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Geração Canguru

Os anos 70 e 80 caracterizaram-se pela procura de independência e autonomia dos jovens perante os seus pais. Hoje, no entanto, muitos jovens adultos não vivem como os pais. Vivem com eles.

Ao contrário do que se passou há algumas décadas, encontramos hoje jovens adultos na casa dos 25, 30 anos, solteiros a viver em casa dos pais e sem pressa de lá sair. Es­ta nova situação passou a vigorar de forma natural a partir do mo­mento em que os sonhos, objec­tivos e anseios de independência tradicionais dos jovens — que pas­sam por conquistar autonomia fi­nanceira, ter casa própria, casar e ter filhos — deixaram de ter a im­portância de antes. Assim, o que parecia estranho há 4o anos atrás — jovens adultos com mais de 25 anos a viver com os pais — é hoje culturalmente aceite. O crescente número de divórcios também con­tribui para esta realidade, uma vez que o cônjuge que fica sem a cus­tódia dos filhos e sem a casa da fa­mília tende a regressar ao lar dos seus pais.

A casa dos pais. A liberdade dos actuais jovens adultos, filhos dos “aventureiros” das gerações de 70 e 80, é encontrada na privacidade do seu quarto. Não têm pressa em deixar, qual canguru bebé, a bolsa marsupial da mãe, o que lhes per­mite ter casa, comida, roupa lava­da e a possibilidade de juntar al­gum dinheiro. Mas se o dinhei­ro permite ter uma qualidade de vida melhor, o pleno desfrute das possibilidades de viajar e de lazer também pode ser a razão da per­manência em casa dos pais.

Na verdade é cada vez mais difí­cil nos dias de hoje um jovem as­sumir a responsabilidade de com­prar um apartamento ou criar uma família. Mas será este fenó­meno — genericamente aceite co­mo “geração canguru” — conse­quência da conjectura económica ou apenas a resistência em assumir as responsabilidades da vida adulta independente? E que papel têm os pais nesta dinâmica?

O papel dos pais. No que diz respeito aos pais, enquanto uns não vêem o momento de usufru­írem do seu espaço, do seu tem­po e das suas reformas, desfru­tando da possibilidade de deixa­rem de ser pais para passarem a ser avós, outros parecem acentu­ar as dificuldades da vida “lá fo­ra” e tirar partido da permanên­cia dos filhos em casa. Para estes pais, o conflito de gerações já não faz sentido. Ao permitirem esta liberdade confortável, coisa que muitos não tiveram no seu tem­po, nada cobram em troca da boa companhia e da possibilidade de evoluírem em permanente contac­to com os filhos.

O divórcio ou a morte de um dos progenitores, especialmente no caso das mulheres mães, pode promover a manutenção dos fi­lhos em casa. É uma forma de preencher o vazio, de continuar a dar um sentido à vida, sem que tal implique envolverem-se em no­vas relações, com todas as dificul­dades e decepções que implica ini­ciar uma nova vida com outro ho­mem, por exemplo. Estas mulhe­res são geralmente jovens, pois também era comum a geração de 70, 80 serem pais muito cedo, sau­dáveis e autónomas, constituindo­-se num importante e eficaz apoio para os filhos.

Perfil. O estilo canguru parece predominar na classe média e no género masculino, em jovens adul­tos com idades compreendidas en­tre 25 e 35 anos, solteiros ou divor­ciados . São geralmente profissionais bem sucedidos, com autono­mia financeira, mas que têm difi­culdade em enfrentar a vida sem a companhia de uma mulher. Cul­turalmente são o fruto de uma educação super protectora, com pais empenhados em dar-lhes o melhor.

Por sua vez, uma explicação possí­vel para a existência de menos mu­lheres nestas condições reside na necessidade que têm de continuar a terem que lutar pela definição do seu espaço na sociedade, tanto a nível pessoal como profissional, o que apesar de ainda ser sentido como uma diferença negativa tem permitido, na verdade, um cresci­mento individual e emocional que as torna mais independentes. O regresso a casa dos pais após um divórcio pode nem sempre estar relacionado com questões finan­ceiras. Se muitas vezes o pretexto encontrado para que isso aconteça é de ordem financeira, na realida­de o aconchego parental pode ser um bom meio de lidar com a baixa auto-estima, a frustração e o me­do de encarar novas relações, sen­timentos comuns após o divórcio. É como se houvesse um retorno ao estado da adolescência sem os in­cómodos da falta de autonomia. O mimo e as atenções estão lá, mas já não há o controlo apertado.

Desafio. Contudo, o cenário nem sempre é tão agradável. Mui­tos pais vêem-se na contingência de receber novamente os seus filhos, ainda que tal decisão este­ja cheia de contrariedades e com­promissos de ambas as partes. O retorno a casa vem interromper um momento do ciclo de vida fa­miliar em que normalmente os pais têm novamente a oportuni­dade de se organizar em função de outras prioridades. Desta for­ma são novamente puxados para uma situação em que as tarefas do­mésticas redobram, a intimidade é alterada, os conflitos de proximi­dade reaparecem e o jogo entre os sentimentos de culpa e a realidade de serem a única alternativa para os filhos muitas vezes abre feridas antigas entre o casal e mesmo en­tre pais e filhos.

Se por um lado a sociedade aco­lheu bem a geração canguru, por outro há que saber onde termina a linha ténue que separa os jovens adultos promissores daqueles que sofrem da síndrome de Peter Pan — que se traduz no medo de crescer e encarar os desafios da vida. O corte do cordão umbilical, que antes era feito de forma brusca, ocorre hoje de modo progressivo. Há diferença entre quem já passou dos 3o e ain­da mora com os pais, mostrando dificuldade em planear e execu­tar projectos pessoais e sabotan­do a sua vida afectiva e profissio­nal, e quem continua a investir no futuro, acumulando conquistas, estabelecendo metas e acabando por deixar a casa dos pais.

De qualquer forma, o maior desa­fio é preparar os filhos para os lan­çar no mundo, procurando provi­denciar uma educação voltada pa­ra autonomia, liberdade, respon­sabilidade e crescimento emocio­nal, para que a adolescência não se estenda para além do necessá­rio. Até os cangurus acabam por deixar a bolsa marsupial ao fim de um ano

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Mania das Pressas

A pressa é inimiga da perfeição e da nossa saúde. Aceite como um facto consumado do estilo de vida dos nossos dias, pode atingir intensidade que até já é classificada como uma síndrome.

Cada pessoa tem o seu ritmo. Uns são mais lentos, outros mais dinâ­micos, mas se a rapidez é tão extrema que qualquer um se torna preguiçoso por comparação con­sigo mesmo, então essa forma de estar resulta de uma perturba­ção psicológica e comportamen­tal que atinge cada vez mais pes­soas e pode causar não só a perda de qualidade de vida, como tam­bém problemas cardíacos, gástri­cos e outros decorrentes da queda de imunidade do organismo.

Saúde comprometida. A sín­drome da pressa foi definida nos anos 5o por dois cardiologistas americanos ao perceberem que os pacientes com problemas cardía­cos se podiam encaixar num per­fil específico. Assim, determina­ram os perfis A e o B. No caso que nos interessa, as pessoas com es­ta problemática encaixam-se no tipo A e caracterizam-se por serem ansiosas, apressadas, anda­rem num ritmo rápido, comerem as refeições quase sem dar conta de que o fizeram, comunicarem com os outros com rapidez, economia e com tendência para completa­rem a ideia do outro para apressar a conclusão. São geralmente hos­tis a situações que parecem levá- los a perder tempo e têm a capaci­dade de executar diversas tarefas ao mesmo tempo, exigindo muito de si mesmas.

A saúde destas pessoas geralmen­te fica comprometida. Estão mais sujeitas a doenças auto-imunes, problemas cardíacos, de pele e de estômago. Existe também uma li­gação entre o stress e doenças do foro psicológico, como a síndro­me de pânico e a depressão. Estas pessoas não admitem o fracasso, nem o ócio e apenas se valorizam através de feitos realizados. Aca­bam por se armadilhar a elas pró­prias, na medida em que também não são capazes de delegar, o que as sobrecarrega ainda mais de tra­balho e responsabilidade. A inca­pacidade de delegar está relaciona­da à imagem que têm de si mesmas e que lhes mostra que são capazes de fazer tudo mais rápido e melhor do que qualquer outro.

Influência na família. Assim, os portadores da síndrome da pressa acabam por dificultar a convivên­cia com os que estão à sua volta. Por serem impacientes e perfec­cionistas, têm dificuldades em li­dar com pessoas tipo B – aquelas que conseguem resistir à pressão. As áreas de dificuldade vão desde as amizades, passando pelo cam­po profissional e até sexual. A família dos apressados patológi­cos também sofre, na medida em que os ritmos de cada um dificil­mente são respeitados. Numa so­ciedade que se movimenta a uma velocidade meteórica, em que a novidade e a informação são ca­da vez mais difíceis de apreender e integrar, os pais começam a dar sinais da síndrome da pressa e os filhos têm que fazer o maior nú­mero de coisas no menor tempo possível. Hoje em dia um jovem  que se mostre contemplativo, que demonstre o gosto pela meditação ou, pura e simplesmente, consiga parar para introduzir um momen­to de relaxamento no seu dia é, no mínimo, estranho. O normal será estar a fazer alguma coisa! Nunca como hoje se falou em nas questões do prazer sexual. As ra­zões para que isso suceda são mui­tas, mas uma delas pode estar re­lacionada com o aumento do número de pessoas que, sofrendo da síndrome da pressa, se queixam cada vez mais da sua incapacida­de em sentir prazer nas relações. Na realidade, muitas delas enca­ram frequentemente o relacio­namento sexual como mais uma tarefa em que a boa performan­ce preenche a sua necessidade de perfeccionismo, não se permitin­do nem permitindo ao outro des­frutar calmamente do prazer de estar junto.

Slow food. A síndrome da pres­sa acabou por gerar uma reacção da sociedade. Na Europa de ho­je há um movimento significati­vo, com base em Itália e ramifica­ções na França, Espanha e noutros países, conhecido por slowfood. Os seus seguidores atestam as vantagens de comer e beber devagar, de apreciara preparação dos alimen­tos, partilhando-os no convívio dos amigos ou da família (sem te­levisão). Mas este movimento transcen­de a comida, tentando promover um estilo de vida mais tranqui­lo. A base desta nova forma de es­tar está em questionar a “pressa” e a “loucura” geradas pela globalização, através do apelo consumista, por oposição à qualidade de vi­da e à qualidade do “ser”.

Parar. Não é fácil lidar com pes­soas que sofrem da síndrome da pressa. Contudo, se elas forem capazes de aceitarem que são ví­timas desta perturbação, então a forma de estar das pessoas tipo B, em que predomina a calma e a pla­nificação com uma hierarquia de prioridades centrada nas suas ne­cessidades, também pode ser contagioso. Contudo, o objectivo não é que a pessoa tipo A se transforme numa do tipo B. Importa é que es­tas pessoas sejam capazes de pa­rar e compreender os motivos que geram este comportamento, e não esperar que a doença se instale pa­ra reduzir a velocidade e redefinir as prioridades e objectivos.

Parar permite-nos cultivar o afec­to nos relacionamentos por oposi­ção à funcionalidade, permite-nos conversar, ouvir e conhecer o ou­tro. Se tivermos que lidar com al­guém tipo A, a estratégia passa por não desistir e tentar opor a quali­dade à quantidade e a velocidade à persistência.

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O preconceito das doenças sexualmente transmissíveis

A vergonha, a solidão e o risco das doenças sexualmente transmissíveis crónicas (DSTC) pode afectar a nossa auto-estima e a nossa relação com os outros. Mas este tipo de doença é mais vulgar do que se pensa e não representa nenhum comportamento leviano.

A descoberta de que somos porta­dores de uma doença sexualmente transmissível crónica (DSTC) pro­voca, frequentemente, um impac­to importante na nossa auto-esti­ma, levando-nos a experimentar sentimentos de vergonha muitas vezes associados a uma imagem corporal negativa. Pela sua gravi­dade e risco de vida, não referirei o contágio pelo HIV, ainda que se­ja, como se sabe, uma das mais sé­rias DSTC.

As DSTC são o Herpes Genital, o Vírus de Papiloma Humano (VPH), situações que não pondo em risco a vida daqueles que de­las são portadores, comprome­tem a sua saúde e em particular contém o permanente risco de contágio.

A depressão reactiva, bem como o medo da rejeição por terceiros, parceiros actuais ou futuros, são reacções esperadas nas pessoas a quem estas situações são diag­nosticadas.

Há algum tempo atrás tive a opor­tunidade de trabalhar em psicoterapia com uma jovem mulher por­tadora de DSTC. O relato da sua primeira reacção ao diagnóstico dava conta de uma vergonha in­tensa, depressão e a ideia de que o seu corpo se tinha transforma­do. Recentemente saída de um ca­samento falhado, com um único companheiro sexual até então, tinha sido infectada pelo parcei­ro da actual relação, também ela problemática e em vias de extin­ção. Sentia-se usada, suja.

Embora desagradável, esta é uma reacção normal e muitas das pes­soas que procuram ajuda por esta razão sentem que a sua vida sexu­al acabou, situação vivida de for­ma trágica, especialmente se pen­sarmos que são os mais jovens que têm uma vida sexual mais activa. Eventualmente, a intensidade dos sentimentos associados a estas ideias acabará por se desvanecer e, como todos nós, também estas pessoas aprenderão a viver com as dificuldades que a vida muitas ve­zes nos apresenta. Mas podemos e devemos colaborar com o factor tempo. Para tal, temos que rejeitar uma postura de vítima passiva e assumir um papel activo, tomar o controlo sobre a doença, retoman­do o controlo das nossas vidas. A obtenção de informação cor­recta, útil e adequada à situação de cada um, acerca da doença, co­mo ela pode afectar o nosso corpo, pode ser muito útil no retomar de uma vida normal.

Conhecer a doença. Procurar saber as consequências da doen­ça quer a nível médico quer a ní­vel psicológico é uma forma eficaz de recuperar o sentimento de au­to-estima perdida. Os mitos e pre­conceitos associados às DSTC con­tribuem para o aparecimento dos sentimentos de vergonha e, mui­tas vezes, o confronto com ou­tros que possuem o mesmo grau de desconhecimento é mais uma forma de reforçar o nosso mal-es­tar. Um mito muito comum refe­re que as pessoas infectadas por uma DSTC têm hábitos sexuais promíscuos e são frequentado­ras de locais ou pessoas, no mínimo, duvidosos. Infelizmente, esta ideia não podia estar mais longe da verdade. Estima-se que actu­almente existem 24 milhões de pessoas diagnosticadas com VPH e mais de 4o milhões são portado­ras de Herpes genital.

Adquirir conhecimentos acerca da forma como lidar com a doença também ajuda a readquirir o con­trolo sobre o seu corpo. A visita ao médico Ginecologista/Urologista é imprescindível.

A um nível mais íntimo, a observa­ção do próprio corpo, o reconheci­mento dos sinais que indicam a ac­tividade do vírus pode aumentar o sentimento de controlo sobre a doença, e facilitar a aceitação das alterações na imagem corporal. O stress tem sido muitas vezes apon­tado como um factor que contri­bui para o desencadear de uma crise, bem como o período mens­trual, a falta de exercício e uma nutrição pobre.

Tendo em conta estas informa­ções, o momento em que se desen­cadeiam as crises, e pensando re­trospectivamente no que se passou antes, pode ajudar a controlar ou pelo menos contribuir para o não aparecimento de outra crise.

A observação dos genitais pode ser também uma forma de adequar a realidade às ideias que temos sobre a forma como a doença se apresen­ta, a sua intensidade em determi­nado momento e com isso ajustar os comportamentos que evitem a transmissão a terceiros.

Muitas pessoas, quando estão sau­dáveis, não se sentem confortáveis com ideia de examinar os seus pró­prios genitais, acto que se compli­ca um pouco mais quando o que esperam encontrar são forma­ções desagradáveis como bolhas ou verrugas. No caso do homem, por razões que se prendem com a sua anatomia, essa observação é mais fácil.

Os genitais da mulher estão mais escondidos e são de mais difícil ob­servação. Este facto leva a que seja necessário um maior envolvimen­to e capacidade de adaptação por parte da mulher.

Segredo. Tudo parece fácil dito desta forma. Mas nem todos te­mos a mesma força interior pa­ra iniciar e aceitar as consequên­cias destas observações. Muitos estudos têm demonstrado que o suporte social é benéfico. Este pode ser obtido junto de um(a) amigo(a), de uma consulta de psi­cologia. Especialmente benéfico parece ser o suporte encontrado junto de alguém com quem exis­ta uma relação emocional ou amo­rosa importante. O segredo pode ser o nosso pior inimigo, mes­mo quando o receio da rejeição é muito forte. No entanto, precisa­mos de aprender a aceitar a rejei­ção de um(a) parceiro(a) potencial sem que isso signifique necessa­riamente que, globalmente, não prestamos como pessoas.

Quando acontece estarmos en­volvidos numa relação emocio­nal importante, mais uma vez o elemento chave reside na forma e capacidade de comunicar com o outro. Todos temos dificuldade em partilhar áreas da nossa vida que consideramos extremamente íntimas, quase impossíveis de pôr em palavras. Como partilhar com aquele(a) que amamos algo com que ele(a) terá de conviver emo­cional e fisicamente? E como res­ponder à dúvida de quem conta­giou quem?

São situações muito difíceis mas, se a relação de casal for suficiente­mente próxima, baseada na con­fiança, o diálogo pode ser uma for­ma eficaz de enfrentar a crise, se for conduzido com sensibilidade e bom senso, baseado em factos e al­guma informação preliminar que permita ao outro encontrar eco pa­ra as suas dúvidas.

Choque inicial. Ainda assim, é natural que o casal atravesse um período de choque inicial seguido de um reajustamento à nova rea­lidade. Contudo, vencer a cri­se e prosseguir a relação, ou op­tar pela separação  parecem opções saudáveis, já a impossibi­lidade (incapacidade) de enfren­tar o problema, arrastando a cri­se de confiança, empolando outros conflitos normais num casal pode aconselhar a procura de um pro­fissional capaz de ajudar a desblo­quear e facilitar a necessidade de diálogo.

A capacidade de darmos tempo ao tempo e a nós mesmos deve estar sempre presente. Levamos uma vi­da inteira a construir e a adaptar­mo-nos a uma imagem corporal. Construirmos uma nova é um pro­cesso lento e precisa da contribui­ção de um estado de alma positivo acerca de nós próprios.

A ideia chave a reter é a de que não devemos aceitar ser vítimas pas­sivas deixando que a doença controle a nossa vida, mas tenhamos uma atitude activa e enérgica na compreensão e conhecimento do que pode ser feito.

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Privacidade Global

Somos cada vez mais invadidos por reality shows e blogues, um fenómeno se iniciou na televisão norte-americana com o Candid Camera e está actualmente em plena expansão. Mais do que nunca, a privacidade está na ordem do dia.

As noções de privacidade e inti­midade são aquisições recentes na evolução da cultura ocidental. Aliás, a título da curiosidade, an­tigamente as camas tinham dos­sel porque não existia uma depen­dência da casa reservada ao casal, podendo esta estar colocada num local de passagem ou partilha­do por outros. Até há pouco tem­po nas comunidades mais peque­nas as portas não se fechavam e era comum partilhar as casas de acor­do com as necessidades e o prazer da companhia. O mundo ociden­tal tem vindo a evoluir de uma di­mensão pública para a privada. O fim dos anos 8o e o início dos anos 90, com o aparecimento da geração cocam, foi a expressão mais clara deste movimento, que atinge actualmente contornos patológicos no Japão, com os ado­lescentes capazes de passar dois, três ou até sete anos fechados no seu quarto sem qualquer contacto directo com o mundo exterior. O aparecimento do teletrabalho, da Internet, da televisão interac­tiva vieram favorecer este movi­mento centrípeto na vida das pes­soas, do qual os portugueses não são excepção.

Paradoxalmente, ou talvez não, e na medida em que nos refugia­mos cada vez mais no nosso canto, cresce o interesse por programas designados por reality shows e pro­liferam os blogues, verdadeiros diários online acessíveis a qualquer um na Internet. Os blogues, ali­ás, podem ser sinónimo de liber­dade de expressão e possibilidade de exercer um direito da democra­cia, mas a verdade é que revolucio­nam o conceito de privacidade e o que podemos fazer com ela.

Quanto às “novelas da vida real”, onde um punhado de pessoas são pagas para conviverem num espa­ço confinado, com regras especí­ficas e num tempo determinado, com frequência me questiono o que leva estas pessoas a fazê-lo e porque tem tanto impacto junto do público?

Definição. O processo de cons­trução da noção de privacidade ocorre simultaneamente com o da construção da identidade e do conceito de si próprio face aos ou­tros. É um conceito que vai sen­do alicerçado em normas, valo­res e crenças da cultura em que vamos evoluindo e que vamos ab­sorvendo através do meio familiar e social desde a mais tenra infân­cia. Este é uma das características que mais cedo começa a ser estru­turada na construção da persona­lidade do ser humano.

Muitos dos comportamentos que o bebé e mais tarde a criança desen­volvem, voltados para o auto-conhecimento do seu corpo e associa­dos a necessidades fisiológicas, vão ser remetidos para a esfera do privado por modelação do meio social e familiar, nomeadamente no que respeita aos sentimentos de pudor. A forma como cada um vai viver a sua intimidade e privacidade são o resultado da forma como a afec­tividade é estimulada, como é res­peitada a sua autonomia e como a família lida com os limites do pró­prio face aos pais e ao exterior. Recordo-me de que há algum tem­po atrás senti a necessidade de tra­balhar com uma mãe e um filho pré-adolescente os limites e noção de privacidade, pois havia alguma dificuldade em compreender que o espaço da casa de banho era pri­vado e, como tal, não era o melhor local para se entrar e contar his­tórias ou fazer pedidos. Mas esta mãe levou cerca de dez anos para sentir que precisava de demarcar este espaço da sua privacidade.

Olhar de terceiros. Existem algumas situações de desvio à normalidade e que podem cons­tituir-se em áreas do foro da psi­copatologia. Nestas, alterações no desenvolvimento harmonioso da esfera afectiva da pessoa enquan­to criança traz alterações à forma de vivenciar o desejo e a sua capacidade de se envolver numa rela­ção afectiva plena, gerando-se, no limite, uma dissociação entre o ac­to sexual, a afectividade e a rela­ção interpessoal. Subjacente está muitas vezes o medo de entrega e problemas sérios de auto-imagem e autoconfiança.

Qualquer um de nós, no entan­to, tem características de voyeur e ou exibicionista em maior ou me­nor grau sem estarem associadas ao acto sexual. Contudo, uma das questões que se coloca na actua­lidade remete para que as nossas vidas possam ser alvo dos olhares de terceiros, sem o nosso conhe­cimento ou consentimento. E es­te é um assunto polémico, na me­dida em que ao fazê-lo atentamos contra uma das necessidades mais básicas do indivíduo, que é a segu­rança e a noção de controlo da sua vida. Mais uma vez, e paradoxal­mente, fazêmo-lo em nome da se­gurança, sendo indiscutível o seu valor em casos de violência.

Mas, num sentido da perversi­dade, ser espiado pode ter conse­quências sérias ao nível de um au­mento da ansiedade, alterações de humor e um crescente senti­mento de insegurança por desconhecimento das intenções e con­sequências quem o faz. Se existir uma exposição dos factos espia­dos, pode haver um comporta­mento do indivíduo no sentido do isolamento, evitando ou re­cusando mesmo o contacto com terceiros.

Exibicionismo voluntário. Mas o que nos atrai nas pessoas que aceitam expor a sua vida priva­da? Na realidade todos somos di­ferentes em público e em priva­do. O comportamento humano é produto da personalidade, mas também do meio em que nos en­contramos. E a situação contém normas, rituais, regras, crenças, etc., que são interiorizadas atra­vés do nosso processo de sociali­zação e que nos orientam para o que pode ou não ser feito em pú­blico e em privado.

Se para cada um de nós esta é uma verdade que reconhecemos com facilidade, ficamos sempre na dúvida se o mesmo se passa com outros, especialmente quan­do se tratam de figuras muito me­diatizadas. Assim, quando pensa­mos nas “novelas da vida real” ou mesmo nos blogues que prolife­ram pela Internet, estamos a fa­lar da outra face da moeda, ou seja, do exibicionismo mais ou menos voluntário. Como diria Andy Warhol, todos temos direi­to a “15 minutos de fama”, mas es­ta só acontece se for testemunha­da por outros e, para tal, algumas pessoas esforçam-se activamente para a conseguirem. A procura da visibilidade pública através da di­vulgação de pormenores do âmbi­to da nossa intimidade e privaci­dade está muitas vezes associada a ganhos secundários, sejam eles dinheiro ou o reconhecimento social. Tal permite recuperar algu­ma da auto-estima perdida, que se vai reconstruindo aos poucos pe­lo reconhecimento do público, de amigos, dos outros. Afinal, a nossa auto-estima é também resultado de um processo interactivo.

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Novas famílias, novos papeis

As configurações familiares no início deste milénio são muito variadas e complexas. O casamento transforma- se em casamentos e muitas crianças experimentam duas vivências familiares distintas: a casa da mãe e a casa do pai.

As configurações familiares no fi­nal deste milénio são muito varia­das e complexas. Ao longo de uma vida é cada vez mais frequente “o casamento” transformar-se em “casamentos”. A família tradicio­nal transforma-se noutra de con­tornos maleáveis e dinâmicos. As crianças podem experimentar du­as vivências familiares distintas, a casa da mãe e a casa do pai. E os fi­lhos da nova união poderão ter ir­mãos residentes e irmãos de fim- de-semana… E todos acabam por desempenhar uma multiplicidade de papéis que algumas vezes não desejaram, ou sobre os quais pos­suem pouca informação.

Período crítico. A fase de transi­ção, da ruptura de uma célula fa­miliar à organização da nova es­trutura, é um período crítico, em que a definição das novas rotinas quotidianas, da gestão das emo­ções e dos medos e de encontrar o lugar de cada um na família se traduzem num esforço relacional e emocional que fragiliza todos os intervenientes. É neste período crítico que o nível de inseguran­ça emocional se acentua, como é de esperar nos processos de mu­dança. E as crianças são, infeliz­mente, os alvos preferenciais dos medos e angústias desencadeados pelas modificações profundas no seu universo socioafectivo.

Mas é sobre os adultos que gosta­ria de reflectir, pois a sua actuação pode ser determinante para que esta mudança resulte bem para as crianças, marcando a diferença entre uma “saudadezinha do pa­pá” ao adormecer, que se cura com um telefonema tranquilizante, ou o medo do abandono e do confli­to entre os pais que vão minando a tranquilidade dos mais novos. A verdade é que a qualidade da ac­tuação dos adultos depende muito da forma como gerem os seus pró­prios receios e fantasmas.

E se o novo companheiro não gosta das minhas crianças? Mui­tas vezes esta inquietação surge quando o convívio entre o novo parceiro e as crianças se intensifi­ca, nomeadamente quando come­çam a coabitar. A expectativa dos adultos em relação à intensidade dos laços afectivos é, por vezes, desadequada e origina respostas muito reactivas aos contratem­pos e ajustes que inevitavelmen­te surgem. Os afectos também se constroem e para isso é preci­so tempo.

Definir papéis. As mudanças abruptas são as mais violentas. Se já existem laços de convívio,se já pudemos observar a crian­ça a interagir com o novo compa­nheiro e gostámos do que vimos, talvez não haja motivo para gran­de inquietação. O planeamento é uma estratégia óptima para re­duzir a incerteza e os mal-enten­didos. Uma vez tomada a decisão de viverem todos juntos, é impor­tante que o novo casal se sente pa­ra conversar, definindo o papel de cada um, o exercício da autorida­de e do poder, as regras, as tare­fas, os limites a respeitar do es­paço individual. Principalmente, como agir em matérias susceptí­veis de serem fonte de desenten­dimentos — oportunidade que os mais novos geralmente aprovei­tam para “dividir para reinar” e obter coisas que de outra forma não teriam. Idealmente, e em sin­tonia com as idades das crianças, deveríamos ser capazes de dialo­gar com elas e torná-las parte in­tegrante deste processo.

Devemos deixar sempre claro pa­ra o outro o lugar que as crianças ocupam na sua vida e o quanto são importantes para si. Se o novo companheiro também tiver filhos, entenderá do que estamos a falar. Mas terá igualmente necessida­des, inquietações e expectativas relativamente aos seus próprios filhos. Um processo de negocia­ção intensa torna-se quase obri­gatório, nomeadamente enquan­to predomina o encantamento do enamoramento, que poderá facili­tar a conversa destes assuntos.

Conquista afectiva. Ser tole­rante perante uma situação que é nova para todos, onde ainda se en­saiam papéis e é natural que o ou­tro não seja perfeito, pode ser meio caminho andado para o sucesso. Para isso temos de esquecer a ten­dência generalizada entre muitos casais de fazer comparações com o “ex”, porque, apesar de desem­penhar funções parentais, o novo companheiro não é, de facto, o pai ou a mãe das crianças.

A madrasta má e o vilão também têm medos. O grande medo é ser considerado como um intruso que será rejeitado. Como tornar-se, en­tão, parte integrante da família? E se a criança não o aceita? Qual o impacto que isto vai ter na relação de casal? Estas inquietações con­tribuem para uma atitude hipervigilante, que, por sua vez, pode condicionar condutas muito reac­tivas em resposta a comportamen­tos infantis de oposição ou hosti­lidade. Estes comportamentos da criança são de esperar em qual­quer família — ainda mais numa estrutura familiar em mudança, na qual a criança ainda se sente insegura e até ameaçada — e po­dem ser interpretados numa pers­pectiva catastrófica em que é cer­to que “o miúdo vai-me odiar para sempre!”. Provavelmente a crian­ça está apenas a testar limites, ou a tentar perceber o que fazer com este tipo que, quer ela, quer even­tualmente outros adultos signifi­cativos no seu universo socioafec­tivo, responsabilizam por tomar o lugar do pai.

Conquistar estas crianças a qual­quer preço não é uma boa estraté­gia. A sedução “em esforço” não consegue ser sustentada por mui­to tempo e das duas, uma: a crian­ça sente-a como falsa e rejeita-a ou torna-se manipuladora em respos­ta à sua própria tentativa de ma­nipulação. Se encararmos logo à partida a relação com naturalida­de e com respeito, respeito por nós próprios, pela criança e pelos sen­timentos que necessitam de tem­po para amadurecer, então esta­remos a lançar as bases saudáveis para um bom relacionamento.

Direito de errar. O encontro dos sentimentos de medo da criança com as ansiedades e receios dos adultos tem que ser gerido pelo adulto. Somos nós que temos a capacidade de reflexão objectiva, que somos capazes de descentrar das nossas emoções, de sermos tolerantes e de transmitir segu­rança, de agir reflectidamente, com bom senso, ajustando as nos­sas expectativas e desejos às limi­tações e exigências da realidade, de auto-regular o nosso compor­tamento e, finalmente, exercer o poder. E como tudo isto não é fácil, temos também direito às fragilidades que habitam em to­dos nós e temos direito a errar! Não podemos é esperar que se­ja a criança a ter uma atitude ca­racterística de um adulto, mes­mo que estejamos a falar de adolescentes.

O papel do pai ou mãe é funda­mental para criar harmonia na nova família. São o seu compor­tamento e as suas atitudes que vão fornecer pistas às crianças do lugar do novo elemento na família, da sua importância, do que é e não é permitido. E é do diálogo entre o casal que nas­cem soluções criativas para as dificuldades que forem surgin­do. O grande truque talvez se­ja transformar potenciais con­flitos e agressões em problemas que necessitam de resoluções concretas. Porque este é o seu projecto e é pelo casal que a fa­mília existe.

 

Bebés. Levar um bebé para ca­sa do novo companheiro é uma situação que desencadeia medos profundos, tanto mais graves se estiverem associados a separa­ções conflituosas. Sentimentos de perda, rejeição e ciúme rela­tivos à ruptura do casal podem ser projectados nos filhos e no acto de os cuidar e partilhar.

A frustração ou sentimentos de impotência e abandono, comuns nas primeiras etapas do luto da relação, geram a necessidade de agredir aquele que “traiu” o projecto de vida a dois. Esta ne­cessidade leva a que se “instru­mentalizem” as crianças e que se façam muitas asneiras. Uma das tentações mais irresistíveis costuma ser criar aversão ao “ri­val” e ao novo lar. Ou enfatizar o distanciamento do outro pai co­mo uma troca, um abandono, sa­lientado as desvantagens de es­tar no “outro lado”.

Este tipo de estratégia tem nor­malmente dois resultados: a curto prazo a criança parece aderir e há uma recusa em estar com a “concorrência”; ou, a médio/longo prazo, se a pos­tura do “outro lado” for de to­lerância e amor, o feitiço vira­-se contra o feiticeiro. Há perda de relação e desvalorização de quem implementou esta estra­tégia. Entretanto, muito prova­velmente, viveram-se momen­tos dolorosos, alimentaram-se conflitos, criou-se desarmonia e sofrimento, pois atiçou-se o lu­me do caldeirão dos medos, dos adultos e crianças.

Contudo, devemos lembrar que ninguém pode ocupar o seu lu­gar no coração do nosso bebé, sermos o seu porto de abrigo. Ajudá-lo a enfrentar estes per­cursos com tranquilidade, não o sujeitando à violência das es­colhas impossíveis, é fundamen­tal, pois ele ama e necessita dos dois, mesmo que os dois já não sejam um.

Medos. Para neutralizar a an­gústia de não o termos sob a nossa asa protectora, devemos lembrarmo-nos de que quando escolhemos ou aceitámos ter um filho com aquele companheiro, com o qual podemos estar mui­to zangados, demos-lhe um vo­to de confiança como pai/mãe. Devemos lembrarmo-nos que o outro tem recursos que lhe per­mitiram tratar do filho conjun­to, e este precisa muito de estar com o pai/mãe em condições na­turais, em paz.

Nos pais que deixaram de viver com as crianças a tempo inteiro costuma observar-se uma ten­dência para espaçar os momen­tos de convívio com elas. Pare­ce uma reacção paradoxal, pois estamos a falar de pessoas res­ponsáveis e amantes dos seus fi­lhos. Mais uma vez, o medo tem um papel dominante na origem deste comportamento. O medo de não sermos competentes nes­te novo cenário, o medo da per­da de afecto, o medo da dor no momento da separação acciona mecanismos de defesa psicológi­cos, dos quais fazem parte a fu­ga. Ainda que fugindo ao con­fronto directo com a situação, o medo não desaparece, conti­nua lá, como que adormecido. De facto, conseguimos uma es­pécie de “alívio” imediato, mas a escassez de convívio continu­ado com os filhos acaba por tra­zer mais sofrimento e perda pa­ra nós e para eles.

O contacto com as nossas crian­ças tem um efeito psicologica­mente equilibrador. Ao vencer as primeiras etapas mais difí­ceis, a criança reafirmará o afec­to e a necessidade que tem de nós, confirmando o que sempre soubemos: que, para ela, nós somos insubstituíveis.

 Dicas para os pais:

  • Devemos ser previsíveis. Devemos evitar a todo o custo faltar aos encontros prometidos. Por, vezes as expectativas criadas são muito elevadas porque o pai ou a mãe vão estar presentes e os filhos precisam  de saber que podem continuar a contar com os pais
  • Se não pudermos de todo comparecer ao encon­tro devemos telefonar e explicar-lhe directamente a razão. Mas estas devem ser situações de excepção. É também importante deixar claro quando vai acontecer o próximo encontro.
  • Sempre que se despedirem, devemos referir “até sexta-feira!”,   para que a criança tenha uma referência concreta
  • Utilizar linguagem positiva leva-nos no reencontro, em vez de nos mostrarmos tristes porque tivemos muitas saudades da criança, transmitir-lhe a alegria que sentimos por estarem juntos
  • O importante é interagir naturalmente. Não é preciso estar continuamente a fazer programas fantásticos, que muitas vezes obrigam a esforços financeiros e psicológicos que “contaminam” os estados de espírito, deixando-nos ansiosos e criando na criança o sentimento de que tem que se divertir.

Usufruam do momento!

 

 

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Lidar a dois com a infertilidade

Os casais que sofrem por não conseguirem ter filhos dificilmente conseguem falar disso com outras pessoas. O problema é muitas vezes vivido apenas a dois, mas deve ser partilhado para não se tornar um sofrimento ainda maior.

Até há pouco tempo, se um casal não tinha filhos, a causa era ime­diatamente atribuída à mulher e raros eram os casos em que a pos­sibilidade de existir, também, um factor masculino era equacionada.  Actualmente, as perturbações da fertilidade são encaradas como um proble­ma de casal e não apenas da mu­lher, um problema que precisa ser vivido a dois.

Decisão. Para a maior parte dos casais, a decisão de ter filhos mar­ca o início de um período que se caracteriza por excitação, intimi­dade e alegria. Depois de a mu­lher engravidar, o casal anunciaa notícia à família e aos amigos e prepara-se emocionalmente pa­ra o nascimento. Para estes casais, conceber um filho é um processo natural que culmina na concreti­zação de um sonho! Já para os que têm perturbações de fertilidade, a decisão de formar uma família marca o início de um período difí­cil e doloroso.

Os casais inférteis submetem a sua vida ao stress causado por gráficos de temperatura, consultas, medi­cação, cirurgias e até relações se­xuais com dia e hora marcados. Se, e quando, a gravidez ocorre, o casal tem tendência para viver es­se momento com uma alegria cau­telosa. Não há a notícia para família e nem para os amigos e mais do que preocupados em preparar a chegada do bebé, ambos estão interessados num projecto a cur­to prazo que é a manutenção de uma gravidez muito frágil.

A notícia da infertilidade é vivida de modo diferente de sujeito para sujeito. Varia consoante o sexo, a personalidade, a cultura em que está inserido, a sua história pes­soal e familiar e, claro, varia de acordo com a importância de que esse filho se reveste. Estudos clí­nicos permitiram identificar pa­drões típicos de resposta à infertilidade que diferem de forma no homem, na mulher e no casal, co­mo um todo. Não subestimar es­tas diferenças constitui uma me­lhoria na vivência subjectiva e nos resultados obtidos numa interven­ção clínica.

No feminino. Para as mulheres, mais do que para os homens, o stress da infertilidade resulta nu­ma baixa da auto-estima e bem- estar geral. As mulheres têm ten­dência a apresentar o mesmo nível de perturbação, quer a causa da in­fertilidade seja sua ou do seu côn­juge. O ciclo menstrual despoleta padrões emocionais característi­cos quando a mulher tenta engra­vidar e cada ciclo é vivido com a antecipação de sucesso.

Se a gravidez não acontece, a mu­lher é invadida por desaponta­mento, depressão e desespero. Há medida que o ciclo se vai repetin­do, experimenta cada vez mais tristeza, o que a pode desgastar e impedir o comportamento dirigi­do à fertilidade.

Com os repetidos insucessos de fertilidade, as perdas sucessivas tendem a aumentar a tristeza (de­pressão) e os medos (ansiedade), que podem tomar a forma de per­da da relação, real ou imaginária, perda de saúde, autoconfiança e esperança.

Uma sensação de despersonaliza­ção ocorre com frequência com a utilização de tecnologias repro­dutivas que não recorrem ao coi­to. Algumas mulheres podem sentir-se menos femininas e pre­ocuparem-se com o desaponta­mento que julgam provocar nos outros, particularmente no ma­rido ou nos pais.

Se, após algumas tentativas, a gra­videz não acontece, a mulher tem que redefinir o seu papel de adul­ta, fazer o luto da esperança per­dida do seu filho biológico e de­cidir se adopta uma criança ou integra a sua condição de adulto sem filhos.

No masculino. No homem, ge­ralmente só após três insuces­sos de fertilidade é que ele come­ça a manifestar o mesmo nível de perturbação emocional que a sua mulher. A antiga ideia de que a in­fertilidade se devia sempre à mu­lher teve consequências na reacção comportamental do homem perante a experiência da infertili­dade e no modo como participa na investigação e tratamento.

Quando o homem é diagnostica­do com este problema, a sua per­turbação sobrepõe-se à da mu­lher, apresentando o mesmo tipo de sentimentos, em termos de es­tigmatização, percepção de perda e desafio à auto-estima. A vergo­nha é uma das respostas que apa­rece naturalmente.

A perturbação emocional pa­ra um homem infértil é maior quando carrega o diagnóstico e se sente responsável por ele. Além de viver o drama de ser infértil, o ho­mem vive ainda o drama de “pri­var” a sua companheira do filho desejado. Contrariamente, no homem fértil pode existir um senti­mento de revolta contra sua mu­lher infértil, sentindo-a como um obstáculo para o seu papel de con­tinuador do nome de família. Po­de mesmo ter fantasias de esperar estar com outra mulher de fertili­dade conhecida. Estes sentimen­tos podem desencadear sentimen­tos de culpa, ainda que raramente expressos.

Em casal. As reacções do casal face à infertilidade são as mais di­versas e nesta fase quase tudo po­de acontecer. Se a questão levanta problemas psicológicos, sociais e culturais, também o faz, necessa­riamente, ao nível da relação. A infertilidade é vivida como uma crise de vida, por vezes bas­tante complexa, e confronta o ca­sal com situações difíceis de gerir. Origina frequentemente compor­tamentos e reacções que muitas vezes são inesperados para qual­quer um dos membros do casal. Aparece o choque, a surpresa, a descrença, a frustração, a raiva, o sentimento de perda de contro­lo, o isolamento, os sentimentos de culpa, a vergonha e finalmen­te a dor.

Alguns casais lidam com a infer­tilidade aumentando o conflito e o distanciamento, o que pode ameaçar a continuidade da rela­ção e aumentar o isolamento do parceiro, que sente a dor e o de­sapontamento. Por sua vez, tam­bém a sexualidade sofre com o apertado calendário da interven­ção na infertilidade. Integrar na vida sexual a medição das tempe­raturas e as perdas das ovulações deixa pouco espaço para a espon­taneidade. Muitos casais têm difi­culdade em fazer a transição para um regime rígido de relaciona­mento sexual determinado pela ovulação. Tanto o desejo como a qualidade podem sofrer durante o ciclo. Alguns homens desenvol­vem nestas situações uma disfun­ção eréctil no meio do ciclo, difi­culdades ejaculatórias e alterações na frequência do relacionamento e desejo sexual.

A sexualidade da mulher também pode ser significativamente afec­tada pela infertilidade. Mais de metade experimenta uma quebra na frequência do relacionamento e da satisfação sexual após o diagnóstico de perturbação da fertili­dade. Por sua vez a disfunção eréc­til, vaginismo, dispareunia e falta de frequência no relacionamento sexual devido a falta de desejo po­dem contribuir directamente para a infertilidade.

Procurar ajuda. As razões por que duas pessoas se juntam ini­cialmente são os sentimentos, o amor e o desejo de partilha que sentem. Essa é a principal razão e os filhos são um complemento dessa felicidade. O pedido de aju­da a um profissional qualificado para atender o casal tem-se mos­trado importante em casos de in­fertilidade, na medida em que po­dem ser atenuados os conflitos e o stress resultante de todas estas vi­vências, criando-se condições que favorecem a fertilidade do ponto de vista psicológico.

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Finanças conjugais

O dinheiro é frequentemente fonte de problemas entre o casal. Alguns não suportam que o parceiro ganhe mais, outros apontam o dedo por ser demasiado gastador. Trata-se de lidar com questões de poder e controlo da dinâmica familiar, o que nem sempre é pacífico.

Discutir assuntos de dinheiro com o parceiro é um tema que ainda hoje muitos casais evitam. De fac­to, o dinheiro encontra-se inex­trincavelmente associado às es­peranças e sonhos, sentido de se­gurança e de reconhecimento so­cial, medos e crenças pessoais, mas também a quase todas as emoções e expectativas que caracterizam a vida familiar.

Existem três elementos essenciais para que uma relação dê certo e se­ja saudável. A primeira passa pela possibilidade de nos expressarmos livremente acerca da forma como encaramos o mundo e, em parti­cular, a relação. Passa ainda pela segurança física e psicológica da nossa pessoa e dos nossos filhos e, finalmente, pela sensação de con­fiança em relação ao futuro, ou se­ja, ter a possibilidade de sonhar. Em qualquer um destes campos, a última coisa que queremos sen­tir é que precisamos de nos proteger do nosso companheiro. Nesse sentido, o dinheiro gera um con­texto muito potente para que sur­jam mal-entendidos, atraindo ou­tras emoções negativas que geral­mente gravitam no espaço de du­as pessoas.

Contexto social. Há umas de­zenas de anos atrás, a mulher ain­da não estava integrada no merca­do de trabalho como está hoje e, se acontecia trabalhar fora, a última palavra pertencia ao marido. Mes­mo quando o dinheiro era ganho pelo homem e entregue à mulher, ela tinha que prestar contas dos gastos, tornando-se assim res­ponsável pela abundância ou pe­la falta de dinheiro. No tempo dos nossos avós, se a mulher queria ter algum dinheiro para “os seus alfi­netes”, tinha que escondê-lo, ma­quilhar as contas do merceeiro, principalmente quando não lhe era possível pedi-lo abertamente, ou se, trabalhando fora, lhe era so­cialmente exigido partilhar tudo com o marido.

A verdade é que a diferença de sa­lários ainda hoje é motivo de dis­cussão entre muitos casais. Se para uns não tem qualquer importân­cia quem ganha mais, para ou­tros não é bem assim. De um mo­do geral, a vantagem está do lado dos homens, que chegam a ter um salário duas a três vezes mais ele­vado do que o das mulheres. As­sim, a tradição não foi quebrada e a ideia do homem provedor man­tém intacto o equilíbrio emocio­nal individual e da relação. Quando é a mulher que ganha mais, há um aumento na inten­sidade e frequência do número de discussões devido ao dinheiro. Culturalmente, e aos olhos de ter­ceiros, o homem perdeu a capaci­dade para que foi “treinado” por milhões de anos de história. Se ac­tualmente tendemos a não valorizar estes comportamentos e acei­tamos, por exemplo, que cada um tenha a sua conta, mesmo assim não podemos esquecer que somos fruto de um passado que nos le­gou uma herança nem sempre fá­cil de alterar.

Nós e o dinheiro. Aquilo que so­mos actualmente também é resul­tado das vivências, expectativas e crenças que nos foram transmiti­das enquanto crianças, também no que respeita ao dinheiro. Isso significa que o valor que lhe atri­buímos numa relação é determi­nado pela “personalidade finan­ceira” que desenvolvemos ao lon­go do tempo.

A primeira diferença tem a ver com o género. Parece consensual, que as mulheres colocam a segu­rança financeira como uma das su­as principais prioridades. Outras características comuns a homens e mulheres estão presentes em proporções diferentes em cada um de nós e dizem-nos qual o nosso esti­lo de relação com o dinheiro.

O despreocupado vê o dinheiro como fonte de liberdade, não gosta da rotina nem de horários rígi­dos. É geralmente freelancer e acei­ta correr riscos financeiros. Prova­velmente nunca fez um orçamento ou planeou o seu futuro financei­ro. Se lhe sobra, gasta naquilo que lhe dá prazer.

O cuidadoso entende o dinheiro como fonte de estabilidade e segu­rança. Guarda tudo o que sobra do orçamento meticulosamente pla­neado e geralmente é visto pelos outros como o “forreta”.

O dirigente vê o dinheiro como fonte de poder. Gosta de ter con­trolo e gasta naquilo que lhe dá estatuto social, influência e força. Por último, temos o sociável. Uti­liza o dinheiro para reforçar os seus relacionamentos, é cuidado­so na gestão e compra um presen­te a alguém ou recebe amigos em sua casa. Não resiste a estar dispo­nível para os outros e geralmente é o primeiro a “abrir os cordões à bolsa” para terceiros.

Todos nós temos um pouco de ca­da um destes estilos em diferentes momentos da nossa vida e saúde financeira. São estilos em relação aos quais não interessa fazer juí­zos de valor, mas apenas identi­ficar o nosso e o do nosso cônjuge desde o início de uma relação. Trata-se de um passo muito im­portante para estabelecer um pla­no de vida coerente, aprendendo a negociar as diferenças e afastando as questões financeiras do âmbito das discussões.

Partilha e autonomia. Nos ca­samentos actuais assistimos à ma­nutenção de contas separadas e uma terceira para a qual os cônju­ges contribuem a meias, de forma proporcional ao salário ou apenas em função dos acordos pré-esta­belecidos sobre quem paga o quê. A verdade, no entanto, é que casa­mos cada vez mais tarde e muitas vezes trazemos para a relação um historial financeiro de ganhos, dí­vidas e compromissos que passam a ser partilhados.

Independentemente das diferen­ças de salário, de haver muito ou pouco dinheiro, a gestão das fi­nanças no quotidiano é frequen­temente fonte de problemas no casal, uma vez que se trata de li­dar com questões de poder e con­trolo da dinâmica da relação. A manutenção da autonomia de ca­da elemento do casal numa socie­dade em que o nível de divórcios é tão elevado aconselha a que cada um mantenha a sua conta indivi­dual, para além daquela que resul­ta das necessidades do orçamento familiar. Pode parecer-nos uma visão do casamento muito mate­rialista, mas a verdade é que ac­tualmente estamos na era dos ca­samentos negociados, em que te­mos que descobrir como conviver, respeitando sempre as diferenças do outro. Não se trata de adoptar uma atitude individualista, mas apenas de preservar a autonomia necessária para exprimir a nossa individualidade na vida de casal. Se ambos partilharmos os nossos sonhos, onde queremos ir, o que queremos fazer, o que queremos para os nossos filhos, que impor­tância atribuímos às necessidades dos familiares, então podemos es­tabelecer um orçamento que funcionará como guia. A cumplicida­de e capacidade de partilha que es­te processo exige terão como con­sequência maior proximidade dos elementos do casal, melhor solidi­ficação da noção do “nós” e a remo­ção do elemento financeiro da área da discussão para o introduzir na área do diálogo construtivo.

É muito importante que cada ele­mento do casal enfrente os seus sentimentos e crenças acerca do dinheiro e encontre disponibili­dade para discutir as suas finan­ças, tomando decisões em conjun­to acerca de orçamentos, objecti­vos a curto e longo prazo e estra­tégias de investimento.

 

Ajuda:

  • Falar sobre a situação finan­ceira antes de decidir casar. Considerar pagar as dívidas de cada um antes de casar. Conversar acerca de como a questão do dinheiro era vivida nas famílias de origem.
  • Conversar sobre como lida­mos com o dinheiro ou a falta dele no passado.
  • Ser honesto relativamente à situação financeira.
  • Estabelecer objectivos co­muns através de conversas regulares.
  • Desenvolver um orçamento que possa ser sempre revisto face a imprevistos.
  • Decidir antecipadamente qual o grau de endividamen­to aceitável.
  • Atribuir uma verba para as “loucuras” da família.
  • Dividir responsabilidades. Ter um comportamento mo­derado com as finanças indi­viduais.
  • Ter em conta a educação fi­nanceira dos filhos.
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Aprender a dizer não

Na relação que temos com os outros, é essencial identificar limites. Seja entre amigos, no casal ou em família, saber dizer não é uma virtude que nos poupa muito sofrimento.

De um modo geral, todos aprende­mos a palavra “não” por volta dos dois anos de idade e utilizamo-la com bastante frequência. Faz par­te do processo de crescimento e so­cialização saudáveis dizer não pa­ra desafiar a autoridade dos mais velhos, principalmente dos pais. Mas nesta altura é-nos permiti­do dizer não com bastante liber­dade.

Muitos de nós, no entanto, cres­cemos a ouvir dizer que devemos agradar aos outros. Dizer não vai desaparecendo gradualmen­te do nosso vocabulário ao longo do crescimento, sendo substituí­do por inúmeras maneiras de ser­mos agradáveis, disponíveis e sim­páticos. Não é suposto negar o pe­dido do chefe para fazer horas ex­traordinárias ou ao pedido da fa­mília para cumprir mais uma tra­dição com os nossos pais, mesmo que isso ponha em causa os nossos planos. Subentendido a tudo isto, acreditamos que dizer não pode custar muito na nossa vida emo­cional, profissional e relacional.

Olhar dos outros. Exprimir de­sacordo obriga-nos a ter uma ati­tude pró-activa, ou seja, a colocar em questão a ordem estabelecida e, em seguida, a aceitar o dever de dialogar e negociar com o outro. Mas também nos fragiliza, na me­dida em que nos expomos a críti­cas e ao escrutínio dos outros. Recentemente vi em consulta uma senhora considerada por todos que a conhecem como uma pessoa de extrema disponibilidade e simpa­tia, sempre disposta a ajudar os ou­tros e a aceitar as necessidades de­les como suas. Após uma situação de doença grave, esta senhora pa­rou para pensar em si e teve a cora­gem de dizer que não estava dispo­nível. No entanto, a falta de hábi­to de a ouvirem dizer não surpre­endeu todos. E a falta de resposta que encontrou junto daqueles a quem pediu ajuda fê-la sentir-se, como me confessou, “má, agressi­va, uma alma atormentada.” Presa entre a necessidade de se afirmar e o hábito de dizer sempre que sim, sentia que lhe faltava a capacidade de saber dizer não e de ser capaz de negociar uma alternativa. Mas es­sas alternativas existem, como ve­remos a seguir.

Não agressivo. É afirmado com despeito. São utilizadas frases co­mo “Está a brincar comigo? Eu cuidar do seu animal enquanto você estiver fora?”. Algumas vezes inclui um ataque à pessoa que faz o pedido: “Deve estar doi­do, eu nunca poderia tomar conta seu animal enquanto você es­tiver fora!”

Não negativo. É acompanhado pelas desculpas de “mau pagador” e racionalizações, ou seja, expli­cações muito consistentes sobre as razões que impedem aceder ao pedido. Se sentimos falta de con­fiança quando dizemos não, pode­mos pensar que necessitamos jus­tificá-lo com inúmeras razões para convencer o outro. Podemos mes­mo inventar uma desculpa para apoiar esta decisão que, no entan­to, pode voltar-se contra nós se a mentira for exposta.

Não assertivo. Simples e direc­to: “Não, não me será possível aju­dá-lo com isso!” Podemos oferecer uma explicação, que também deve ser clara e simples: “Não, não me será possível ajudá-lo com isso, já tenho um compromisso para sex­ta-feira à noite.”

Afirmação pessoal. As contra­dições, os desacordos e os acordos possíveis permitem uma comuni­cação verdadeira. Sempre que for­mos assertivos a dizer não, pode­mos dedicar um bocadinho do nosso tempo ao prazer que sen­timos nessa forma de afirmação pessoal. Em suma, saber dizer não aos outros permite-nos dizer “sim” a nós mesmo da forma mais acertada. 

 

Para pensar:

  • Para obter um “sim” da sua parte, todos os seus interlocutores vão tentar fazer com que se sinta cul­pado. Não se deixe influenciar nem ceda a chantagens, sobretudo à chantagem emocional.
  • Quando alguém lhe fizer um pedido, pondere os prós e os contras da questão com tempo e dê a sua resposta. Nunca hesite em pedir um tempo para reflectir e recorde-se que a decisão depende apenas de si.
  • Assegure-se de que a sua voz soa firme e directa. Olhe as pessoas nos olhos quando diz “não” e reforce o que diz abanando a cabeça ao mesmo tempo.
  • Recusar é sempre fonte de an­siedade. Aprenda a geri-la, tomando consciência dos pensamentos negativos que confundem a vontade de recusa. Substitua os monólogos interiores negativos por pensamentos realistas como “tenho o direito de exprimir as minhas opiniões”.
  • O método do “não, mas…” permite- nos contornar a dificuldade. Ofereça alternativas sem abdicar da sua decisão. Mostramos assim que reflec­timos no pedido que nos foi feito e que a nossa recusa não surgiu apenas por desinteresse ou por ser a resposta mais fácil.
  • Dizer “sim” quando quer dizer “não” poderá ser fonte de mal-estar. Isso consome ener­gia, gera desconforto e seria desnecessário se apenas tivesse dito “não”.
  • Não recuse apenas pelo espírito de con­tradição, porque está enervado, tenso ou porque acha que “já aprendeu a lição”. O “não” deve ser autêntico e favorecer mudanças genuínas.
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Depois do acto sexual

Ouvimos falar com frequência da importância dos preliminares numa relação sexual bem sucedida. Contudo, muito pouca atenção tem sido dada ao “depois”, igualmente importante numa relação sexual gratificante e emocionalmente rica.

Ao darmos pouca importância aos momentos que se seguem ao orgasmo, estamos a perder uma parte muito rica do nosso relacio­namento. Com o passar dos anos é muito frequente marido e mulher voltarem-se cada um para seu la­do após a relação sexual, adorme­cendo quase de imediato. No en­tanto, podemos ficar agradavel­mente surpreendidos com os efei­tos agradáveis que o “depois” pode ter, mesmo a longo prazo, no rela­cionamento amoroso do casal.

Três fases. O acto sexual pode ser dividido em três componen­tes: os preliminares, o acto sexu­al propriamente dito e o “depois”. Os preliminares, acerca dos quais muito já foi dito e escrito, são ge­ralmente aqueles momentos de in­timidade, jogos amorosos e sexu­ais que antecedem o coito. Podem ter uma duração muito variável, que oscila entre alguns minutos e horas, e que tem apenas como limi­te a imaginação de cada um.

O acto sexual propriamente dito, que inclui a penetração, ou coito, é o que a maior parte das pessoas considera a relação sexual e os mo­mentos de maior prazer sexual. No entanto, o que acontece após a penetração e o orgasmo pode ser tão agradável e emocionalmente grati­ficante quanto o que aconteceu an­tes. Infelizmente pouco se tem es­crito ou dito acerca desta compo­nente da relação sexual.

Um estudo desenvolvido nos Esta­dos Unidos mostra que uma gran­de percentagem dos casais ques­tionados adormecem no espaço de uma hora após a relação sexu­al. Surpreendentemente, quer o homem como a mulher expres­sam os mesmos desejos e expecta­tivas em relação àquilo que gosta­riam que se passasse. Por outro la­do, a maior parte dos entrevistados não se sente satisfeito com a sua vi­vência actual do “depois”.

Tabu? De um modo geral, a refe­rência ao que corre bem na relação sexual exclui a fase pós-coital, o “depois”. Será este um assunto ta­bu? E se os resultados apresenta­dos no referido estudo puderem ser extrapolados para a popula­ção em geral, porque será que o “depois” parece ser um momento tão pouco valorizado pelos aman­tes ou, pelo menos, não satisfató­rio? Essencialmente, duas explicações parecem ser plausíveis: fa­diga e ignorância.

A fadiga ocorre como consequên­cia do orgasmo, processo regulado pelo sistema nervoso parassimpático, o que significa que induz uma sensação intensa de relaxamento. Assim, é natural que o sono apare­ça rapidamente, particularmente no homem. Já a ignorância prende- se com a natureza fisiológica do ho­mem e da mulher.

O ginecologista William Masters e a psicóloga Virginia Johnson, pio­neiros em investigação de compor­tamento sexual e autores de várias obras sobre o tema, apresentam ex­plicações que esclarecem estas di­ferenças de género. Dizem os es­pecialistas que o homem retoma os batimentos cardíacos e a res­piração mais rapidamente do que a mulher. Assim, enquanto o ho­mem tem um período de resolu­ção consideravelmente rápido, o da mulher é bastante mais lon­go, mantendo os sinais de excita­ção durante mais tempo na fase pós-coital.

Não ditos. Se o acto sexual for rápido, intenso e insatisfatório, os parceiros, em especial a mulher, podem experimentar um estado depressivo pós-coital. A sensação de vazio e ressentimento pode ser atenuada por um “depois” emo­cionalmente rico e envolvente. Já se durante a relação sexual ocor­rer algo de inesperado ou negati­vo, nomeadamente num casal que tenha o hábito de valorizar o “de­pois”, a sensação de vergonha ou mal-estar pode ser atenuada nes­tes momentos.

O mesmo já deve ser encarado com alguma prudência se a vi­vência do “depois” não for habi­tual, para que não possa ser con­fundido com atitudes desencade­adas por sentimentos de piedade. Nestas situações, virar para o lado e dormir ou discutir abertamente o ocorrido pode ser penoso, mas certamente menos gerador de equívo­cos que, por decorrerem do não di­tos, podem ser mais difíceis de es­clarecer.

Não fazer. Algumas situações que deveriam estar definitivamente fora destes momentos incluem, entre outras:

  • Demonstrar ao parceiro que um momento muito gratificante acabou de acontecer e o que resta é desinteressante.
  • Aproveitar a boa disposição do parceiro para falar da relação ou dar conta de situações menos agradáveis no seu comportamento do dia-a-dia.
  • Aproveitar o clima de intimidade para discutir problemas de emprego, de finanças caseiras ou relacionadas com os filhos.
  • Não respeitar a possível vulnerabilidade do outro para criticar a sua performance ou compará-la com a de anteriores parceiros.
  • Não sair da cama imediatamente após a relação sexual, coisa que impede totalmente a oportunidade de vivenciar o “depois”.
  • Não implementar novas formas de estar na relação repentina­mente, só porque lemos numa revista que seria a forma “correcta” de valorizar uma relação sexual.

Ser divertido. Alterar hábitos depende acima de tudo da sensi­bilidade do casal. Muitas pesso­as optam apenas por permanecer com os seus corpos juntos, sabore­ando o toque, o cheiro, o sabor de cada um quase como o prolongar de uma satisfação, bastante mais emocional nesta fase. Outros pre­ferem trocar carícias.

Qualquer que seja a opção do casal, ela deve ser divertida e agradável para ambos. É bom receber carí­cias, mas, lá por gostarmos tanto, não devemos sentirmo-nos mago­ados se o outro as rejeitar e preferir apenas permanecer junto.

Uma conversa centrada na intimi­dade do casal, daquilo que um va­loriza no outro, pode potenciar os aspectos emocionais positivos da sexualidade e fortalecer os laços da relação — o que também acon­tece quando partilhamos uma his­tória divertida, um sorriso de cum­plicidade.

Outro factor muito importante pa­ra vivenciar bem o “depois” pren­de-se com a hora do dia geralmen­te escolhida para o relacionamen­to sexual. Os casais que escolhem a noite irão ceder mais facilmente à fadiga e adormecer. Optar por ou­tras horas do dia para o relaciona­mento sexual é, por isso, uma forma de fugir ao silêncio e enrique­cer uma parte muito importante do nosso relacionamento.

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Amigos para todas as ocasiões

Os amigos têm características muito próprias e variadas que quase sempre nos ajudam a enfrentar crises pessoais mediante diferentes soluções.

Os amigos que estão sempre em festa podem ser uma importan­te ajuda quando a solução para o nosso problema é simplesmen­te sair para dançar e ver pessoas. Nessas alturas não há como a boa disposição daqueles amigos que estão sempre prontos para nos ar­rastar para o último bar da mo­da. São, na verdade, o par perfei­to quando sentimos que a depres­são e a tristeza nos inibem a capa­cidade de encarar os problemas e tiram força para fazer aquilo que desejamos e que sozinhos não con­seguimos.

Há, no entanto, que não confundir os números de telefone, pois na ge­neralidade estas pessoas encaram a vida de forma superficial, não promovendo com essa forma de estar a reflexão sobre os assuntos. Muitas vezes este estado de festa constante resulta de uma fuga à realidade e de uma incapacidade de lidar com o sofrimento, e ain­da que possa ser bastante positivo puxar um amigo para fora de casa, também devemos reflectir e, quem sabe, sofrer um pouco.

Amigo honesto. É aquele que nos diz tudo, o que queremos e não queremos ouvir. Pergunta o que mais ninguém tem coragem de perguntar, mesmo que as res­postas sejam duras de encarar. Existem momentos, no entanto, em que a franqueza pode ser mui­to indigesta. Ainda que sábias, as palavras de um amigo podem não ser exactamente aquilo que preci­samos para modificar uma situa­ção. A mais-valia deste tipo de ami­gos consiste na sua franqueza, que em muitos casos é o empurrão ne­cessário para pôr em prática o que sabemos que precisa ser feito.

Os velhos amigos, com quem por vezes estamos apenas uma vez por ano, têm também um papel muito importante nas nossas crises. Pro­vavelmente não estão connosco no momento em que ela se decla­ra ou em que precisa de ser resol­vida, mas a distância dá uma visão mais objectiva e descomprometi­da que nos leva a encarar soluções que muitas vezes já conhecíamos e apenas precisávamos de aplicar a novos contextos.

Reencontrar um velho amigo também é uma possibilidade de ter uma conversa agradável e descomprometida em que são recor­dados velhos acontecimentos e so­luções que se revelam muito úteis para o momento actual. Na medi­da em que a solução dos nossos problemas tem de vir de dentro, recordar com um velho amigo de infância características que sempre tivemos e que deixámos ador­mecer pode ter um papel prepon­derante para encontrarmos solu­ções para as crises.

Ombro amigo. Outro tipo de amigos são aqueles que sabemos poder confidenciar as maiores angústias e problemas, que estão sempre pronto para ouvir e que assumem uma importância fun­damental em momentos de crise aguda. Geralmente, nestes mo­mentos de crise mais intensa pro­curamos esta faceta da amizade e é bom termos alguém que sabe ouvir. Nem sempre nos oferecem soluções, mas inspiram confian­ça e são capazes de nos dar colo. São muitas vezes considerados os verdadeiros amigos e o que os tor­na tão especiais é a sua capacida­de de ouvir, a sua sensibilidade e bom senso. Mas a melhor qualidade talvez seja a capacidade de ou­vir. E saber ouvir é cultivar a difí­cil arte da empatia, que, descrita de uma forma muito simples, é a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.

Saber ouvir. Comunicar é mui­to mais que a simples troca de pa­lavras. Há um número infinito de nuances que geram estímulos percebidos e recebidos pelo outro, através dos quais a comunicação se processa. O olhar, o tom de voz um pouco diferente, um franzir de so­brolho, um sorriso podem comu­nicar muito mais do que apenas as palavras nos dizem. Saber ouvir é muito mais do que escutar. Saber ouvir é sermos capazes de nos co­locar no lugar do outro, prestar atenção ao significado das pala­vras, à forma como a mensagem está a ser transmitida, ao estado emocional que se processa cm nós e no outro.

Os bons amigos são capazes de ou­vir. Com frequência estamos de tal forma orientados para encontrar soluções que muitas vezes nos es­quecemos de ouvir o que o nosso amigo precisa de desabafar. Mui­tas vezes o seu pedido é só esse e, como tal, dar-lhe mais é sinal de que não o percebemos.

Ouvir aquele que sofre exige da nossa parte uma capacidade de abdicação e entrega muito gran­de. Implica sermos capazes de dispor do nosso tempo para par­tilhar o seu sofrimento. Mas se é bom ter este tipo de amigos, nem sempre é fácil sê-lo. Por vezes o excesso de desabafos pode tor­nar-se prejudicial para a amiza­de. Também podemos sentir leal­dades conflituais, quando as ques­tões que nos são colocadas envol­vem pessoas com quem temos re­lações igualmente fortes. Por ve­zes, a melhor forma de ajudar um amigo é encaminhá-lo para um especialista, eventualmente um psicólogo, que está treinado para lidar com questões da distância, pois não tem uma relação de ami­zade a preservar.

Tinha um amigo que, sabendo da minha formação, desabafava com frequência as suas desaven­ças conjugais. A minha relação de amizade era mais forte e an­tiga com ele, mas também com a sua mulher. Por sua vez, o tipo de problemática que me trazia repe­tia-se com muita frequência. Mu­davam os conteúdos mas a forma mantinha-se. Tentei ajudá-lo ouvindo-o e incentivando-o a ques­tionar-se sobre outras formas de olhar para o assunto. Mas a rela­ção de amizade complicou-se. A minha incapacidade para lhe for­necer soluções com que concor­dasse, a minha recusa em servir de “pombo-correio” entre ele e a mulher, começou a arrefecer a re­lação. Finalmente entendi que a melhor ajuda que podia prestar a este casal, que também era meu amigo, era indicar-lhes um profis­sional que fosse capaz de guardar a distância necessária para conse­guir a objectividade, também ne­cessária, que obviamente eu já tinha perdido. Com isso salvei uma boa amizade com duas pessoas, que hoje já não estão juntas.