferentes formas de lidar com ela: a fase aguda, a crónica e a terminal. A fase aguda é aquela que tem mais poder para mobilizar toda a família. Nestes momentos não é difícil encontrar diversos membros da família disponíveis como cuidadores. Já quando se estabelece a fase crónica, geralmente apenas um é designado para o efeito e é geralmente ele que acompanha o doente até à fase terminal.

As crises resultantes da convivência com uma doença crónica resultam muitas vezes da dificuldade que a família tem em adaptar-se ás mudanças naturais do ciclo de vida. Imaginemos uma situação em que um jovem adulto pronto a deixar a casa dos pais é inesperadamente diagnosticado com uma doença crónica. O momento do ciclo de vida desta família diz-lhe que está pronta para deixar o seu filho sair de casa e viver os dilemas do “ninho vazio”. Por sua vez, para este rapaz o momento ansiado de iniciar uma nova família fica comprometido.

Naturalmente, os pais procurarão cuidar do filho doente tal como cuidariam se ele fosse pequeno. O filho que se “treinou” para construir uma relação em que o controlo dos pais fosse cada vez menor pode ressentir-se desta atenção e cuidados, rebelando-se e adotando comportamentos que podem comprometer a sua saúde, tais como não fazer a medicação de forma adequada.

As famílias são, contudo, o recurso mais valioso para o entendimento e cuidado da doença crónica. Os médicos não tratam a doença, apenas recomendam tratamentos que devem depois ser seguidos pelo paciente e a sua família, de forma a mantê-lo equilibrado e com qualidade de vida. Os elementos da família e os profissionais de saúde precisam de estar atentos aos sintomas, à medicação e aos tratamentos em ambulatório e ainda providenciar suporte emocional. Acontece com frequência que estas tarefas recaem apenas sobre um membro da família, geralmente aquele que está mais próximo da doente.

O casal e a doença. Provavelmente acontecerá a todos os casais um dos cônjuges adoecer de forma crónica. O primeiro desafio que se coloca, para além do da doença, é lidar com os sentimentos que esta desperta. A cólera, a negação, a culpa, o medo, o desgosto e a preocupação com os filhos irão sobressair num momento em que, mais do que nunca, a atenção ao outro é necessária.

Quando os cuidadores são o marido ou a mulher, muitas vezes acontecem mudanças importantes na relação de casal. Por exemplo, as responsabilidades que antes pertenciam ao cônjuge doente passam a ser assumidas pelo cuidador. Tal pode envolver aprender novas competências num momento em que existe menos energia e disponibilidade mental. Muitas vezes sentimos que a inversão de papéis é frustrante e causadora de tensões numa relação já de si difícil. Existe também a perda de atividades que foram fonte de prazer, o que pode conduzir ao isolamento dos amigos ou a uma culpa muito intensa quando, ao satisfazer as necessidades de convívio, o cuidador sente que está a “trair” o doente.

Se a comunicação entre o casal se perde durante a doença, o relacionamento também se irá perder. A intimidade altera-se, o tema doença invade toda a vida do casal, mesmo enquanto pais, e ao deixar controlar-se por ela o casal corre o risco de estagnar o desenvolvimento da relação.

Outro problema que o casal enfrenta é a gestão das emoções e sentimentos decorrentes de necessidades emocionais não satisfeitas. A promoção do diálogo franco e aberto, sem mal entendidos e preconceitos, poderá ajudar a manter uma relação saudável.

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Como a família de origem está presente no nosso casamento

Quando casamos e temos filhos, os nossos pais continuam a influenciar-nos. Os pais influenciam os filhos e mães as filhas. Quer tenhamos consciência disso ou não o exemplo que provém dos nossos pais influencia-nos profundamente na forma como tratamos os nossos companheiros e educamos os nossos filhos.

São muitos os exemplos que cada um de nós poderia evocar mas recordo aqui o de Jorge. No final de um dia de trabalho, este cliente gostava de chegar a casa sentar-se no sofá, ler o seu jornal, ver a televisão. Contudo o jantar precisava de ser preparado, os filhos precisavam da ajuda do fim de dia, a casa precisava de um jeito. Teresa, a mulher também trabalha fora e queixava-se que a sua profissão é tão cansativa quanto a do Jorge.

As queixas da Teresa prendiam-se com o desejo de ver o Jorge participar na vida familiar.

O Jorge é uma pessoa com um sentido de justiça ajustado que considera este pedido da Teresa perfeitamente razoável. Contudo, uma outra parte  dele como que lhe recordava constantemente que este não era o papel do homem.

Para o Jorge, cuidar da casa é trabalho de mulher. Muitas vezes era assaltado pela ideia “Mas quem ela pensa que é para mandar em mim?” Para este cliente assentir nos pedidos da mulher era humilhar-se e sentir-se menos homem. Contudo, e porque gostava profundamente da mulher, percebia-se num intenso conflito.

Se por um lado fazia o que lhe era pedido, também o fazia de má vontade o que criava uma atmosfera muito desagradável em casa, um dia após o outro.

Mas realmente onde estava o conflito? De uma forma imediata, o conflito parece estar no casal. Contudo se olharmos com mais atenção o conflito real situa-se entre o Jorge e o seu pai, mais propriamente a personalidade do Jorge e os valores adquiridos do seu pai relativamente ao papel do homem num casal.

O Sr. Manuel, pai do Jorge, foi descrito como autoritário, um “homem á antiga”, para quem “as mulheres são para estar na cozinha”, que o filho aprendeu a temer, mais do que a respeitar. Para o Sr. Manuel o valor do trabalho do homem e da mulher eram duas coisas completamente distintas. O papel do homem era garantir o ganha-pão da família, coisa que ele soube fazer com muito empenho e dedicação, coisa de que o Jorge falava com muita admiração.

O Jorge é o único rapaz de uma frateria de seis em que os outros filhos são raparigas. Ele é o 5º. Como é fácil de perceber não só foi muito protegido pelas irmãs como foi acolhido pelo pai como o seu “protegido” a quem foi passado um testemunho familiar especial, como dizia o meu cliente “coisas de homens”. Estas não incluíam o cuidar da casa ou dos filhos.

Quando o Jorge concordava com a Teresa e a ajudava com as coisas da casa e dos miúdos, sentia-se culpado, traidor de uma tradição familiar, que estava a ser desleal ao seu pai.

Durante o trabalho terapêutico foi possível compreender de onde vinham estes sentimentos e estas ideias. A certa altura ficou claro que as aprendizagens internalizadas durante o seu crescimento o levaram a este conflito interno, expresso pelo conflito com a Teresa. Na realidade o Jorge rapidamente percebeu que o seu conflito decorria do sentimento de estar a trair os valores do pai, que ele próprio já não conseguia assumir como seus.

Resolver este tipo de situação não é fácil, exige tempo e a capacidade do casal perceber as heranças trangeracionais.  Contudo, para a Teresa e para o Jorge, foi muito importante compreender a raiz do conflito.

Este é apenas um exemplo dos muitos que podia trazer aqui para ilustrar a profunda influencia que os nossos pais têm nas nossas atitudes tanto como cônjuges como pais. O casamento dos nossos pais influencia o nosso. A forma como fomos educados influencia a forma como educaremos os nossos filhos.

Nem sempre se trata de um legado positivo, e enquanto não tivermos consciência da sua existência manter-se-á fora do nosso controlo. Enquanto não o compreendermos, estamos condenados a repetir cegamente o comportamento dos nossos pais a rejeitá-lo totalmente. Contudo, podemos deliberadamente considerar os diversos aspectos e dimensões dos papeis de esposa/o e mãe/pai que vimos desempenhar, seleccionando conscientemente aqueles que a nós melhor se adaptem. A compreensão dá-nos alternativas onde antes não existiam.