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Lidar a dois com a infertilidade

Os casais que sofrem por não conseguirem ter filhos dificilmente conseguem falar disso com outras pessoas. O problema é muitas vezes vivido apenas a dois, mas deve ser partilhado para não se tornar um sofrimento ainda maior.

Até há pouco tempo, se um casal não tinha filhos, a causa era ime­diatamente atribuída à mulher e raros eram os casos em que a pos­sibilidade de existir, também, um factor masculino era equacionada.  Actualmente, as perturbações da fertilidade são encaradas como um proble­ma de casal e não apenas da mu­lher, um problema que precisa ser vivido a dois.

Decisão. Para a maior parte dos casais, a decisão de ter filhos mar­ca o início de um período que se caracteriza por excitação, intimi­dade e alegria. Depois de a mu­lher engravidar, o casal anunciaa notícia à família e aos amigos e prepara-se emocionalmente pa­ra o nascimento. Para estes casais, conceber um filho é um processo natural que culmina na concreti­zação de um sonho! Já para os que têm perturbações de fertilidade, a decisão de formar uma família marca o início de um período difí­cil e doloroso.

Os casais inférteis submetem a sua vida ao stress causado por gráficos de temperatura, consultas, medi­cação, cirurgias e até relações se­xuais com dia e hora marcados. Se, e quando, a gravidez ocorre, o casal tem tendência para viver es­se momento com uma alegria cau­telosa. Não há a notícia para família e nem para os amigos e mais do que preocupados em preparar a chegada do bebé, ambos estão interessados num projecto a cur­to prazo que é a manutenção de uma gravidez muito frágil.

A notícia da infertilidade é vivida de modo diferente de sujeito para sujeito. Varia consoante o sexo, a personalidade, a cultura em que está inserido, a sua história pes­soal e familiar e, claro, varia de acordo com a importância de que esse filho se reveste. Estudos clí­nicos permitiram identificar pa­drões típicos de resposta à infertilidade que diferem de forma no homem, na mulher e no casal, co­mo um todo. Não subestimar es­tas diferenças constitui uma me­lhoria na vivência subjectiva e nos resultados obtidos numa interven­ção clínica.

No feminino. Para as mulheres, mais do que para os homens, o stress da infertilidade resulta nu­ma baixa da auto-estima e bem- estar geral. As mulheres têm ten­dência a apresentar o mesmo nível de perturbação, quer a causa da in­fertilidade seja sua ou do seu côn­juge. O ciclo menstrual despoleta padrões emocionais característi­cos quando a mulher tenta engra­vidar e cada ciclo é vivido com a antecipação de sucesso.

Se a gravidez não acontece, a mu­lher é invadida por desaponta­mento, depressão e desespero. Há medida que o ciclo se vai repetin­do, experimenta cada vez mais tristeza, o que a pode desgastar e impedir o comportamento dirigi­do à fertilidade.

Com os repetidos insucessos de fertilidade, as perdas sucessivas tendem a aumentar a tristeza (de­pressão) e os medos (ansiedade), que podem tomar a forma de per­da da relação, real ou imaginária, perda de saúde, autoconfiança e esperança.

Uma sensação de despersonaliza­ção ocorre com frequência com a utilização de tecnologias repro­dutivas que não recorrem ao coi­to. Algumas mulheres podem sentir-se menos femininas e pre­ocuparem-se com o desaponta­mento que julgam provocar nos outros, particularmente no ma­rido ou nos pais.

Se, após algumas tentativas, a gra­videz não acontece, a mulher tem que redefinir o seu papel de adul­ta, fazer o luto da esperança per­dida do seu filho biológico e de­cidir se adopta uma criança ou integra a sua condição de adulto sem filhos.

No masculino. No homem, ge­ralmente só após três insuces­sos de fertilidade é que ele come­ça a manifestar o mesmo nível de perturbação emocional que a sua mulher. A antiga ideia de que a in­fertilidade se devia sempre à mu­lher teve consequências na reacção comportamental do homem perante a experiência da infertili­dade e no modo como participa na investigação e tratamento.

Quando o homem é diagnostica­do com este problema, a sua per­turbação sobrepõe-se à da mu­lher, apresentando o mesmo tipo de sentimentos, em termos de es­tigmatização, percepção de perda e desafio à auto-estima. A vergo­nha é uma das respostas que apa­rece naturalmente.

A perturbação emocional pa­ra um homem infértil é maior quando carrega o diagnóstico e se sente responsável por ele. Além de viver o drama de ser infértil, o ho­mem vive ainda o drama de “pri­var” a sua companheira do filho desejado. Contrariamente, no homem fértil pode existir um senti­mento de revolta contra sua mu­lher infértil, sentindo-a como um obstáculo para o seu papel de con­tinuador do nome de família. Po­de mesmo ter fantasias de esperar estar com outra mulher de fertili­dade conhecida. Estes sentimen­tos podem desencadear sentimen­tos de culpa, ainda que raramente expressos.

Em casal. As reacções do casal face à infertilidade são as mais di­versas e nesta fase quase tudo po­de acontecer. Se a questão levanta problemas psicológicos, sociais e culturais, também o faz, necessa­riamente, ao nível da relação. A infertilidade é vivida como uma crise de vida, por vezes bas­tante complexa, e confronta o ca­sal com situações difíceis de gerir. Origina frequentemente compor­tamentos e reacções que muitas vezes são inesperados para qual­quer um dos membros do casal. Aparece o choque, a surpresa, a descrença, a frustração, a raiva, o sentimento de perda de contro­lo, o isolamento, os sentimentos de culpa, a vergonha e finalmen­te a dor.

Alguns casais lidam com a infer­tilidade aumentando o conflito e o distanciamento, o que pode ameaçar a continuidade da rela­ção e aumentar o isolamento do parceiro, que sente a dor e o de­sapontamento. Por sua vez, tam­bém a sexualidade sofre com o apertado calendário da interven­ção na infertilidade. Integrar na vida sexual a medição das tempe­raturas e as perdas das ovulações deixa pouco espaço para a espon­taneidade. Muitos casais têm difi­culdade em fazer a transição para um regime rígido de relaciona­mento sexual determinado pela ovulação. Tanto o desejo como a qualidade podem sofrer durante o ciclo. Alguns homens desenvol­vem nestas situações uma disfun­ção eréctil no meio do ciclo, difi­culdades ejaculatórias e alterações na frequência do relacionamento e desejo sexual.

A sexualidade da mulher também pode ser significativamente afec­tada pela infertilidade. Mais de metade experimenta uma quebra na frequência do relacionamento e da satisfação sexual após o diagnóstico de perturbação da fertili­dade. Por sua vez a disfunção eréc­til, vaginismo, dispareunia e falta de frequência no relacionamento sexual devido a falta de desejo po­dem contribuir directamente para a infertilidade.

Procurar ajuda. As razões por que duas pessoas se juntam ini­cialmente são os sentimentos, o amor e o desejo de partilha que sentem. Essa é a principal razão e os filhos são um complemento dessa felicidade. O pedido de aju­da a um profissional qualificado para atender o casal tem-se mos­trado importante em casos de in­fertilidade, na medida em que po­dem ser atenuados os conflitos e o stress resultante de todas estas vi­vências, criando-se condições que favorecem a fertilidade do ponto de vista psicológico.

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Depois do acto sexual

Ouvimos falar com frequência da importância dos preliminares numa relação sexual bem sucedida. Contudo, muito pouca atenção tem sido dada ao “depois”, igualmente importante numa relação sexual gratificante e emocionalmente rica.

Ao darmos pouca importância aos momentos que se seguem ao orgasmo, estamos a perder uma parte muito rica do nosso relacio­namento. Com o passar dos anos é muito frequente marido e mulher voltarem-se cada um para seu la­do após a relação sexual, adorme­cendo quase de imediato. No en­tanto, podemos ficar agradavel­mente surpreendidos com os efei­tos agradáveis que o “depois” pode ter, mesmo a longo prazo, no rela­cionamento amoroso do casal.

Três fases. O acto sexual pode ser dividido em três componen­tes: os preliminares, o acto sexu­al propriamente dito e o “depois”. Os preliminares, acerca dos quais muito já foi dito e escrito, são ge­ralmente aqueles momentos de in­timidade, jogos amorosos e sexu­ais que antecedem o coito. Podem ter uma duração muito variável, que oscila entre alguns minutos e horas, e que tem apenas como limi­te a imaginação de cada um.

O acto sexual propriamente dito, que inclui a penetração, ou coito, é o que a maior parte das pessoas considera a relação sexual e os mo­mentos de maior prazer sexual. No entanto, o que acontece após a penetração e o orgasmo pode ser tão agradável e emocionalmente grati­ficante quanto o que aconteceu an­tes. Infelizmente pouco se tem es­crito ou dito acerca desta compo­nente da relação sexual.

Um estudo desenvolvido nos Esta­dos Unidos mostra que uma gran­de percentagem dos casais ques­tionados adormecem no espaço de uma hora após a relação sexu­al. Surpreendentemente, quer o homem como a mulher expres­sam os mesmos desejos e expecta­tivas em relação àquilo que gosta­riam que se passasse. Por outro la­do, a maior parte dos entrevistados não se sente satisfeito com a sua vi­vência actual do “depois”.

Tabu? De um modo geral, a refe­rência ao que corre bem na relação sexual exclui a fase pós-coital, o “depois”. Será este um assunto ta­bu? E se os resultados apresenta­dos no referido estudo puderem ser extrapolados para a popula­ção em geral, porque será que o “depois” parece ser um momento tão pouco valorizado pelos aman­tes ou, pelo menos, não satisfató­rio? Essencialmente, duas explicações parecem ser plausíveis: fa­diga e ignorância.

A fadiga ocorre como consequên­cia do orgasmo, processo regulado pelo sistema nervoso parassimpático, o que significa que induz uma sensação intensa de relaxamento. Assim, é natural que o sono apare­ça rapidamente, particularmente no homem. Já a ignorância prende- se com a natureza fisiológica do ho­mem e da mulher.

O ginecologista William Masters e a psicóloga Virginia Johnson, pio­neiros em investigação de compor­tamento sexual e autores de várias obras sobre o tema, apresentam ex­plicações que esclarecem estas di­ferenças de género. Dizem os es­pecialistas que o homem retoma os batimentos cardíacos e a res­piração mais rapidamente do que a mulher. Assim, enquanto o ho­mem tem um período de resolu­ção consideravelmente rápido, o da mulher é bastante mais lon­go, mantendo os sinais de excita­ção durante mais tempo na fase pós-coital.

Não ditos. Se o acto sexual for rápido, intenso e insatisfatório, os parceiros, em especial a mulher, podem experimentar um estado depressivo pós-coital. A sensação de vazio e ressentimento pode ser atenuada por um “depois” emo­cionalmente rico e envolvente. Já se durante a relação sexual ocor­rer algo de inesperado ou negati­vo, nomeadamente num casal que tenha o hábito de valorizar o “de­pois”, a sensação de vergonha ou mal-estar pode ser atenuada nes­tes momentos.

O mesmo já deve ser encarado com alguma prudência se a vi­vência do “depois” não for habi­tual, para que não possa ser con­fundido com atitudes desencade­adas por sentimentos de piedade. Nestas situações, virar para o lado e dormir ou discutir abertamente o ocorrido pode ser penoso, mas certamente menos gerador de equívo­cos que, por decorrerem do não di­tos, podem ser mais difíceis de es­clarecer.

Não fazer. Algumas situações que deveriam estar definitivamente fora destes momentos incluem, entre outras:

  • Demonstrar ao parceiro que um momento muito gratificante acabou de acontecer e o que resta é desinteressante.
  • Aproveitar a boa disposição do parceiro para falar da relação ou dar conta de situações menos agradáveis no seu comportamento do dia-a-dia.
  • Aproveitar o clima de intimidade para discutir problemas de emprego, de finanças caseiras ou relacionadas com os filhos.
  • Não respeitar a possível vulnerabilidade do outro para criticar a sua performance ou compará-la com a de anteriores parceiros.
  • Não sair da cama imediatamente após a relação sexual, coisa que impede totalmente a oportunidade de vivenciar o “depois”.
  • Não implementar novas formas de estar na relação repentina­mente, só porque lemos numa revista que seria a forma “correcta” de valorizar uma relação sexual.

Ser divertido. Alterar hábitos depende acima de tudo da sensi­bilidade do casal. Muitas pesso­as optam apenas por permanecer com os seus corpos juntos, sabore­ando o toque, o cheiro, o sabor de cada um quase como o prolongar de uma satisfação, bastante mais emocional nesta fase. Outros pre­ferem trocar carícias.

Qualquer que seja a opção do casal, ela deve ser divertida e agradável para ambos. É bom receber carí­cias, mas, lá por gostarmos tanto, não devemos sentirmo-nos mago­ados se o outro as rejeitar e preferir apenas permanecer junto.

Uma conversa centrada na intimi­dade do casal, daquilo que um va­loriza no outro, pode potenciar os aspectos emocionais positivos da sexualidade e fortalecer os laços da relação — o que também acon­tece quando partilhamos uma his­tória divertida, um sorriso de cum­plicidade.

Outro factor muito importante pa­ra vivenciar bem o “depois” pren­de-se com a hora do dia geralmen­te escolhida para o relacionamen­to sexual. Os casais que escolhem a noite irão ceder mais facilmente à fadiga e adormecer. Optar por ou­tras horas do dia para o relaciona­mento sexual é, por isso, uma forma de fugir ao silêncio e enrique­cer uma parte muito importante do nosso relacionamento.

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Amigos para todas as ocasiões

Os amigos têm características muito próprias e variadas que quase sempre nos ajudam a enfrentar crises pessoais mediante diferentes soluções.

Os amigos que estão sempre em festa podem ser uma importan­te ajuda quando a solução para o nosso problema é simplesmen­te sair para dançar e ver pessoas. Nessas alturas não há como a boa disposição daqueles amigos que estão sempre prontos para nos ar­rastar para o último bar da mo­da. São, na verdade, o par perfei­to quando sentimos que a depres­são e a tristeza nos inibem a capa­cidade de encarar os problemas e tiram força para fazer aquilo que desejamos e que sozinhos não con­seguimos.

Há, no entanto, que não confundir os números de telefone, pois na ge­neralidade estas pessoas encaram a vida de forma superficial, não promovendo com essa forma de estar a reflexão sobre os assuntos. Muitas vezes este estado de festa constante resulta de uma fuga à realidade e de uma incapacidade de lidar com o sofrimento, e ain­da que possa ser bastante positivo puxar um amigo para fora de casa, também devemos reflectir e, quem sabe, sofrer um pouco.

Amigo honesto. É aquele que nos diz tudo, o que queremos e não queremos ouvir. Pergunta o que mais ninguém tem coragem de perguntar, mesmo que as res­postas sejam duras de encarar. Existem momentos, no entanto, em que a franqueza pode ser mui­to indigesta. Ainda que sábias, as palavras de um amigo podem não ser exactamente aquilo que preci­samos para modificar uma situa­ção. A mais-valia deste tipo de ami­gos consiste na sua franqueza, que em muitos casos é o empurrão ne­cessário para pôr em prática o que sabemos que precisa ser feito.

Os velhos amigos, com quem por vezes estamos apenas uma vez por ano, têm também um papel muito importante nas nossas crises. Pro­vavelmente não estão connosco no momento em que ela se decla­ra ou em que precisa de ser resol­vida, mas a distância dá uma visão mais objectiva e descomprometi­da que nos leva a encarar soluções que muitas vezes já conhecíamos e apenas precisávamos de aplicar a novos contextos.

Reencontrar um velho amigo também é uma possibilidade de ter uma conversa agradável e descomprometida em que são recor­dados velhos acontecimentos e so­luções que se revelam muito úteis para o momento actual. Na medi­da em que a solução dos nossos problemas tem de vir de dentro, recordar com um velho amigo de infância características que sempre tivemos e que deixámos ador­mecer pode ter um papel prepon­derante para encontrarmos solu­ções para as crises.

Ombro amigo. Outro tipo de amigos são aqueles que sabemos poder confidenciar as maiores angústias e problemas, que estão sempre pronto para ouvir e que assumem uma importância fun­damental em momentos de crise aguda. Geralmente, nestes mo­mentos de crise mais intensa pro­curamos esta faceta da amizade e é bom termos alguém que sabe ouvir. Nem sempre nos oferecem soluções, mas inspiram confian­ça e são capazes de nos dar colo. São muitas vezes considerados os verdadeiros amigos e o que os tor­na tão especiais é a sua capacida­de de ouvir, a sua sensibilidade e bom senso. Mas a melhor qualidade talvez seja a capacidade de ou­vir. E saber ouvir é cultivar a difí­cil arte da empatia, que, descrita de uma forma muito simples, é a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.

Saber ouvir. Comunicar é mui­to mais que a simples troca de pa­lavras. Há um número infinito de nuances que geram estímulos percebidos e recebidos pelo outro, através dos quais a comunicação se processa. O olhar, o tom de voz um pouco diferente, um franzir de so­brolho, um sorriso podem comu­nicar muito mais do que apenas as palavras nos dizem. Saber ouvir é muito mais do que escutar. Saber ouvir é sermos capazes de nos co­locar no lugar do outro, prestar atenção ao significado das pala­vras, à forma como a mensagem está a ser transmitida, ao estado emocional que se processa cm nós e no outro.

Os bons amigos são capazes de ou­vir. Com frequência estamos de tal forma orientados para encontrar soluções que muitas vezes nos es­quecemos de ouvir o que o nosso amigo precisa de desabafar. Mui­tas vezes o seu pedido é só esse e, como tal, dar-lhe mais é sinal de que não o percebemos.

Ouvir aquele que sofre exige da nossa parte uma capacidade de abdicação e entrega muito gran­de. Implica sermos capazes de dispor do nosso tempo para par­tilhar o seu sofrimento. Mas se é bom ter este tipo de amigos, nem sempre é fácil sê-lo. Por vezes o excesso de desabafos pode tor­nar-se prejudicial para a amiza­de. Também podemos sentir leal­dades conflituais, quando as ques­tões que nos são colocadas envol­vem pessoas com quem temos re­lações igualmente fortes. Por ve­zes, a melhor forma de ajudar um amigo é encaminhá-lo para um especialista, eventualmente um psicólogo, que está treinado para lidar com questões da distância, pois não tem uma relação de ami­zade a preservar.

Tinha um amigo que, sabendo da minha formação, desabafava com frequência as suas desaven­ças conjugais. A minha relação de amizade era mais forte e an­tiga com ele, mas também com a sua mulher. Por sua vez, o tipo de problemática que me trazia repe­tia-se com muita frequência. Mu­davam os conteúdos mas a forma mantinha-se. Tentei ajudá-lo ouvindo-o e incentivando-o a ques­tionar-se sobre outras formas de olhar para o assunto. Mas a rela­ção de amizade complicou-se. A minha incapacidade para lhe for­necer soluções com que concor­dasse, a minha recusa em servir de “pombo-correio” entre ele e a mulher, começou a arrefecer a re­lação. Finalmente entendi que a melhor ajuda que podia prestar a este casal, que também era meu amigo, era indicar-lhes um profis­sional que fosse capaz de guardar a distância necessária para conse­guir a objectividade, também ne­cessária, que obviamente eu já tinha perdido. Com isso salvei uma boa amizade com duas pessoas, que hoje já não estão juntas.

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Infidelidade: Restaurar a confiança

Uma traição induz muito sofrimento no casal e põe em causa uma das certezas mais importantes da sua base: a confiança.

Grande parte da hesitação que as pessoas sentem em confiar de no­vo após terem sido enganadas é sentirem que foram ingénuas e não quererem repetir o mesmo er­ro. É uma preocupação justificada, na medida em que a confiança que ambos os elementos do casal depo­sitam um no outro se baseia no mi­to da monogamia.

Prevenir. Não existem técnicas para prevenir situações de infidelidade. Contudo, há ideias-chave que os casais devem partilhar e que podem ajudar a evitar o desenvolvimento de relações extra-conjugais:

  • Estar ciente que ninguém é imune a uma relação fora do casamento.
  • Assumir um compromisso de honestidade, que, no fundo, é mais forte do que apenas uma promessa de monogamia.
  • Procurar continuamente uma comunicação aberta e honesta sobre tudo o que afecta o relacionamento, incluindo a atracção por outras pessoa.

Restaurar a confiança. Os mi­tos têm, de facto, a capacidade de nos fazer acreditar que não preci­samos de lutar por aquilo que que­remos, na medida em que nos as­seguram essa realidade. Recons­truir a confiança é, por isso, o ob­jectivo mais difícil e necessário de atingir neste processo de reconci­liação, não só com o outro mas também connosco. A urgência de levar o outro a acreditar que é pos­sível confiar de novo leva, com fre­quência, a cometer o erro de afir­mar a nova forma de estar através daquilo que acabámos de negar, atestando a nossa crença na mo­nogamia.

A verdade é que restaurar a con­fiança não passa apenas por rea­firmar algo que provámos não ser possível, mas envolvermo-nos se­riamente num compromisso ho­nesto, o que, entre outros, envolve partilha de sentimentos. Quando isso acontece, e quando existe ca­pacidade para partilhar com o par­ceiro os medos, interesses e, até, atracções por terceiros, estamos a construir uma relação baseada na confiança e com um entendi­mento mútuo bastante mais pro­fundo. O maior entrave com que nos deparamos nesta situação é assumir que a relação extraconju­gal terminou. Outro é saber se so­mos capazes de ultrapassar a má­goa e se o que sentimos pelo outro ainda é suficientemente forte pa­ra que faça sentido recomeçar. Co­mo sempre, recuperar a confiança é essencial.

Procurar ajuda. Este objectivo é atingido mais facilmente quando homem e mulher procuram uma terapia de casal a que ambos ade­rem —o que não acontece numa te­rapia individual, que, numa fase inicial, pode contribuir para uma alienação ainda maior entre o casal, mas não significa que após a terapia de casal cada um fique im­pedido de procurar ajuda indivi­dual para compreender os pro­blemas emocionais que conduzi­ram à infidelidade. Trabalhar em conjunto com um terapeuta aju­da a contextualizar a infidelida­de, a explorar os problemas con­jugais e, eventualmente, a evitar o divórcio ou optar por uma forma construtiva de o realizar.

Geralmente quem comete a infi­delidade é muitas vezes atacado pelo seu comportamento e é difí­cil ao casal conseguir adoptar um comportamento que promova o diálogo. Ora, o terapeuta permi­te criar um contexto seguro, con­fidencial e equilibrado, no qual o trabalho conjunto com o casal re­side na reconstrução do seu rela­cionamento.

Pontos comuns. Este trabalho terapêutico, ainda que seja dirigi­do ao casal, tem em consideração reacções individuais que são co­muns em praticamente todas as situações de infidelidade. Assim, é comum encontrar em ambos os cônjuges uma reacção depressi­va ao acontecimento, ansiedade e um profundo sentimento de per­da. Normalmente, o cônjuge traí­do apresenta reacções que incluem uma necessidade quase obsessiva de recordar os detalhes do rela­cionamento extraconjugal e um escrutínio constante na procu­ra de sinais de novas traições. Es­tas manifestações são semelhan­tes às que encontramos no stress pós traumático e devem ser enca­radas como tal do ponto de vis­ta terapêutico. Por outro lado, o cônjuge envolvido na relação ex­traconjugal pode recear um casti­go “eterno” pelo seu acto, ao mes­mo tempo que tem que fazer o lu­to dos sonhos e vivências dessa re­lação. Trata-se de um processo im­portante a ter em conta durante a terapia, na medida em que pode comprometer o envolvimento na intenção anunciada de recupera­ção do actual casamento.

Durante a primeira fase da te­rapia torna-se necessário clari­ficar o objectivo que move o ca­sal: reconstruir o casamento, re­solver a ambivalência no sentido de continuar ou não o casamen­to ou optar por um divórcio cons­trutivo. Não é necessário que am­bos estejam inicialmente de acor­do quanto a esse objectivo e pode muito bem acontecer que durante a terapia este evolua num ou nou­tro sentido.

Processo terapêutico. De acor­do com William Doherty, membro da Associação Americana de Tera­pia Familiar, existem três fases a considerar durante o processo te­rapêutico com durações e conteú­dos distintos.

A primeira, que tem lugar duran­te o primeiro mês após a decisão do pedido de ajuda, o casal pode sentir o renascer da esperança e da sensação de prazer na sua relação. A crise imediata é contida e a deci­são conjunta de procurar ajuda dá a ambos a noção de trabalho con­junto e investimento mútuo.

Numa segunda fase, que pode du­rar alguns meses, o terapeuta tra­balha com o casal a relação extra­conjugal e os problemas anteriores do casamento. Trata-se de uma fa­se muito delicada, na medida em que poderá haver tendência para colocar a responsabilidade no ou­tro ou nos problemas conjugais.  Com estas questões aparecem fre­quentemente reacções de zanga, raiva e angústia do elemento traí­do, o que contrasta com o clima da primeira fase. A reconstrução da confiança remete com frequência para reacções incongruentes, pa­ra avanços e recuos, que o parcei­ro que teve a relação extraconju­gal tem de aprender a tolerar, no­meadamente com a ajuda do tera­peuta, que procurará colocar estas reacções em contexto, permitindo ao casal compreendê-las à luz de outra realidade que não a falta de vontade em cooperar.

Numa terceira fase, provavelmen­te a mais longa, a terapia é orienta­da no sentido de reconstruir o rela­cionamento. A ideia-chave é sem­pre a mesma: não adianta fazer mais do mesmo, há que ser cria­tivo, inventivo na forma de estar e saber cativar. O desenlace nem sempre é feliz. Muitos casais uti­lizam um relacionamento extra­conjugal como pretexto para pôr fim ao casamento actual, muitos deles porque não sabem trabalhar o que o afasta do outro e da rela­ção. No entanto, casais que se en­volvem e comprometem num pro­cesso muitas vezes difícil e peno­so conseguem um casamento mar­cado por um maior entendimen­to, proximidade e, especialmen­te, cumplicidade.

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A importância do Auto-conhecimento

A capacidade de nos relacionarmos os outros está, em primeiro lugar, ligada à capacidade de nos auto-relacionarmos. Daí que o auto-conhecimento seja cada vez mais procurado, seja através de terapia ou de técnicas de meditação oriental.

Cada um de nós procura o seu in­terior motivado, na minha opi­nião, pela procura de segurança pessoal. Quero saber quem sou para ter mais segurança em mim. Quero saber quem sou, para saber quem procuro ou o que procuro no outro. E há medida que vou cres­cendo esta questão é cada vez mais importante. Quem sou eu? O que necessito? O que me atrai, o que me cativa, o que me satisfaz? Fala-se de um mundo novo, de um mundo despojado de certezas, de afirmações absolutas, de cami­nhos correctos, de lugares segu­ros. Há um risco maior, há solicita­ções permanentes, há obrigações inadiáveis, há trabalho constante e muito pouco tempo para nos de­dicarmos a nós próprios e ao ou­tro. Daí que quando escolhemos os amigos ou o companheiro com quem queremos partilhar a nossa vida sejamos mais exigentes e se­lectivos nessa escolha, que tende a ser cada vez mais verdadeira e in­dependente de questões sociais ou culturais.

Crescer com os desafios. Pe­rante novos desafios podemos to­mar duas opções: recusar o desafio e procurar refúgio no que é segu­ro, familiar e protetor ou aceitar o risco e experimentar novos papéis, situações e sensações.

Crescer implica enfrentar medos, ter a coragem de desafiar pressu­postos antigos, questionar ver­dades absolutas, ponderar cami­nhos tidos como certos, aceitar correr riscos. Muitas vezes prefe­rimos viver agarrados a tradições, costumes, regras, verdades que nos fazem sentir seguros (e prova­velmente infelizes), do que aceitar novas maneiras de ser e fazer, de sentir, de pensar, de estar.

Crescer implica realizar mudanças pessoais, alternando entre avanços e retrocessos, movimento e estag­nação, busca de novas sensações ou refúgio nas antigas. Pode significar dor, desvinculação, separa­ção, mas também segurança, for­ça, alegria e determinação. Uma mudança pessoal vai para além da mudança observável. A mudança física, objetiva e concreta é mais simples de realizar do que a mu­dança interior. Com maior ou me­nor dificuldade, mudamos de casa, de emprego, de cidade, alteramos hábitos de vida ou adaptamo-nos a novas circunstâncias. No entanto, a mudança interior necessária pa­ra nos adaptarmos a novos desafios da vida é muito mais dura e difícil de conseguir.

A mudança interior permite maior capacidade de adaptação à vida e de realização pessoal. Realizar uma mudança implica enfrentar medos, desafiar a au­toridade, estar preparado para assumir a responsabilidade pelos próprios atos.

Perante acontecimentos que desa­fiam a nossa maneira de pensar e de agir, ou perante situações que nos obrigam a tomar opções, po­demos optar por dois caminhos: a estagnação ou a evolução.

Crescer ou estagnar? Se as pressões ou os desejos para a es­tagnação prevalecem, tendemos a negar as oportunidades de vi­da que nos surgem, recusando-as ou encontrando justificações que nos permitem pô-las de parte sem nos sentirmos culpados. Impedi­mo-nos de arriscar numa relação porque temos medo de ser mago­ados, ou prolongamo-la indefini­damente no tempo por medo de ficarmos sós; não aceitamos um novo emprego aliciante porque o atual é seguro e fixo, ou recusa­mos uma nova tarefa porque te­mos medo de não sermos bem su­cedidos a fazê-la; não partimos em viagem com medo de não conse­guirmos voltar ou andamos sem­pre de lado para lado porque te­mos medo de parar.

Neste caminho não conseguimos aceitar que temos medo, que po­demos errar e que, por isso, op­tamos por viver estagnados mas “seguros” a um modo de vida. Normalmente agarramo-nos aos pressupostos que nos foram incu­tidos na infância, seguimos as pi­sadas daqueles em que confiamos, deixamos os mais próximos deci­dir o nosso rumo. Definimo-nos mais por aquilo que partilhamos com o outro do que pelas caracte­rísticas que nos são próprias ou ex­clusivas. Há uma tendência para a fusão com o outro.

Mais desafios. “Eu sou a rela­ção que formo com o outro; per­der a relação significa perder-me a mim mesmo”. Esta situação po­de ser muito angustiante e obri­gar a um grande desgaste pessoal, pois na corrida para satisfazermos os desejos do outro deixamos pa­ra trás os nossos. Bloqueamos os nossos impulsos e necessidades em favor das vontades do outro. Não expressamos a nossa verdade com medo de perder o outro. Se, pelo contrário, as pressões ou o desejo pessoal para a evolução se sobrepõem, optamos por arris­car, realizando mudanças que são movidas, decididas e iniciadas por nós. São mudanças que têm asso­ciadas mais dúvidas e incertezas, do que a segurança e solidez, pois o caminho a traçar é novo, diferen­te do conhecido e experimentado e, consequentemente, mais desa­fiante. Movemo-nos no sentido de construção da nossa identida­de, fortalecimento e crescimen­to pessoal. Nestas situações agi­mos. Somos capazes de organizar o tempo em função das necessi­dades pessoais, de dizer “não” ao outro, de defender princípios di­ferentes dos que nos foram incu­tidos. O adolescente é capaz de di­zer “não” às pressões dos amigos; a rapariga é capaz de terminar a re­lação em que sofre e assumir a vi­da de forma autónoma; a mulher parte para a viagem que necessita, enfrentando o mundo de frente; o homem inicia uma terapia porque sabe que sozinho não é capaz de resolver os seus problemas.

Forte e autêntico. Ter a cora­gem de arriscar e de enfrentar os obstáculos que esta ação implica é por si só um sinal de mudança, uma certeza de que acreditamos que a vida pode ser diferente. O caminho é pautado por dor ou so­frimento, mas acreditamos que o conseguimos trilhar. É certo que podemos não acertar sempre nas opções que fazemos ou magoar­mo-nos com algumas delas, mas sabemos que temos capacidade pa­ra realizar as mudanças e tornar­mo-nos mais fortes e autênticos. É neste momento que cada um é o verdadeiro ator e autor da sua vi­da. Na dúvida do que fazer, expe­rimente!

 

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Aborto Espontâneo , Sonho adiado

Com o aparecimento da pílula e de técnicas de reprodução medicamente assistida, aquilo que para muitas mulheres passaria despercebido passou a ser vivido como um problema real: a interrupção involuntária no início da gravidez, ou seja, qualquer momento antes das 20 semanas de gestação.

Os abortos espontâneos são mui­to comuns. As estatísticas mos­tram que para as mulheres que tomam como medida de gravidez a falta de menstruação, cerca de 15% tiveram um atraso menstru­al sem uma gravidez subsequen­te. No entanto, o aparecimento de testes altamente sensíveis permi­te detectar uma gravidez ao fim de cinco ou sete dias após a fertiliza­ção do óvulo, cerca de uma sema­na antes do período menstrual. Se ao primeiro grupo juntarmos es­tas gravidezes detectadas tão pre­cocemente, o número de abortos espontâneos sobe para 3o%.

Explicação médica. As causas deste tipo de aborto podem ser muito diversificadas e parecem não reunir consenso. Contudo, alguns estudos apontam para que cerca de metade destas situações se devam a um erro genético no momento da concepção. Trata-se da resposta da mãe natureza a es­ta situação, descartando o ovo que resultaria num embrião inviável ou numa criança com problemas graves.

Contrariamente ao que muitos ca­sais julgam, o aborto não se deve, na maior parte dos casos, a atitu­des erradas, ainda que a adopção de um estilo de vida saudável, no que diz respeito ao exercício, ali­mentação e hábitos tabágicos e al­coólicos, potcncie a fertilidade do casal. Muitos médicos consideram o primeiro aborto deste tipo como fruto do acaso, embora esta expli­cação seja insuficiente para os fu­turos pais. A avaliação médica des­tas situações apenas se inicia após o terceiro aborto e, mais uma vez, a hipótese de haver uma falha ge­nética é muito grande.

Para identificar a causa dos abor­tos espontâneos, a mulher deve su­jeitar-se a uma série de testes. Um dos primeiros factores que deve ser pesquisado é a existência de ano­malias estruturais do útero, ana­tómicas ou não, que comprome­tam a implantação do embrião.

Esta parece ser a causa em 12% dos casos, apesar de muitos pro­blemas anatómicos poderem ser corrigidos cirurgicamente.

Os níveis hormonais são outra área de investigação. Por vezes o corpo da mulher não produz a quantida­de de progesterona necessária pa­ra permitir o crescimento do endo­métrio após a concepção. Noutros casos, um desequilíbrio da tiróide ou o aparecimento de uma diabe­tes também podem dar origem a este tipo de aborto. Nestes casos, a compensação hormonal e do es­tado metabólico em geral pode ser suficiente para que uma nova ten­tativa seja bem sucedida.

O estudo da mulher e do parcei­ro quanto a doenças sexualmen­te transmissíveis e outras, como a rubéola, é também necessário. Da mesma forma, o casal deve efectuar uma análise cromossó­mica através da determinação do cariótipo de cada um. Em alguns casos, raros, um dos cônjuges po­de ser portador de uma estrutura genética anormal que poderá in­viabilizar uma gravidez.

Lidar com a perda. Perder uma gravidez deixa qualquer casal nu­ma luta intensa para recuperar o equilíbrio emocional, ao mesmo tempo que o corpo da mulher re­cupera das alterações físicas. Se al­guns casais parecem pouco afecta­dos pelos acontecimentos, outros experimentam sentimentos de perda que os podem levar a uma instabilidade emocional e, por ve­zes, uma depressão reactiva a tu­do o que se passou. Muitos os ca­sais expressam uma tristeza que até aí não julgavam ser possível sentir e esse sentimento tem ten­dência a agravar-se com o número de abortos.

O modo como a mulher e o seu par encaram o aborto espontâneo é ge­ralmente diferente: a mulher ne­cessita de rever e falar acerca da perda, enquanto o homem se mos­tra mais prático e orientado para ultrapassar a situação. Isto não significa que o homem não este­ja a sofrer — as pessoas nem sem­pre ultrapassam os mesmos problemas ao mesmo ritmo ou com as mesmas soluções. De uma for­ma geral é o homem que consola a mulher, mas este não deve ser o único a proporcionar conforto. Cada um necessita de contar com o outro para dar suporte e confor­to, encontrando um espaço em que ambos se permitam estar infe­lizes, estar tristes, poderem falar e confraternizarem com outras pessoas sem julgamentos de valor quanto à forma como cada um rea­ge em determinado momento. Se já existem outros filhos, é nor­mal que eles expressem o senti­mento de responsabilidade pelo sucedido. Assim, devemos ouvir as suas preocupações e tentar ex­plicar-lhes o que se passou. As crianças devem ter a possibilida­de de partilhar e compreender a tristeza dos adultos e de expres­sar a sua própria tristeza.

Processo emocional. Todas as perdas representam objectivos que não foram atingidos, sonhos que se desvanecem e trazem algum pessimismo na forma de encarar o futuro. Em qualquer perda exis­te subjacente um processo que pode ser identificado através das se­guintes etapas: choque e negação; raiva, culpa e depressão; aceitação. Cada uma destas fases é necessá­ria para ultrapassar a perda. Leva tempo a ser superada e a forma que assume pode variar muito de pes­soa para pessoa.

A patologia apenas acontece quan­do há fixação apenas numa destas etapas e recusa em passar à scguin­te, no sentido da aceitação. Podem existir factores que favorecem es­sa fixação. Alguns podem ser ante­cipados e evitados, outros não. Se, por exemplo, se sofreu uma perda recente, e o momento do processo é o da raiva, culpa e depressão, e te­mos um convite para uma festa de crianças em que o ambiente não é adequado à nossa forma de estar, será melhor não comparecer à fes­ta e sair, envolvendo-se noutras ac­tividades que dêem prazer ao ca­sal. No entanto, se não for possível evitar situações como esta, então será melhor encará-las como incó­modos temporários inevitáveis. Percorrer o processo de luto faz parte da recuperação. Não faz de­saparecer a perda nem permite es­quecer, mas com o tempo permite encontrar um lugar para arrumar confortavelmente esta perda. Importa saber que todas as reac­ções são normais e o casal não de­ve sentir medo ou retracção em expressar e eventualmente expor a um terapeuta os seus medos e preocupações

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Ser Pai

A gravidez é um período geralmente desejado e bem recebido pelos casais. Mas se para a mulher significa um tempo de transformação e novidade, para o homem é muitas vezes um período marcado por um misto de alegria e ansiedade.

Quanto à alegria, a sua razão pa­rece-me evidente. Já a ansiedade está muitas vezes relacionada com a incapacidade em compreender e ajudar a mulher a ultrapassar as dificuldades decorrentes das transformações da gravidez.

Primeiro trimestre. Qualquer tipo de ajustamento gera stress e a preparação para um novo ser na família é uma enorme mudan­ça no estilo de vida de cada um de nós. O espaço físico e mental vai ser alterado e partilhado por um bebé. Os próximos nove me­ses são momentos de incerteza e novidade para a mulher e para o homem.

Compreender as alterações que vão ocorrendo durante este período pode ajudar o casal a ultrapas­sar pequenos desentendimentos. Assim, durante o primeiro tri­mestre a mulher experimenta grandes mudanças no seu am­biente hormonal de maneira a preparar o corpo para gerar uma nova vida. Nesta fase é comum as mulheres mostrarem-se susceptí­veis, com mudanças súbitas de hu­mor, especialmente no sentido da irritabilidade e do humor depres­sivo. Os enjoos matinais não são comuns a todas as mulheres, mas aquelas que os sofrem referem que os mesmos desaparecem ao fim dos primeiros dois a três me­ses. Cheiros, habitualmente tole­rados, como comida, tabaco, etc., podem tornar-se incómodos e des­poletar situações de enjoo.

Para ajudar a ultrapassar estes incómodos, o marido pode ter em atenção os intervalos entre re­feições, até porque um estômago vazio pode aumentar a sensação de náusea e uma ida ao cinema pode ser mais descansada e agra­dável para ambos se antes cuida­rem do estômago antes de entra­rem na sala.

Segundo trimestre. Durante o segundo trimestre o maior desa­fio surge com as alterações que o corpo da mulher começa a sofrer. A mulher pode ganhar peso de uma forma repentina e a presen­ça do bebé torna-se mais eviden­te através de movimentos que são percebidos pela mãe e muitas ve­zes visíveis para o pai. Durante este trimestre torna-se possível ou­vir o som do batimento cardíaco do bebé e vê-lo nas ecografias. Do ponto de vista psicológico, es­te é um período em que o bebé faz a sua aparição de forma mais evi­dente. Se até aí constituía uma ideia, um sonho bonito, agora a sua presença começa a condicio­nar ainda mais a vida do casal. Al­guns dos futuros pais começam a notar que por volta do segundo trimestre a mulher começa a de­monstrar alterações no apetite se­xual. A resposta das mulheres às mudanças que estão a ocorrer é di­ferente. Algumas tornam-se sexu­almente mais receptivas e alteram a sua frequência nas relações sexu­ais. Outras podem simplesmente estar demasiado cansadas ou preocupadas se o acto sexual irá pre­judicar o bebé. As experiências relatadas deste segundo trimes­tre são muito diferentes de casal para casal mas a verdade é que não existem regras para encarar a vida sexual. Os casais devem ape­nas informar-se dos reais incon­venientes que podem estar rela­cionados com a sua gravidez em particular.

Falar abertamente acerca das mu­danças que foram percebidas po­de ser uma forma de evitar dis­cussões e mal-entendidos entre alguém preocupado em criar o melhor ambiente para a nova vida e um futuro pai que começa a per­ceber que vai ter que partilhar a sua mulher com o bebé. Este é um momento único para o casal come­çar a experimentar novas formas de relacionamento, especialmen­te marcadas pelo compromisso en­tre o que quer, o que era habitual e as novas necessidades.

Terceiro trimestre. O tercei­ro trimestre é o período marcado pela preparação para o parto. As últimas semanas de gravidez pa­recem eternas para o futuro pai e para a mãe e os dois começam a verbalizar de forma mais intensa a sua preocupação com o bem-es­tar do bebé e se este será perfeito.

A aproximação do parto aumenta os receios dos futuros pais relati­vamente ao que irão encontrar. Outro problema que muitas vezes começa a ser verbalizado pelos fu­turos pais, com o nascimento emi­nente do filho, prende-se com as responsabilidades financeiras. Es­te pode ser um momento impor­tante para o casal rever a sua forma de estar na vida e chegar a consen­sos relativamente ao que conside­ra fundamental para a boa relação do casal e para a educação e bem—estar do seu filho. Para alguns ca­sais, habituados a viverem para os dois, sem preocupações com o fu­turo, pode ser um assunto difícil. A preparação de um orçamento antecipado pode ter vantagens. Quando se aproxima o momen­to do parto é comum as mulheres expressarem o seu medo da dor ou do parto. Dizer-lhe apenas que “tudo irá correr bem”, geral­mente não é muito eficaz. Impor­ta perceber a dois, antes da “hora H” qual o papel do pai, como pode ser um elemento securizante e co­mo pode participar neste momen­to, que, quer se queira ou não, vai ser vivido de forma muito inten­sa pela mulher. Principalmente, é necessário que ambos estejam conscientes das suas responsa­bilidades e limitações: a mulher não pode esperar que o marido não tenha dificuldades ou hesita­ções relativamente à sua conduta, ou mesmo que tenha dificuldade em presenciar o seu sofrimento. Não significa desinteresse, me­nor importância ou desprezo pe­lo momento, mas todos temos as nossas limitações.

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Feliz Natal ?

O Natal e o fim de ano são datas in­contornáveis. Os seus sinais inva­dem-nos e subitamente o mundo que nos rodeia fica colorido com lu­zinhas brilhantes, o Pai Natal es­preita em cada esquina e o irresistí­vel chamamento das montras leva- nos a contemplar os desejados pre­sentes. O Natal entra em nossa ca­sa através da publicidade na televi­são. Invariavelmente, a mensagem é de felicidade generalizada. Familiares, colegas de trabalho e amigos parecem apostados em ganhar a corrida das compras. As­sociado a todas estas questões es­tá implícita a alegria e o entusias­mo antecipado de quem vai ter um grande prazer em receber aquela prenda tão desejada.

Muitos de nós acabamos por asso­ciar a noção de felicidade, quem sa­be repetindo o prazer da magia dos natais da infância. São momentos mágicos, onde a harmonia fami­liar é reinventada, os brindes se sucedem e a esperança num futuro melhor é reafirmada. São dias especiais, dias em que é qua­se obrigatório estar feliz e por aí se mede a nossa sensação de integra­ção social.

Disfarçar a Tristeza. Por estar tão associada à felicidade, a qua­dra natalícia é uma altura em que a dor, o desgosto e a solidão não de­veriam estar presentes e se tornam difíceis de gerir. A ausência de al­guém muito querido é ainda mais sentida. Faltam forças para resis­tir à agitação familiar, para orga­nizar a consoada e para estarmos felizes, especialmente para com os mais novos.

A pressão de ter que correspon­der às expectativas dos outros, de disfarçar a tristeza para não estragar a festa ou de nos sentir­mos obrigados a conviver são situ­ações que apenas acrescentam so­frimento à nossa dor. Todavia, es­tas podem ser geridas com menos sofrimento.

A palavra de ordem terá que ser “protecção”, permitindo-nos não fingir gostar do insuportável e deixar que os amigos e familia­res conheçam os nossos senti­mentos. Devemos procurar as su­as opiniões, a sua ajuda sobre a me­lhor forma de lidar com estes mo­mentos, porque ignorá-los não fará a dor desaparecer mas partilhá- los poderá ajudar a suportar a so­lidão. Fazê-lo com antecedência é também importante. Partilhar o nosso estado de espírito vai per­mitiir que os outros ajustem as suas maneiras de agir, quebrando o ta­bu paralisante de não falar na per­da ou na dor a ela associada.

Direito aos sentimentos. As crianças deveria ser autorizada a liberdade de exprimir a saudade e tristeza e de questionarem os adul­tos sobre a melhor forma de lida­rem com a situação sem constran­gimentos. A sinceridade e dispo­nibilidade dos adultos são neces­sárias para que isso seja possível. Numa época em que toda a gente exibe sorrisos bem dispostos, es­tar triste é destoar. Contudo, to­dos nós podemos conquistar o di­reito aos nossos sentimentos dis­sonantes. Embora seja habitual festejar de acordo com rituais so­cialmente estabelecidos, estes podem cumprir-se de forma diferen­te, em acções que tenham signifi­cado individual, com sentido pró­prio, que integrem a dor e ajudem a curá-la.

Separação. O divórcio é outra das situações particularmente di­fíceis para viver na época natalí­cia. É necessário reorganizar a fa­mília, construir novas formas de celebrar e novos motivos de cele­bração. O círculo social transfor­ma-se, especialmente no primei­ro ano. Os amigos do outro, ou de ambos, podem já não fazer parte das relações mais próximas. As crianças continuam a esperar um Natal cheio de prendas. E o consu­mismo que nos caracteriza não é compatível com a perda de capaci­dade financeira resultante de uma separação. Boa disposição e muita criatividade precisam-se.

 

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Depressão: um assunto da família

Os dados estatísticos relativos à depressão demonstram que, de facto, o número de deprimidos tem vindo a crescer de forma consistente nos últimos 50 anos e que esse crescimento se verifica sobretudo nas pessoas nascidas depois de 1945. Por sua vez, os sintomas depressivos têm vindo a surgir cada vez mais cedo, perto dos 20 anos, enquanto que antes não seria de esperar encontrar pessoas com esta doença com menos de 3o.

A análise dos dados de estudos transculturais tem demonstrado que, embora tenham vindo a ser descobertas causas associadas a fatores individuais, bioquímicos e genéticos, esta é uma condição fortemente associada a fatores culturais. Podemos encontrar inúmeros fatores depressores na nossa cultura e, entre outros, destacam-se a facilidade de acesso a enormes quantidades de informação e a alteração da noção de tempo, causados pela súbita evolução tecnológica. Só desde 1945 devemos ter acumulado e criado mais formas de acesso a informação do que aquelas que produzimos até então.

Quanto maior é a quantidade de informação de que dispomos mais nos vemos forçados a roçar- lhe apenas a superfície, para evitarmos uma sobrecarga. Do ponto de vista psicológico somos levados a olhar esse excesso de informação de uma forma global, descurando o detalhe, o pormenor, donde resulta que, quando tentamos resolver um problema, tenhamos tendência para nos perdermos porque, frequentemente, a sua solução nos aparece dispersa, como numa sucessão de pequenos objetivos. Assim, cresce em nós uma sensação de impotência perante os problemas, que nos faz senti-los como inultrapassáveis e que nos leva a desistir de resolvê-los antes mesmo de tentarmos. Mas esta grande mais-valia da revolução tecnológica — a economia de tempo — também contribui para o aparecimento da depressão na medida em que permite que tudo aconteça com maior rapidez, ao contrário do que se verifica nas relações interpessoais, valores e cultura, em que as mudanças ocorrem de uma forma muito mais lenta. Não podemos aprender a ser bons juízes de carácter num instante nem querer estabelecer uma relação amorosa perfeita de um dia para o outro. Este novo conceito aplica-se bem à tecnologia, trazendo-nos inúmeras vantagens, mas faz-nos esquecer de que é necessário muito tempo para vencer etapas e atingir objetivos no domínio das relações humanas. Talvez o exemplo mais próximo de muitos de nós se prenda com o facto de, ao partilharmos a intimidade tendo sexo com alguém, acharmos que imediatamente construímos uma relação, quando na realidade ainda nem conhecemos a pessoa.

O que é? A depressão é caracterizada pelos profissionais de saúde mental como uma perturbação do humor mas também como um sintoma que pode variar muitíssimo de indivíduo para indivíduo. É seguramente uma situação complexa que irá afetar inúmeras facetas da vida de uma pessoa. Pode afetar-nos fisicamente, originando sintomas como a insónia, a fadiga, perturbações do apetite, diminuição do desejo sexual, ansiedade ou afetar-nos psiquicamente, interferindo com a capacidade de pensarmos com clareza, estarmos atentos e recordarmos, levando-nos a tomar decisões inadequadas. Também pode afetar-nos emocionalmente, causando-nos sentimentos de tristeza, desespero, culpa, inutilidade e apatia e desregular-nos comportamentalmente, conduzindo-nos ao abuso de álcool ou outras drogas, tentativas de suicídio, e outros comportamentos antissociais e auto-destrutivos. Pode ainda afetar as relações interpessoais, sociais e familiares, conduzindo à agressão, retraimento e perturbações no relacionamento do casal e familiar.

Existem essencialmente três formas de depressão: a unipolar em que apenas um dos extremos do continuum do humor se encontra afetado, no sentido da depressão, a doença bipolar, antigamente conhecida como maníaco-depressiva, que leva o indivíduo a oscilar periodicamente entre o polo da depressão e da mania e a distimia, geralmente mais ligeira que nos casos anteriores, mas mais crónica.

Estar em sofrimento. Os comportamentos e humor das pessoas deprimidas afetam toda a família: a irritabilidade que despoleta conflitos e altera a dinâmica familiar, os padrões de pensamento pessimista que contaminam todos, a não participação nas tarefas e ações mais banais da família, que gera toda uma panóplia de sentimentos de rejeição.

Contudo, as famílias são os melhores cuidadores para estas pessoas, podendo influenciar decisivamente a cura ou o aparecimento de recaídas. Os familiares destas pessoas são elementos cruciais para um diagnóstico precoce desta afeção. Muitas vezes o próprio não reconhece determinados sinais como sintomas depressivos atribuindo- os a outras razões relacionados com a idade, o dia-a-dia ou características de personalidade. Por outro lado o meio familiar contribui de forma importante para a atmosfera emocional em que crescemos, e como tal pode tornar-se, ou não, num fator de recuperação.

Tratamentos. Muitas vezes é prescrita medicação e a adesão à mesma, bem como a eficácia na sua toma, pode depender do apoio que o indivíduo deprimido sentir no seu ambiente familiar. Se os parentes não compreenderem ou aceitarem a necessidade do tratamento, quer ele seja medicamentoso ou psicoterapêutico, os resultados podem ser prejudicados reforçando a dificuldade que o paciente tem em cumprir tarefas ou sentir motivação externa no sentido da sua cura.

Por sua vez, a participação da família nas sessões de psicoterapia pode ser muito importante, nomeadamente quando existam crianças pequenas ou adolescentes envolvidos, na medida em que os elementos da família não estão imunes ao negativismo, fragilidade e falta de esperança que caracterizam o meio familiar em que existe uma pessoa com depressão.

Assim, e de uma forma preventiva, deve ser dado espaço para que estes elementos possam encontrar respostas sobre a forma como lidar como elemento deprimido e dar largas aos sentimentos, como a raiva a culpa ou mesmo o desejo de “mudar de família”. É também uma oportunidade para que os familiares, com o apoio do psicólogo, possam criar alguma rotatividade nos cuidados à pessoa com depressão, nomeadamente nas fases mais agudas. É frequente os cônjuges sentirem-se alienados da relação e as crianças sentirem-se culpadas, ressentidas e com comportamentos estranhos, por exemplo na escola.

Recursos individuais. A medicação e a psicoterapia são indubitavelmente necessárias como formas de tratamento e os medicamentos atualmente disponíveis têm um número significativamente menor de efeitos secundários do que aqueles que eram prescritos há quatro ou cinco décadas atrás. Também tem sido alargado o leque de terapias breves eficazes no tratamento da depressão: da psicoterapia cognitiva comportamental à terapia familiar, passando pelo uso de técnicas específicas como a hipnose ou o EMDR (Eye Movement Dessensitation Reprogramation), as possibilidades destas pessoas se sentirem rapidamente capazes de reingressarem na vida ativa com prazer e motivação são cada vez maiores.

Contudo, existem uma variedade de recursos que devemos possuir e aprender a por em prática como forma de evitar a depressão, dos quais talvez o mais importante seja o de reconhecer e tolerar a ambiguidade. Nada ou quase nada é branco ou preto na nossa vida. A capacidade de lidar com a incerteza e de abraçar um grande número de possibilidades evitando a procura da solução única que, porque funcionou no passado tem de funcionar agora, pode proteger-nos de reações de impotência e desespero.

O pensamento crítico perante o que nos rodeia é crucial para vencer a depressão. A capacidade de julgarmos criticamente as nossas ações aceitando a responsabilidade das mesmas na medida certa, colocando em nós e não no exterior a capacidade e motivação para a mudança, permite-nos sermos “senhores de nós”, ultrapassando sentimentos de incapacidade ou inutilidade.

Por fim, embora muitos outros recursos fiquem por nomear, a capacidade de estabelecer objetivos parcelares — face ao grande objetivo — e de reconhecermos as características inerentes aos mesmos é uma ajuda preciosa para que cada vez mais nos sintamos capazes. Em última análise, cultivar o relacionamento saudável com os outros, começando pela nossa família, tornando possível expressarmo-nos livremente, sem rancor mas com vontade de nos darmos a conhecer, procurando entender os outros, é seguramente uma forma de prevenir depressões.

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Solteiros e Felizes

Da mesma forma que a sociedade mudou para acolher os solteiros por opção, também a nossa cabeça tem que mudar, especialmente se ser solteiro resulta do fim de um casamento em que predominou a união e a não individualidade. Estar solteiro pode ser uma experiência produtiva e feliz, se essa for uma escolha consciente.

Três rostos. Existem pelo menos três formas de encarar a condição de solteiro. A primeira engloba pessoas que se sentem envergonhadas por terem de admitir que continuam sozinhas. Mostram-se desesperadas e anseiam por um companheiro. São facilmente aterrorizadas pelo medo de não terem ninguém que as ame, o que as leva frequentemente à depressão e à insatisfação, distanciando-as cada vez mais de um relacionamento.

Outras apregoam os benefícios de viverem sozinhas, mas não dispensam uma noitada, uma saída com amigos. Muitas delas estão a mentir a si próprias e aos outros, porque na realidade sentem-se sozinhas e percebem que estão tão desesperadas quanto as que sentem vergonha por estarem sozinhas. Para algumas destas pessoas a necessidade de um companheiro pode esconder uma dificuldade de relacionamento consigo próprias. Sentem esta fase como uma interrupção numa área da vida que não devia parar. O medo de ficarem sozinhas leva-as a passarem por relacionamentos desagradáveis. E ao rejeitarem ficarem sós, estas pessoas defendem-se da confrontação consigo mesmas, com as suas qualidades e insuficiências.

Por último, existem pessoas que, mesmo não sendo solteiras por opção, sentem-se felizes e sabem lidar com esse estado saboreando cada minuto da vida. São a melhor prova de que ser solteiro não é sinónimo de solidão. Mas porque viver a sós pode não ser voluntário, há que aprender a ser solteiro. Por vezes as pessoas que se encontram novamente solteiras após um divórcio sentem um grande alívio e rapidamente desfrutam das vantagens dessa situação. São geralmente casos de pessoas separadas cujos casamentos foram de tal maneira absorventes quase constituíram verdadeiras barreiras à realização pessoal. Tal não significa que os casamentos sejam por definição um impedimento à realização pessoal ou que os solteiros sejam mais felizes que os casados, pois nenhuma destas situações é perfeita. Estar bem connosco enquanto solteiros envolve três estádios básicos.

Autossuficiência. Ter prazer em estar solteiro envolve a capacidade de experimentar tudo através de nós próprios, em vez de o fazer através do parceiro. Significa cuidarmos de nós, mas também compreendermos a nossa personalidade. É neste trabalho de introspeção a sós que melhor percebemos e podemos explorar as nossas necessidades, gostos e objetivos individuais.

Ser solteiro pode ser visto como um estado que permite o crescimento pessoal, especialmente entre a adolescência e o casamento. Ao contrário do que geralmente acontece, ser solteiro podia até ser reconhecido como um estádio de maturação do indivíduo e não um motivo de pena ou estranheza, até porque permite aprender os princípios da responsabilidade e da autossuficiência, características difíceis de concretizar quando estamos envolvidos numa relação entre pais e filhos ou marido e mulher.

Infelizmente, muitas pessoas não vivem esta importante fase. Saem de casa dos seus pais diretamente para a sua família recém-constituída sem sequer considerarem que podiam ser felizes como solteiros por algum tempo.

Viver objetivos. Quando se casam, muitas pessoas deixam para trás muitos objetivos por cumprir e isso pode prejudicar o casamento. Daí que muitas pessoas divorciadas ou viúvas aproveitem a sua nova condição para viverem os seus sonhos: viver sós, aprender a conhecer os ritmos próprios, diversificar e aumentar o número de namoros, conhecer outro tipo de amigos e interesses, aprender a viver e a cuidar de si.

Antes de nos envolvermos numa relação de longo termo ou num casamento, geralmente preocupamo-nos em conhecer o outro, do que gosta, como é, que características nos atraem ou afastam. Se isso é importante quanto a terceiros, também o deveria ser em relação a nós próprios. Ser solteiro é especialmente indicado para nos envolvermos no conhecimento de nós mesmos, eventualmente colocando-nos as mesmas questões que colocaríamos quando conhecemos outras pessoas.

Muitos de nós fomos de tal forma influenciados pela família, pelos amigos e pelas normas sociais que que muitas vezes temos dificuldade em aceitarmo-nos e conhecermo-nos tal como somos.

Gerir o tempo. Se o estado de solteiro é consequência de uma relação desfeita, o tempo extra que advém pode ter de se tornar alvo de uma verdadeira aprendizagem. Se antes da separação, especialmente no caso das mulheres, o tempo livre entre a casa, o emprego e os filhos era quase nulo, agora pode não ser. E a tarefa por vezes mais difícil de encarar nesta nova condição é encontrar o que fazer nas horas livres. Saber tirar partido de ser solteiro significa aproveitar a liberdade para criar um estilo de vida excitante e recompensador. E vivê-lo sem a preocupação de não ser exatamente o que o outro gostaria. As possibilidades estão apenas limitadas pela imaginação e determinação.

Com a liberdade de gerir o tempo vem a liberdade de ação. Mesmo que ser solteiro tenha inconvenientes em termos financeiros, pelo menos podemos sempre adaptar os nossos sonhos ao tamanho do orçamento.